A estreia de Maggie Gyllenhaal como realizadora surpreendeu por sua maturidade, numa brilhante adaptação de “A Filha Perdida”, obra de Elena Ferrante, cuja trabalho por si só já é complexo, o que aumenta o desafio de traduzir para as telas de forma digna o que a autora italiana é capaz de descrever e desenvolver como poucas pessoas. O mesmo serve para Mary Shelley, cuja obra “Frankenstein”, mesmo sendo uma das mais conhecidas e cultuadas, tem sua própria complexidade e são poucas as adaptações que, de fato, conseguiram capturar a real grandeza do trabalho de Shelley. As escolhas de Maggie Gyllenhaal para abordar sua adaptação são certeiras, o foco dela no trabalho da autora é outro, mas seus motivos são muito sinceros e, francamente, trazem uma visão que é singular não apenas porque uma mulher fazendo essa adaptação a torna especial, mas porque Gyllenhaal tem um olhar autoral que já se destaca como único, sem esconder ou fazer concessões em relação a suas protagonistas e repetindo uma parceria com Jessie Buckley (“Hamnet”) que é ainda mais marcante que da primeira vez. Se em “A Filha Perdida” o conceito era mais introspectivo, em “A Noiva!” é mais expansivo e conversa sobre os ecos da obra lançada em 1818, mas sem deixar de lançar um vislumbre sobre a própria Shelley em si.

Maggie Gyllenhaal mescla diversos estilos para contar sua história, pegando um pouco do gótico vitoriano que é cenário da obra original, inserindo uma estética noir típica do cinema estadunidense de meados do século XX, utilizando isso intencionalmente de forma anacrônica enquanto desenvolve também uma história de detetives, sem deixar de lado, é claro, os musicais que preenchiam as telas na grande depressão dos Estados Unidos. Ao invés de deixar a história convoluta ou saturada, tudo é muito bem trabalhado para trazer uma riqueza de detalhes ao universo que permeia esses personagens que co-existem na narrativa que Gyllenhaal cria para seu filme. Tudo fica ainda mais potente através do constante uso da metalinguagem que o filme faz, seja em relação ao livro, seja em relação aos personagens com suas próprias fantasias dentro do próprio filme, tudo fotografado também de maneira brilhante por Lawrence Sher, que não à toa traz na memória seu trabalho em “Coringa : Delírio a Dois”, mas ao contrário da desastrosa obra que se encontrava lá, aqui há uma voz pulsante e coerente, ainda que “A Noiva!” se recuse a ser convencional. É um filme completamente contrário ao que se espera do jogo seguro de qualquer grande estúdio e é o filme que outros sonharam em ser, mas falharam.

“A Noiva!” têm momentos extremamente catárticos, inclusive por quão bem entende seus personagens, mas também por como integra seus elementos estéticos à narrativa, algumas sequências musicais que envolvem os protagonistas são um deleite de se assistir, é contagiante o que se vê em cena. Só que o impacto é ainda maior porque nos deparamos com duas grandes atuações, primeiro a criatura de Christian Bale, que entende as vulnerabilidades de seu personagem e sabe muito bem operar entre a rigidez da monstruosidade e as cicatrizes que a solidão deixou ao longo dos anos, se tornando uma figura carismática e empática. Agora, é Jessie Buckley quem comanda o filme, não há sombra de dúvidas, com uma atuação que praticamente incorpora três personagens em um conflito interno e que confluem para construir a personalidade da personagem do título, num processo que é, acima de tudo, bastante feminista. Não há nenhum segredo sobre o interesse de Maggie Gyllenhaal nesse aspecto, evidente muito pela forma como ela tratava sobre maternidade em seu primeiro longa, e aqui, em “A Noiva!”, há um discurso de emancipação muito forte e em como enquanto os homens cultuam a violência a todo custo, tornando-se monstros no processo de demonizar tudo aquilo que não compreendem, é o olhar da mulher o capaz de perceber e compreender. Algo que Mary Shelley foi capaz de fazer séculos atrás, e agora Maggie Gyllenhaal o repete, honrando o trabalho da autora como poucos até hoje conseguiram.
“A Noiva!” – Trailer Legendado:
“A Noiva!” (“The Bride!”, 2026); Direção: Maggie Gyllenhaal; Roteiro: Maggie Gyllenhaal; Elenco: Jessie Buckley, Christian Bale, Peter Sarsgaard, Annette Bening, Jake Gyllenhaal, Penélope Cruz, Jeannie Berlin; Duração: 126 minutos; Gênero: Drama, Terror, Romance, Ficção Científica; Produção: Maggie Gyllenhaal, Emma Tillinger Koskoff, Talia Kleinhendler, Osnat Handelsman-Keren; País: Estados Unidos; Distribuição: Warner Bros. Pictures; Estreia no Brasil: 05 de Março de 2026;