O Filme da Minha Vida (2017); Direção: Selton Mello; Roteiro: Marcelo Vindicatto e Selton Mello; Elenco: Vincent Cassel, Selton Mello, Johnny Massaro, Bruna Linzmeyer, Rolando Boldrin, Ondina Clais, Beatriz Arantes, João Prates, Erika Januza, Martha Nowill; Duração: 113 minutos; Gênero: Drama; Produção: Vania Catani; Distribuição: Vitrine Filmes; País de Origem: Brasil; Estreia no Brasil: 03 de Agosto de 2017

Confira a crítica em vídeo de Márcio Picoli, clicando no player acima! Veja também nossa entrevista com Selton Mello clicando aqui.

Selton Mello dava a impressão, conforme a campanha de divulgação de seu novo filme se expandia redes sociais digitais afora, de que havia amadurecido como diretor após o relativo sucesso conquistado em 2011, com O Palhaço. Filme que naquele ano acabou selecionado para representar o Brasil na disputa pelo Oscar, mas que terminou por não ir muito longe na disputa. Seis anos depois o cineasta e ator retorna com O Filme da Minha Vida, baseado no livro Um Pai de Cinema do chileno Antonio Skármeta. Toda a temática faz com que a produção aspire ares de grandiosidade, e parecemos ser constantemente lembrados disso. Contudo, o peso que Selton Mello quer deixar claro que seu filme carrega é, por fim, revelador de um egocentrismo exacerbante. Tudo porque, mesmo que não protagonize a história, é possível perceber seu envolvimento pessoal direto com a obra e o que ela retrata. O resultado é um conjunto de boas ideais cuja execução peca em diversos aspectos, encontrando principalmente uma embriaguez melodramática em relação à narrativa da história, que por sua vez não só esbarra em empecilhos, mas assume uma postura que se torna incômoda e sem sequer parecer ter noção das proposições que apresenta ao espectador.

É como se O Filme da Minha Vida se perdesse em meio ao estado idílico que tenta estabelecer, principalmente em seus preceitos estéticos. A narrativa, no entanto, também tem suas doses de devaneios, que parecem retirados de um passado nostálgico. O que provavelmente é como ecoa a produção para muitos, seu diretor incluso. As evidências disso, narrativamente, se fazem presentes na relação entre pai e filho, vividos, respectivamente, pelo francês Vincent Cassel (Jason Bourne) e Johnny Massaro. Desde o início, quando a narração nos introduz ao filme, são os resquícios dessa nostalgia que se fazem mais fortes. O fato de o filme abraçar a ideia de se assistir ao início e ao final de uma obra, por determinadas razões, parece tocar justamente naquilo que é o filme em si. Sabemos do que se trata a obra, mas há a constante sensação de que precisamos estar deslumbrados com a suposta beleza daquilo o que vemos. Aí quem tem maior destaque no filme é sua própria estética. Os tons das cores são bastante específicos e usados propositadamente para recriar essa sensação nostálgica. Algo que vai desde o figurino, à maquiagem e ao design da produção, tudo englobado, finalmente, pela fotografia, que faz questão de tornar o todo prejudicialmente inebriante.

Porque falta sutileza e sobra ingenuidade. Algo que se apresenta com clareza nos diálogos, que surgem com uma literalidade que vai além da exposição, sem permitir que um ou outro conceito se desenvolva ao longo do filme e tendo, majoritariamente, que ser resolvido no mesmo ato em que é abordado. O relógio, a dança, o filme e assim por diante; Coisas que aos poucos vão retirando material para ser trabalhado pelas atuações e pretere o melodrama como resolução. Sem contar na formalidade de algumas ideias, que parecem mais uma primeira versão de roteiro, onde falta ser trabalhada a naturalidade dos próprios personagens dentro dessa realidade fílmica. Consequentemente o que acontece é a superficialidade que encontramos na -não tão vasta- gama de personagens presentes em O Filme da Minha Vida, que nada mais faz além de reforçar estereótipos e sem sequer desenvolver competentemente seu próprio protagonista e as duas figuras que pairam sobre sua vida. A relação entre pai, mãe (interpretada por Ondina Clais) e filho indiretamente tem ares edipianos, os quais obviamente não concretiza, mas que parece se assimilar ao termo pelo menos de forma figurativa. O que acontece principalmente quando o protagonista retorna como se querendo tornar-se o homem da casa.

O que, por fim, revela o machismo que permeia O Filme da Minha Vida, uma obra na qual mulheres parecem estar fadadas somente aos papéis de mãe, namorada, esposa, miss e garota de programa. Chega a ser constrangedor, quando sugerido, que é só pagar uma mulher e dar a ela o mundo, para satisfazer a mesma. Se há momentos de ingenuidade em sobra, a ignorância parece querer fazer se sobressair em outros. Nos deparamos mesmo é com o egocentrismo do personagem principal, onde o mundo parece obrigado a ter de orbitá-lo, e se a história trata de seu amadurecimento, é apenas uma mera ilusão, onde lidamos, na realidade, com um mundo o qual parece curvar-se perante a vontade do protagonista. A tentativa de construir algo poético acaba tornando-se grotesca, onde até mesmo os bons lampejos de certos aspectos se fazem um desperdício frente ao âmago da obra, que no final das contas não passa de um produto cuja a entrega vem numa bela embalagem, nada mais. Perdido em suas convicções, Selton Mello realiza uma obra que é de enorme infelicidade, onde ao tentar dar um passo adiante em sua carreira acaba por afogar-se em meio às grandes ambições com as quais lida aqui.

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Crítica | O Filme da Minha Vida

O Filme da Minha Vida (2017); Direção: Selton Mello; Roteiro: Marcelo Vindicatto e Selton Mello; Elenco: Vincent Cassel, Selton Mello, Johnny Massaro, Bruna Linzmeyer, Rolando

Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Edição
Summary
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