Hamnet 01

Crítica | Hamnet: A Vida Além de Hamlet

Gosto bastante do cinema de Chloé Zhao e, inclusive, acredito que ela transacionou muito bem os melhores elementos de suas produções independentes para “Eternos”, entregando um dos melhores filmes da Marvel desde que sob a tutela de Kevin Feige. Assim, sou suspeito para falar dela e é óbvio que minhas expectativas eram as melhores possíveis para “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, filme que adapta a obra homônima lançada em 2020 e que reconta ficcionalmente a história do luto de William Shakespeare e sua esposa após a morte de um de seus filhos, que então inspiraria a peça Hamlet. A autora do livro, Maggie O’Farrell, co-roteiriza o filme com Zhao e a dupla parece mudar um pouco o foco da história, ainda que o luto seja a principal motriz aqui, mas não são tanto as ações ou reações do Shakespeare de Paul Mescal (“Gladiador II”) que pesam mais aqui, mas sim a da Agnes de Jessie Buckley. Ambos personagens têm sua importância e acredito que esse seja o motivo pelo qual, posteriormente, o filme se torne tão efetivo. Isso porque, a princípio, foi difícil se relacionar com os personagens ou a história, mas o que parecia se fazer decepcionante, torna-se realmente arrebatador.

A Agnes e o William de Buckley e Mescal são figuras deslocadas da realidade de suas famílias e os costumes da época, estranhos a uma rigidez que é a antítese do que faz os dois sentirem-se atraídos um pelo outro, ainda que os dois tenham, também, suas diferenças. Na visão de “Hamnet: A Vida Além de Hamlet”, o dramaturgo e poeta interpretado por Mescal é introspectivo e com dificuldade de expressar seus sentimentos (quase um “typecasting”), mas consegue canalizar isso através de suas obras, algo que não é o que sua família têm nos planos para ele. Já Agnes é mais expansiva, territorial e, sem dúvidas, livre; uma filha da natureza que não compreende essas amarras que a sociedade impõe a todos. Os dois veem um no outro uma forma diferente de encarar a vida e numa paixão impetuosa começam suas vidas juntos, mas ambos se veem presos num relacionamento que também é contrário às suas próprias expectativas, ainda que haja amor entre os dois. Surge um conflito que não foge muito dos clichês de relações heteronormativas, mas há também a nuance que contempla a personalidade das duas figuras, que é transformada pelo nascimento dos gêmeos interpretados de forma tocante por Jacobi Jupe e Olivia Lynes.

Todo o contraste de cenários a partir do parto dos gêmeos dão a “Hamnet: A Vida Além de Hamlet” uma nova vida, principalmente conforme a atuação de Jessie Buckley toma as rédeas do filme e demonstra uma força excepcional, que se destaca em três momentos nos quais ela experiencia a dor de uma forma completamente diferente: a primeira vez ao parto, depois na fatalidade e, por fim, na saudade, numa espécie de “reencontro” onde culmina tudo aquilo que foi tecido durante o filme. É onde o filme de Chloé Zhao mais funciona, na forma como encara a teatralidade e constrói seu discurso em torno de duas grandes sequências. Toda a sequência final, entretanto, é o que justifica a construção dos personagens e do filme da maneira que se dá, onde a relação conflituosa encontra uma mesma linguagem, e Chloé Zhao reforça os laços de seus protagonistas, encontrando uma maneira de filmar o teatral de forma cinematográfica, onde a união de palco e tela acontecem de maneira singular, exprimindo uma miríade de emoções que tanto Jessie Buckley como Paul Mescal tornam capazes de atingir em cheio ao público, aliados a excelente participação de Noah Jupe, lidando com o luto de forma inteiramente graciosa e poética e concluindo sua narrativa de modo contagiante.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” – Trailer Legendado:

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” (“Hamnet”, 2025); Direção: Chloé Zhao; Roteiro: Chloé Zhao & Maggie O’Farrell; Elenco: Jessie Buckley Paul Mescal Emily Watson Joe Alwyn, Bodhi Rae Breathnach, Jacobi Jupe, Olivia Lynes, Noah Jupe; Duração: 126 minutos; Gênero: Drama; Produção: Liza Marshall, Pippa Harris, Nicolas Gonda, Steven Spielberg, Sam Mendes; País: Estados Unidos, Reino Unido; Distribuição: Universal Pictures; Estreia no Brasil: 15 de Janeiro de 2025;

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