Mesmo diante dos obstáculos do contexto político e social do país, o Olhar de Cinema chega em seu oitavo ano, prometendo ser a maior edição do festival internacional de Curitiba até aqui. Com um cunho político desde a concepção da arte que ilustra essa edição,  elaborada pelos artistas Pedro, Pastel & Besouro.

Uma novidade deste ano é o surgimento da Mostra Olhares Brasil, com foco exclusivamente em filmes nacionais. Além disso, a curadoria do festival deu ênfase a diversos longas latino-americanos, seja pelo homenageado da retrospectiva, o cineasta franco chileno Raúl Ruiz ou por ter uma competitiva contendo a maioria de filmes latino-americanos.

Aqui algumas recomendações imperdíveis para conferir no Olhar de Cinema 2019, lembrando que faremos a cobertura completa aqui no Cine Eterno.

Destaques do Olhar de Cinema 2019:

  • Cantando na Chuva” (“Singin’ in the Rain”, 1952)

Qualquer oportunidade de ver “Cantando na Chuva” na telona é mais do que válida. Um dos maiores clássicos do cinema. Você sabe da importância de um filme quando ele ajuda a reescrever a história do cinema. E o fato é que muito do que se conta do período da passagem do cinema mudo para o sonoro em Hollywood foi cristalizado a partir de “Cantando na Chuva”, um filme com tal quantidade de cenas icônicas que, conforme outro épico do cinema, se não mostra a verdade do período, “imprime-se a lenda”. Segundo o American Film Institute, trata-se do melhor musical da história do cinema, e o quinto melhor filme americano de todos os gêneros. Verdade ou lenda? A rever, sempre.

  • A Portuguesa” (idem, 2018)

Inspirado no conto homônimo de Robert Musil, com diálogos adaptados pela escritora Agustina Bessa-Luís, “A Portuguesa” transcorre no século XVI, no norte da Itália, às vésperas do Conselho de Trento. A saudade – termo que insiste em se atrelar à língua portuguesa – atravessa a vida da enigmática jovem do título, enquanto os anos se esvaem sem que ela retorne ao país natal. Já para seu marido, o nobre Von Ketten, o lar é a guerra. A densa atmosfera criada pela premiada diretora Rita Azevedo Gomes evoca texturas – literárias, pictóricas – em uma experiência visual de grande potência.

  • Casa” (idem, 2019)

Casa” elabora com sensibilidade uma árvore genealógica fílmica pautada pela relação entre uma filha (a diretora) e sua mãe. Ele se permite cruzar histórias, formas de escrita de si – cartas, testemunhos, entrevistas – e arquivos imagéticos, entendendo a complexidade da incidência do tempo sobre as memória, os corpos e as relações pessoais, que são também dotadas de tensões. Como uma peça rara que tira sua força de sua aparente simplicidade, o filme convoca relatos sobre uma cidade e uma geração de modo a extrapolar o caráter pretensamente íntimo de uma narrativa pessoal. A direção é de Letícia Simões, que no ano passado venceu com Melhor Filme na Mostra Outros Olhares, com “O Chalé é uma Ilha Batida de Vento e Chuva“.

  • Nona – Se me Molham, eu os Queimo” (“Nona – Si me Mojan, Yo los Quemo”, 2019)

O último trabalho da cineasta é uma co-produção brasileira que fará sua estreia nacional no Olhar de Cinema. Ele é conduzido pela força da personagem sexagenária do título, interpretada por Josefina Rodriguez, avó da cineasta e sua colaboradora frequente. Nessa narrativa híbrida, na qual a personagem de Nona se refugia na estranha cidade costeira de Pichiléma após queimar a casa de seu antigo amante, são evocadas questões de paixão, exílio e memória no Chile contemporâneo. A enigmática protagonista do filme existe enquanto figura multifacetada: Nona a idosa, a revolucionária, a contadora de histórias.

  • Indianara” (idem, 2019)

Um filme realizado muito perto ao cotidiano da sua personagem-título, para quem vida pessoal, profissional e política se misturam radicalmente. Através dos dilemas muito práticos que Indianara enfrenta, se desenham para nós com clareza as entranhas de um processo social e político brasileiro muito pouco afeito a introduzir nas suas esferas de poder grupos como o das pessoas trans. Indianara é um símbolo disso tudo – mas também é apenas uma pessoa, com seus medos, suas potências e suas conquistas absolutamente pessoais. Exibido no Festival de Cannes deste ano.

