Oráculo (2021); Direção: Melissa Dullius & Gustavo Jahn; Roteiro: Distruktur; Elenco: Juarez Nunes, Alice Bennaton, Fernando Goulart Jahn, Aline Maya, Luana Raiter; Duração: 61 minutos; Gênero: Experimental; Produção: Distruktur; País: Brasil; Distribuição: –; Estreia no Brasil: –;

O termo oráculo indica um elo, normalmente ao sobrenatural ou divino, aquele que é capaz de ser um mensageiro entre diferentes camadas da existência. Por isso, quando o novo média-metragem de Melissa Dullius e Gustavo Jahn, com um plano longo e inteiro de uma ponte, dá a impressão que iremos ver algo mais ilustrativo na filmografia de ambos. Impressão equivocada, já que o segundo lançamento da Mostra Aurora do Festival de Tiradentes se revela um experimento que tem dificuldades em se tornar filme.

A dupla de diretores busca a contemplação de seus planos, que se estendem, se repetem, sem dilatações ou até mesmo grandes intervenções. Uma busca por uma beleza através do completo esvaziamento de uma lógica narrativa, afinal estamos falando de um filme claramente experimental. A oscilação torna-se um constante piscar entre uma imagem modificada para parecer um rolo de filme analógico e a realidade digital, assim como a organização das poucas sequências do filme. Entre o extremamente teatral e ensaiado para o completamente naturalista, “Oráculo” tenta falar sobre uma realidade cada vez mais ensaiada.

O momento que revela essa leitura é, de longe, o mais interessante: A menina tocando violão em seu quarto. Existe uma ternura e proximidade inexistente em qualquer outro momento, ainda mais uma música como “Deixe Me Ir” do grupo 1Kilo, que marcou toda uma adolescência da geração Z e ficou parada lá como uma fotografia antiga. Ela erra acorde, esquece a letra, se embola entre olhar o telefone e prestar atenção no que faz, isso traz alguma sensação de empatia que tira o filme de uma monotonia estática que ele se encontrava. Mas a revelação surge quando ela termina e decide ouvir sua gravação inteira, enquanto ensaia uma nova tentativa.

As duas sequências anteriores ganham esse sentido pois consistem de uma sequência super ensaiada e teatral de um casal sob uma pedra na costa da praia e um homem andando por uma ponte de forma repetida, quando uma narração, aparentemente o mesmo que anda, contando a origem de algo que ele se orgulha. Quando a sequência da menina surge, sendo ensaio e encenação simultaneamente, as duas anteriores ganham tal forma idem. Aquele homem ensaia tal história de sucesso sob a ponte da mesma forma que o casal ensaia seus movimentos no litoral.

Fica ainda mais nítido quando na mesma praia, uma mulher anda e fuma da forma mais plástica e ensaiada possível. Quase Bressoniano tamanha artificialidade, com a adesão das escolhas já ditas, torna ainda mais evidente tal aspecto. Viver pensando no estado e forma que suas ações tornam-se imagem para os demais aproxima a realidade de um eterno teatro, onde não há descanso público desse ensaio. A contemporaneidade do hiper registro é nosso elo com a eternidade, o que tornou essa busca pela reprodução do corriqueiro com plasticidade algo essencial.

O grande problema é que “Oráculo” pena para se tornar um filme, em um sentido de engajamento mesmo. Por mais que haja semântica nas imagens, elas não produzem nada além de uma busca de significados que tirem as escolhas da aleatoriedade. A única provocação que destoa das demais é o caloroso momento da menina, mas além de curto, ele está na metade final do filme e se torna exceção, não regra. Não há grande valor em uma experiência sensorial que não dê o mínimo de estímulo aos mesmos, são apenas imagens estéreis.

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Estudante de cinema, Roteirista e Produtor de curtas independentes. Crítico de cinema vulgar nas horas vagas.

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