Enquanto a franquia “Alien” seguiu sem descanso, principalmente por ter um nome tão forte como o de Ridley Scott (“Gladiador II”, “Napoleão”) por trás, “Predador” viveu diversos períodos de inércia, sem nunca vingar numa série de filmes solo tal qual a que estamos vivendo no momento. Até chegar aqui, entretanto, o “vilão” que estava quase caindo no esquecimento ainda sofreu muito nas mãos de Shane Black, numa versão que parecia mesmo era odiar o folclórico personagem. Depois disso tudo, o que restou para a franquia foi um lançamento direto em serviço de streaming, mas o que parecia um beco sem saída se tornou uma nova empreitada com a surpreendente qualidade de “O Predador: A Caçada” e o principal responsável por dar uma nova vida à franquia é Dan Trachtenberg, que injetou toda sua paixão pelo personagem nessas novas produções e trabalhou diferentes perspectivas para trazer algo que condiz ao “protagonista” da história. “Predador: Terras Selvagens” faz algo que nenhum dos outros filmes havia tentado de forma sincera, que era se aprofundar na mitologia dos Predadores e dar ao personagem uma identidade, transformando-o num anti-herói que não é meramente uma caricatura cacófona, fazendo com a que aventura subverta um pouco as expectativas e, apesar de alguns clichês, entrega aquela que é possivelmente a melhor iteração do Predador.

A não ser pelo ponto de vista do protagonista ser o predador, não há nada de realmente inovador narrativa ou cinematograficamente em “Predador: Terras Selvagens”, pelo contrário, Trachtenberg e Patrick Aison (roteirista do filme) optaram por elementos simples para compor seu filme, a diferença está na execução. É bem verdade que o filme ainda sofre em algumas sequências daquele mal de blockbusters hollywoodianos, de iluminação muito escura e lutas muito digitais sem a melhor qualidade possível, com cortes que mais deixam uma bagunça na tela do que algo realmente empolgante. Esses contrapontos, apesar de presentes, são raros e, o mais importante, o restante do filme se sobressaí a esses deslizes, tanto que quase nos esquecemos porque o todo é tão envolvente que quaisquer pormenores se tornam quase insignificantes. Isso porque o essencial em “Predador: Terras Selvagens” é a experiência, algo que é quase como assistir a uma gameplay, que nos mantém entretido não só por sua sagacidade em lançar os personagens a novos desafios, cada vez mais intrincados, como se fossem novas fases, mas por não subestimar a inteligência do espectador. É um filme honesto com o público e com isso consegue ter alguns trunfos que trazem ainda mais efetividade para si.

Quando o simples é bem feito, e de forma honesta, o resultado é algo como “Predador: Terras Selvagens”, um filme que consegue ser uma aventura competente e aliar isso ao fator emocional dos personagens, que tem motivações sinceras e tocantes, sendo que a falta de sutileza para lidar com isso se dá também pela permissividade com a forma lúdica que trata o todo. Ainda se faz mais poderoso pela atuação de Elle Fanning (“Um Completo Desconhecido”), que rouba a cena para si e é engraçada e com uma trama de sintético ganhando autoconsciência mais efetiva que a de “Tron: Ares”, por exemplo, ainda que desenvolva isso por menos tempo e com menos atenção. É a forma natural e orgânica com que tudo se apresenta ao espectador, e Trachtenberg ainda coloca os dilemas da personagem de Fanning justapostos ao do Predador vivido por Dimitrius Schuster-Koloamatangi, numa narrativa que apresenta mais nuances do que se podia esperar. “Predador: Terras Selvagens” tem uma proposta bastante óbvia, mas ao invés de tentar lançar uma franquia dando um passo maior que a perna, se solidifica com uma história que é “autossustentável” e completamente prática, além de cativante tamanha simpatia de seus personagens.
“Predador: Terras Selvagens” – Trailer Legendado:
“Predador: Terras Selvagens” (“Predator: Bandlands”, 2025); Direção: Dan Trachtenberg; Roteiro: Patrick Aison; Elenco: Elle Fanning, Dimitrius Schuster-Koloamatangi, Mike Homik; Duração: 107 minutos; Gênero: Ação, Aventura, Ficção Científica; Produção: John Davis, Brent O’Connor, Marc Toberoff, Dan Trachtenberg, Ben Rosenblatt; País: Estados Unidos; Distribuição: 20th Century Studios; Estreia no Brasil: 06 de Novembro de 2025;