Edgar Wright (“Em Ritmo de Fuga”) é um dos cineastas mais queridos de sua geração e com uma legião de fãs que elevam seu trabalho a um status cult que para muitos é intangível, mas é bem verdade que ele nunca foi um queridinho para as bilheterias. Ainda assim, é muito bom ver ele tendo a possibilidade de comandar uma grande produção como “O Sobrevivente”, protagonizado por um Glenn Powell (“Twisters”, “Assassino por Acaso”, “Top Gun: Maverick”) que vem tentando se firmar como uma nova estrela de Hollywood. A receita para o novo filme da dupla é simples: uma adaptação de Stephen King, sendo esta a quarta ou quinta adaptação de algum trabalho do cultuado autor estadunidense sendo lançada em 2025 -só eu escrevi sobre pelo menos 3: “O Macaco”, “A Vida de Chuck” e “A Longa Marcha”. Obras bem diferentes entre si, exceto por esta última que citei, que tem lá suas semelhanças com a trama de “O Sobrevivente” e acredito que os dois filmes até conversam entre si, e compartilham algumas virtudes, como têm seus próprios méritos e, também, suas infelicidades em algumas das escolhas que são feitas. Acredito que acontece isso porque o problema maior que paira sobre as duas obras é similar.

Ainda que “O Sobrevivente” tenha momentos que nos façam lembrar que é um filme de Edgar Wright, com seu estilo dinâmico e um bom humor satírico que consegue se sobressair em alguns momentos, a impressão principal é que tudo aqui é muito diluído, quase uma ideia que ficou apenas no campo do rascunho. A temática distópica de jogo da sobrevivência (ou “battle royale”) não é uma novidade, e sua popularidade no cinema atingiu outro patamar com a franquia “Jogos Vorazes” -não coincidentemente comandada há muito tempo por Francis Lawrence, mesmo diretor de “A Longa Marcha”-, mas o lugar desse gênero na cultura popular também é encontrado em outros lugares, principalmente nos videogames, mas ali são uma mídia que tem uma finalidade diferente. Nestas adaptações de Stephen King ou Suzanne Collins há uma preocupação muito grande em dramatizar o cenário, trazendo uma discussão sócio-política para os filmes que agem como uma via de mão dupla, onde se cria a empatia por um protagonista em situação social e econômica vulnerável que luta contra a opressão de um Estado fascista. É o básico, e isso é um problema, porque são sempre características muito genéricas, não há um diferencial porque essas próprias produções fazem parte do sistema que estão “criticando”.

Isso ecoa nos antagonistas de “O Sobrevivente”, seja no personagem completamente maniqueísta de Josh Brolin (“A Hora do Mal”) ou na caricatura interpretada por Colman Domingo (“A Cor Púrpura”, “Sing Sing”), e nem que Glenn Powell fosse o ator mais carismático do mundo seria capaz de salvar o filme do completo pedantismo quando a personagem de Emilia Jones entra em cena. A tentativa de construir um discurso sobre choque de realidade entre ricos e pobres, vilões e heróis, torna-se em algo completamente constrangedor, inclusive destoando de todo o restante do filme e, dali em diante, “O Sobrevivente” nunca mais encontra seu rumo. Não importa o quanto a engenhosidade visual de Edgar Wright tente, não há como mascarar o quão covarde é seu filme e o quanto ele teme em enfrentar as consequências de suas próprias escolhas. Durante certas partes do filme não saía da minha cabeça como tudo ali parecia muito com o episódio “Fifteen Million Merits”, da primeira temporada de “Black Mirror”, com todo o discurso anárquico, mas o que funcionava lá não funciona aqui porque falta não só o cinismo, mas a coragem de fazer escolhas que realmente se comprometam com algo, ao invés de ser apenas mais uma vítima do seu próprio discurso falho.
“O Sobrevivente” – Trailer Legendado:
“O Sobrevivente” (“The Running Man”, 2025); Direção: Edgar Wright; Roteiro: Michael Bacall & Edgar Wright; Elenco: Glen Powell, William H. Macy, Lee Pace, Michael Cera, Emilia Jones, Daniel Ezra, Jayme Lawson, Sean Hayes, Colman Domingo, Josh Brolin; Duração: 133 minutos; Gênero: Ação, Aventura, Ficção Científica; Produção: Simon Kinberg, Nira Park, Edgar Wright; País: Estados Unidos, Reino Unido; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia no Brasil: 20 de Novembro de 2025;