O grande homenageado com a Mostra Retrospectiva do 8º Olhar de Cinema é o cineasta franco-chileno Raúl Ruiz. Sua vasta carreira passou por diversos momentos, porém o festival de Curitiba focou nos longas feitos durante seu momento como exilado político na França, tendo sido expulso do Chile após o golpe militar de 11 de setembro de 1973, destituindo o então presidente Salvador Allende e ascendendo ao poder Pinochet, iniciando uma das mais sanguinárias ditaduras da América Latina. “Diálogos de Exilados” adota um tom cômico, criativo, para expor a urgência da temática do exílio e da opressão. Num filme que consegue dialogar drasticamente com o mundo atualmente, fica difícil acreditar que este foi feito em 75, dois anos após o início da ditadura chilena.

O longa narra sobre a turnê na França de um cantor chileno favorável ao governo ditatorial de Pinochet. Ele aproveita sua ida ao país europeu para defender a nova gestão e mostrar como o Chile está melhor. Exilados políticos chilenos decidem por sequestrá-lo, porém, fazendo ele entrar no movimento político de resistência, tentando transforma-lo em um militante. As coisas não vão bem quando os próprios integrantes do movimento começam a entrar em conflito pelo fato do excesso de burocracia presente, a incapacidade de tomar decisões e a falta de retórica e rumo político. Há ainda a discrepância da elite burguesa, que lidera o movimento e os setores operários, que tentam se organizar e fazer algum contraponto ao governo. Mistura-se corrupção, falta de projeto político e muita farra e pouco movimento.

O primor de Ruiz é conseguir fazer um paralelo entre os militantes burgueses de esquerda e de direita, como há poucas diferença entre os dois em si. A incapacidade de diálogo entre a chamada “elite intelectual” com a classe operária, conseguindo dialogar apenas com quem tem a mesma bagagem cultural e por consequência, mesmo tipo de pensamento. Ou seja, ambos os polos, por mais distintos que sejam, pecam em uma homogeneidade do discurso, faltando contraponto e, sobretudo, um debate em prol da construção de ideias, utopias e projetos políticos verdadeiramente representativos. São questões mais do que nunca atuais.

O fato de ser um filme extremamente político é quebrado pelo tom cômico fora de hora, mas que em vez de ser meramente pastelão, conseguem desarmar o público de qualquer incômodo para com seu discurso. Os personagens são extremamente interessantes, principalmente por conseguirem expor tantas camadas da luta política, do exílio e também da questão de se sentir parte de uma pátria diferente da original. Ruiz consegue abordar tantas temáticas entorno de uma narrativa sólida, que apesar de tratar de um tema tão pesado, consegue ser leve, quase que lúdico.

É um filme interessante, chega a ser urgente nos tempos que o Brasil vive. É um diálogo aberto com o povo brasileiro, principalmente com a esquerda do país, que precisa retomar o trabalho de base em vez de focar meramente nos setores da classe média. Raul Ruiz tem muito ainda a nos dizer e oferecer, compete a nós ter esse diálogo e nos abrir para reflexão.

Indispensável, portanto, tamanha iniciativa de homenageá-lo nessa retrospectiva. Num resgate cinematográfico fundamental.

 

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Estudante, questionador, indeciso e idealista. Amante da Sétima Arte, acredita que a cultura e a educação são os principais instrumentos de transformação social. Apaixonado pelo Brasil em toda sua plenitude e cores.

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