  • Sedução da Carne” (idem, 2018)

“Em Bressane, a invenção do novo vem acompanhada por uma (re)invenção e renovação da tradição”, escreveu Carlos Adriano em um ensaio de 1995 sobre esse artista brasileiro, que continua a assegurar seu lugar como um dos maiores cineastas do mundo. Isso inclui ainda uma auto (re)invenção e renovação, no qual o mais novo filme de Bressane se aprofunda nos mistérios do que significa ser. O filme se movimenta de imagens da natureza para cenas de uma viúva recontando sua história de vida e seus prazeres da carne – de um lado, para um papagaio, e de outro, com bife cru.

  • Ilha” (idem, 2018)

Apenas um ano depois de serem descobertos com seu longa de estreia, “Café com Canela“, que ganhou o prêmio do público e de roteiro no Festival de Brasília, Ary Rosa e Glenda Nicácio voltam com este segundo longa. Filmando novamente a partir de Cachoeira, cidade do Recôncavo Baiano onde se conheceram estudando cinema, eles propõem agora, uma reflexão vibrante sobre o poder de portar uma câmera e dominar uma narrativa. Um cineasta se vê sequestrado e instado a fazer um filme sob as ordens de seu sequestrador. Quem domina quem?

  • Diálogos de Exilados” (“Dialogos de exiliados“, 1975)

Qualquer filme de Raúl Ruiz soa atual para a conjuntura brasileira. O primeiro longa-metragem de Ruiz realizado na França foi um verdadeiro succès de scandale, uma produção independente e parcialmente inspirada na peça Conversas de Refugiados, de Bertolt Brecht. Ao optar por um elenco de não-atores de refugiados reais, Ruiz criou uma história docu-ficcional de artistas e intelectuais chilenos em Paris, logo após o golpe de Estado, que debatem o que fazer após a derrota da Frente Popular em sua terra natal. Ruiz foi criticado por descrever a situação de forma satírica. Entrevistas se intercalam com diálogos teatrais nas quais as pessoas falam com uma urgência controlada que remonta ao terreno do absurdo.

  • De Novo Outra Vez” (“De Nuevo Otra Vez“, 2019)

Romina Paula é uma das maiores atrizes do cinema argentino contemporâneo. Ela também é escritora, artista de teatro e, agora, uma cineasta, cujo belo filme de estreia apresenta ela mesma no papel principal, seu filho bebê e sua mãe em uma história docu-ficcional de uma mulher que retorna ao seu lar. Romina e a criança chegam à casa de sua matriarca em Buenos Aires após sua separação em Córdoba. Ela trabalha como professora de alemão, reencontra velhos amigos e busca novos amores enquanto cogita reatar seu antigo relacionamento em uma maravilhosa comédia sobre pessoas trabalhando juntas para encontrar as melhores maneiras de seguir em frente.

  • Os Renegados” (“Sans Toit Ni Loi“, 1985)

A lendária cineasta Agnés Varda faleceu esse ano, aos 90 anos. Oportunidade perfeita pra conferir um dos melhores filmes de sua vasta filmografia, ao qual a diretora foi laureada com o Leão de Ouro do Festival de Veneza.

Os Renegados” é um dos filmes mais aclamados dos últimos 40 anos, ainda que surpreendentemente subestimado. Muitos textos foram escritos sobre um filme que resiste à análise ou diagnóstico, um pouco como sua protagonista, Mona – com uma atuação feroz de Sandrine Bonnaire – uma jovem sem-teto e sem lei, cujas buscas por alimento físico e emocional pela região francesa de Languedoc-Roussillon são relembradas em flashback após a descoberta de seu corpo congelado em uma vala. A pergunta “por que isso aconteceu?” se transforma em “como poderia isso acontecer”?

  • Breve História do Planeta Verde” (“Breve Historia Del Planeta Verde“, 2019)

Tania, uma mulher trans, viaja para o interior da Argentina na companhia de dois amigos para atender aos últimos pedidos da sua avó, recentemente falecida. Esse trajeto será marcado por experiências e contatos não apenas humanos, mas inclusive alienígenas. Ao longo dessa viagem, os limites do que é “ser normal” segundo nossa sociedade serão redefinidos, nessa coprodução com participação do Brasil que ganhou no último Festival de Berlim o cobiçado prêmio Teddy (para filmes com temas LGTBQ).

Você pode conferir a programação completa do Olhar de Cinema 2019 clicando aqui.

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