Por conta de um descuido e uma chegada atrasada, para além do já esperado, ambos deslizes de minha parte, a terceira noite de FICBIC esse ano foi uma noite nacional. E que noite nacional ela foi!

O que reservava o final de noite, seria potencializado pelo início dela, com BR 716 ou, se preferir, Barata Ribeiro, 716. Filme de Domingos Oliveira que mais recentemente este ano venceu quatro prêmios no Festival de Gramado, incluindo a categoria de Melhor Filme. Mas não é só o fator nostalgia que se faz valer, mas o poder de uma história que cruza através do tempo.

E a nostalgia é algo contundente no filme, não só porque funciona em duas frentes de tempo, onde a história se passa e onde a história é lembrada, mas porque certamente já se ouviu falar em Barata Ribeiro. Sinais de um reconhecimento e uma aura estabelecidas pela rua em Copacabana, nomeada em homenagem a Cândido Barata Ribeiro.

O número 716 é referente ao número de um apartamento onde vivia Felipe, engenheiro e aspirante a escritor, que recebeu as chaves do local como um presente de casamento do seu pai. No entanto, seu casamento já não mais vai bem e o cenário político do Brasil na época caminhava para um caminho que alteraria eternamente o rumo do país, como hoje sabemos.

Nos idos de 1960, o apartamento era um auge da vida boêmia carioca, e Felipe e seus amigos levavam uma vida regada aos prazeres do álcool, enquanto aspiravam por algo a mais do que a simples redundância da vida, que se fazia, e ainda faz, um mar de sofrimento paradoxal do qual tanto queremos fugir, mas jamais queremos deixar.

É válido dizer que a vitalidade com a qual Domingos Oliveira escreve seus personagens e filma seus atores é, de fato, surpreendente quando se encara a idade do diretor, já com seus 80 anos de idade. Assim, Barata Ribeiro, 716 conquista com um carisma apresentado a partir de sua frenética funcionalidade, que adequada à época transforma a verborragia em algo até positivo, onde se tem o que dizer.

E o discurso do filme pode até parecer disperso em meio a boemia dos personagens, aos cenários sempre recheados de presenças e os espaços raramente vazios no apartamento. A bem da verdade é que se age muito mais como uma comédia, não deixando tão evidente o tom de seriedade presente como pano de fundo.

Tom que se faz de presença mais válida quando, por exemplo, o paulista revolucionário de Sérgio Guizé entra em cena. O que ocorre por duas vezes e muda o panorama daquela vida levada pelos personagens, onde o sonho de prosperidade começa a falhar frente ao crescimento das chances da ocorrência de um golpe de estado pelos militares.

Em tempos como os de hoje, Barata Ribeiro, 716 parece não se fazer presente à toa. Um filme atual, mesmo que se desenvolvendo no passado, que parece ter a intenção de evocar a beleza de uma vida fadada a uma tragédia que não merecia. A liberdade pela qual se clamava parece, no entanto, ainda não ter chego a nós. É como um chamado, autenticamente carioca, brasileiro, um pedido para que voltemos às nossas raízes, que façamos jus a elas e por aquilo o que lutaram.

FICBIC | Cinema Novo | Dia 3

Todas essas são sensações e pressentimentos que parecem um reflexo do segundo filme da noite, e talvez o grande nome em toda esta edição do FICBIC. Porque se há algo pelo qual lutar no cinema nacional, e Barata Ribeiro, 716 parece ter um quê dessa essência, é pela chance de ser politizado, de retratar um perfil, de ser algo que diga à que veio. Se assim o é, muito é graças ao que apresenta o documentário Cinema Novo.

Dirigido por Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha, o documentário vai além do panorama construído em Rocha Que Voa, retratando todo o período do movimento, provavelmente o de maior importância no cinema do nosso país, que ficou conhecido como Cinema Novo. Para isso, no entanto, tudo o que ele utiliza são cenas dos próprios filmes e imagens ou áudios de arquivos com entrevistas dos cineastas.

O que mais impressiona no documentário, não é o que se vê nele, mas como se vê ele. Porque é evidente que houve um processo de pesquisa intenso e um planejamento admirável, culminando numa montagem que gera uma fluidez cativante, se mostrando como o ponto forte de Cinema Novo. Tudo porque a maneira como o documentário se constrói é uma catarse coletiva de nível imensurável.

Assim potencializa-se o que foi o movimento que ficou conhecido como Cinema Novo, porque Cinema Novo, o documentário, faz as transições, conexões, paralelos e pontes necessárias para a compreensão, algumas vezes sem precedentes, da grandiosidade e significância do trabalho de alguns dos maiores artistas nacionais na história. Algo que eles não somente retrataram, mas também passaram a fazer parte.

A amplitude do que retrata Cinema Novo é também grandiosa, ponderando desde os conceitos de cada cineasta da frente do movimento, assim como as medidas que se tornaram cabíveis para fazer esse cinema ser visto, e essas realidades ouvidas, ou ao menos as tentativas de se realizar isso. De tornar o cinema nacional uma realidade. Esbarra, portanto, em algumas redundâncias do Cinema Novo.

Mas Cinema Novo consegue ir além dessas redundâncias. É arrebatadora, por exemplo, a cena na qual os cineastas do movimento se fazem presentes lado a lado com grandes nomes do cinema francês, onde os franceses com enorme prazer nomeiam cada um dos artistas ali, inclusos alguns outros latino-americanos. Um retrato de uma reunião que se faz assombrosa com o intelecto que reúne.

Porém, assim como Barata Ribeiro, 716, a conveniência da chegada de Cinema Novo parece ser uma imposição para fazer frente ao período sombrio que se quer restabelecer politicamente no Brasil, uma vez mais e se é que já não se fez estabelecido. Mas há, sempre houve e sempre haverá, uma resistência presente, pronta para combater com as armas que se sabe fazerem os melhores efeitos.

É um documentário contundente não só pelo retrato que faz, mas por uma mesma chamada de um cinema que ocorreu há tanto tempo e que envolvia algo que parecia até possuir uma aura sobrenatural. Entretanto, não era isso. Era somente um retrato da realidade que o Brasil precisava encarar, não a realidade na qual queria acreditar.

Se o Cinema Novo teve sua importância histórica, em sentidos de representação nacional e uma nova estética e funcionalidade cinematográfica, reacendendo uma oportunidade de vozes se fazerem valer frente a desigualdade e, portanto, tornando-se o movimento mais importante no cinema nacional, seria, então, Cinema Novo o filme mais importante da atualidade de nosso cinema? Se sim ou não, está no páreo, como uma vívida lembrança de algo que jamais poderá ser esquecido.

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