Direção: James Gray

Roteiro: James Gray, Ric Menello

Elenco: Marion Cotillard, Joaquin Phoenix, Jeremy Renner, Angela Sarafyan

Estreia no Brasil: 11 de Setembro de 2014

Gênero: Drama

Duração: 120 minutos

Particularmente, pouco conheço da sucinta obra do diretor James Gray, entretanto é facilmente perceptível a grandeza de seu cinema, nem um pouco “digerível” aos grandes públicos, simplesmente por adotar um realismo incisivo junto a um tom pesado, referente na construção de seus personagens, na maioria dúbios e que se modelaram devido as circunstâncias afortunadas ou não da vida. É um tipo de cinema visando a interação do expectador, seja adquirindo sua repulsa ou mesmo sua simpatia, fazendo-o refletir seus conceitos e sua própria condição, por conta disso é compreensível o incômodo por parcelas do público a esse tipo, alguns consideram sádico, outros forçados, entretanto sua visão particular de mundo me soa, minimamente, curiosa e envolvente. Aprimorando tal visão, o diretor nos brinda com seu quinto filme: “Era Uma Vez em Nova York” (The Immigrant, no original), uma das obras mais dolorosas e ao mesmo tempo grandiosas do ano de 2014.

Esse anti-conto de fadas nos apresenta a imigrante do título original, Ewa (Marion Cotillard), uma polonesa almejadora do “Sonho Americano”, porém sua chegada aos EUA inicia seu calvário, sendo separada de sua irmã tuberculosa, perdendo suas grandes perspectivas, sem saída, se junta a Bruno (Joaquin Phoenix), um malandro que vê na imigrante possibilidades reais de lucrar, fazendo-a se sujeitar a se prostituir, além de fazer espetáculos de dança em um bordel. Ao mesmo tempo que ela repudia seu “cafetão”, também nutre sentimentos bastante confusos, até a chegada de Orlando (Jeremy Renner),  um mágico que encanta Ewa, a dividindo se deve permanecer ao lado de quem contribui para sua decadência moral ou arriscar com alguém que pode o caminho da redenção. Não demora muito para nos depararmos sob a constatação: A “Terra dos Sonhos”, infelizmente, é feita para alguns sonharem, sendo a realidade geral dura, cruel e devastadora.

O trunfo da argumentação é sua dissecação eficaz do sonho americano, o mostrando excludente e limitador, o realismo do roteiro é constante e necessário, não há glamour e tão pouco prosperidade garantida. Em contrapartida, o sofrimento e desilusão são abundantes, todo idealismo mantido por povos que visam melhores condições em terras ditas “mais desenvolvidas” é quebrado, mostrando que tal desejo decai numa dolorosa realidade, nesse caso é uma terra estrangeira onde o Estado é ausente, a sociedade conservadora e oportunidades escassas. O roteiro constrói diálogos primorosos e bem desenvolvidos, pode até ser alguns momentos forçados ou outros que deixam a desejar, porém são casos isolados, pois a realização é extremamente envolvente, deixando o público sensibilizado e ativo durante toda a duração, compramos os sonhos de Ewa e não nos permitimos perder, em nenhum momento, a esperança que sua odisseia terá um desfecho feliz, mesmo com as situações tão desestimulantes.

A direção de James Gray, para alguns, pode ser considerada  erroneamente sádica, visto como ele consegue filmar o sofrimento e a dor humana de forma tão primorosa, porém seu trabalho é extremamente humano e minucioso, acrescentando até uma certa leveza em desenrolar  um melodrama desse tipo, nos presenteando com algumas sequências dignas de comparação a pinturas artísticas. Vale apontar o principal mérito da direção é não vitimizar e nem demonizar nenhum dos personagens a fim de conquistar a piedade ou repúdio do público, há sim personagens variados, com atitudes grotescas ou louváveis, ambos são construídos pela sociedade excludente, além das adversidades das respectivas vidas que os tornam diferenciais. É uma obra livre, portanto, de maniqueísmo, deixando o embate entre “bem e mal”  para filmes mais infantis e menos sérios. A fotografia também merece louros, pois aqui tem papel fundamental, servindo de comunicação com o publico, expressando muito dos sentimento dos personagens, variando de tons pesados em momentos, até tons mais animadores, reiterando o grande valor artístico que este filme apresenta e merece ser reconhecido.

Se tratando de elenco, Marion Cotillard encontra-se em plenitude, numa performance soberba, cheia de expressividade e nuances, conquistando a empatia do público desde início, porém em nenhum momento sua misericórdia, sendo ela o corpo do filme, além de um retrato devastador da perda da inocência e corrupção de inúmeras (os) sonhadoras (os) de conquistar o “American Dream”. Joaquin Phoenix embate com seus pares em cena, personificando uma figura tão grotesca, o poupando de caricaturas ou tiques forçados, sendo outra imagem da decadência moral e social de uma sociedade tão perversa e destrutiva quanto a norte-americana, que tenta padronizar as formas de vida em busca da felicidade, escondendo assim seu vazio de existência e conteúdo, sobretudo aos que tentam manter -partidários ou civis- dogmas tão atrasados de um mundo velho, necessitando repaginar na construção de um mundo novo. Jeremy Renner completa o trio, acrescentando leveza e empatia, mesmo com pouco espaço, sendo um bom momento de um ator que, particularmente, eu ainda nutro muitas expectativas de seus projetos futuros.

“Era Uma Vez em Nova York” é um daqueles longas no qual o grande público, deixará passar despercebido, lamentavelmente, pois trata-se de uma das grandes jóias deste ano, uma parábola devastadora e sensível de como sonhar pode ser doloroso e até destrutivo. No final das contas, o melhor personagem que define tal obra é o do mágico, vivido por Jeremy Renner, aquele que ganha a vida iludindo seu público. E é essa a grande mensagem do longa: a vida é construída por inúmeras ilusões, inclusive a do “sonho americano”. Cabe a cada um acreditar -ou não- nas que lhe convém, mas sempre aceitando suas consequências.

 

TRAILER LEGENDADO

http://www.youtube.com/watch?v=PFn5s7S_Zl8

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