Não há temática mais difícil de se retratar quanto relacionamentos, expressar sentimentos é uma árdua tarefa que o cinema detém, sobretudo para não cair em clichês rudimentares da indústria, beirando o lugar comum. Mais difícil ainda que falar desse assunto é construir uma enredo minimamente instigante, maduro e que deixe o espectador no meio do tiro cruzado, se identificando com as partes mas sem necessariamente tomando partido. São elementos tão distintos e preciosos que é quase raro esperarmos isso de uma produção, ainda mais hoje em dia que parece haver uma ovação ao banal, indiferença aos sentimentos e ao amor como um todo. Eis que um diretor independente, relativamente novo, ganhador de notoriedade por um filme gay de mesma temática, “Weekend”, consegue abordar com maestria a intensidade e complexidade de um relacionamento, aparentemente, estável, que dura já exatos 45 Anos, justo o título dessa obra-prima moderna, melancólica e muito corajosa. Uma barra – chegamos a carrega-la – que nos remete ao cinema como se pouco faz hoje em dia: o que proporciona sentimentos próprios ao mesmo tempo que fala sobre o amor. Dizer que é uma experiência soberba chega a ser um eufemismo das 1h e 35 min de duração que evaporam junto com nosso amor próprio. Nunca foi tão difícil recomeçar. Sozinho (a).

Segunda-feira, parece ser mais um dia rotineiro na vida do casal Kate (Charlotte Rampling) e Geoff (Tom Courtenay), até ele receber uma carta das autoridades suecas confirmando a descoberta do corpo de sua antiga namorada, vítima de um acidente nas colinas. Ele se choca, porém tenta minimizar ao máximo o fato, até que as lembranças vão surgindo, remoendo, eis que ele fica refém delas e deixa sua fiel mulher em segundo plano, justo na semana onde eles terão a festa de quarenta e cinco anos de casamento. Ela tenta não se incomodar, se mantém resiliente, impávida, forte, porém terça, quarta, quinta… O tempo passa, a data se aproxima, e mais se vê que aquele relacionamento estável não era tão claro quanto se parecia. Kate se depara com ela mesma, na frente do espelho, não somente seu rosto envelhecido, mas a sua face, sua identidade, aquela que havia se perdido quando se aventurou no matrimônio, ela mesmo estava desaparecendo sobre as geleiras, de forma inconsciente. E Geoff? É o vilão? Absolutamente não. É incômodo perceber de início como ele “joga” a relação para o canto, mas quando os fatos desenvolvem é mais estarrecedor sentir que ele havia de ter sido transparente e sincero durante todo os os anos. Não foi apenas um fato que mudou a relação, esta que sempre estava encoberta de fumaça, de indiferença e frigidez. É a comodidade e o banal de dizer que temos alguém, sem desconsiderar os sentimentos, pois eles existem, são latentes e intensos, mesmo que não completem o vácuo deixado por uma paixão não resolvida pelo tempo. Ou pela morte.

É um roteiro tão simples, fácil de comprar, difícil de se pensar. É inventivo como o diretor e roteirista usa inúmeros artifícios complementares com a narrativa, como a canção “Smoke Get In Your Eyers”, aquela que haveria de ter sido a primeira dança no casamento dos dois. Sua tradução literal seria justamente “A Fumaça Entra nos Seus Olhos”, o que não deixa de ser uma metáfora para Kate que ficou tanto tempo com os olhos “encobertos”. A fotografia também é complementar, com paisagens frias, densas, bonitas de se ver, mas não tão agradáveis de se sentir, é um clima particularmente gélido que reflete os habitantes -e o casal em questão. Andrew segura a barra com firmeza, proporciona uma direção minuciosa, nos fazendo sentir o máximo de dor e sentimento possíveis, há tanta sutileza em seus -poucos- diálogos, seja um aleatório falado por um figurante numa barca ou do anfitrião do salão de festas que exalta o lugar “Cheio de histórias. Como um bom casamento.”, até mesmo o fato de Kate querer presentear Geoff com um relógio, sendo retrucada “Eu gosto de não saber que horas são”, parado/perdido no tempo. São tapas sem fim, de forma contida e sem exageros. É um filme que, dificilmente, não permitirmos entrar na vida, estabelecemos vínculos com os personagens e vemos quais situações nos assemelhamos a eles. E onde erramos. E por quê. Nunca é fácil admitir isso, só um diretor tão maduro e ciente do que de fato quer proporcionar faria algo minimante curioso, se não genial.
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Tom Courtenay tem uma atuação difícil, ele não entrega os pontos, não quer ficar no vitimismo, mesmo na maioria de suas cenas estar de cabeça abaixada, sendo passivo e indeciso na maioria das situações, além de sentimental. Antítese da personagem e da atuação de Charlotte Rampling, como dito anteriormente, é uma mulher dura, que pouco pode falar, mas seus olhares já valem por mil gritos. Rampling entrega uma das performances mais expressivas dos últimos anos, todo o trabalho dela se carrega em sua feição, em seu olhar ferido, recheado de mágoas, porém com coragem para seguir em frente, em enfrentar a verdade. São performances complementares que funcional de forma perfeita, dizer que eles são, respectivamente, a atriz e o ator do ano são meros clichês, visto a grandiosidade dos dois. Rampling, inclusive, é o foco da câmera de Andrew, que quer dar não só os holofotes, mas a chance para que a atriz e sua complexa personagem vivam, se expressam e recomecem. A sequência final é, sem sombra de duvidas, um dos mais dolorosos e realistas finais já vistos, num simples gesto, um simples olhar, tudo muda, desmorona. Conceitos caem, reformulações são necessárias. Recomeços são inevitáveis. Ainda que dolorosos. Mais trágico é perceber como vamos desaparecendo, chega a ser peculiarmente engraçado como esquecemos das coisas que nos fazem feliz antes de adentrarmos numa relação.

Particularmente, eu me identifiquei muito com os personagens e com a proposta estabelecida do filme ao espectador, parece que hoje os sentimentos estão sendo caçados como bruxas, o superficial reina, sobretudo nas gerações mais jovens, porém o filme mostra ser um problema exclusivo, o que é um grande feito. Reitero ser uma temática complexa, difícil, dolorosa, mas necessária, temos que perder os tabus de falar de sentimentos, nos expressarmos, termos coragem e determinação de arriscar, vivermos sem limitações e sem amarras nos olhos, me parece ser fundamental construirmos uma estabilidade sobre a base da transparência e do sentimento puro, elementos quase que extinção pela covardia do ser humano hoje em dia em ir além do raso. Andrew Haigh não só propõe reflexão, mas induz à mudança. Algo que pode não ser comprado, não funcionar para todos, mas que torna o longa “45 Anos” muito mais que uma simples experiência cinematográfica: é uma humana. No final das contas cabe a nós decidirmos se desejamos ser suplentes do afeto dos outros ou recorrer ao difícil e árduo caminho de tentar novamente.
TRAILER LEGENDADO
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