Roda do Destino” (“Guzen To Sozo“, 2021); Direção: Ryûsuke Hamaguchi; Roteiro: Ryûsuke Hamaguchi; Elenco: Kotone Furukawa, Kiyohiko Shibukawa, Katsuki Mori, Fusako Urabe, Aoba Kawai, Ayumu Nakajima; Duração: 121 minutos; Gênero: Drama; Produção: Satoshi Takata; País: Japão; Distribuição: Pandora Filmes; Estreia no Brasil: –;

O cinema japonês tem como uma das grandes marcas uma relação dicotômica com a forma. Os casos mais notórios da vasta filmografia do país estão nos extremos entre o maneirismo e o realismo, usando os termos para sintetizar, respectivamente, um uso mais artificial e gráfico da imagem e o mais próximo de uma verossimilhança externa e corriqueira. Basta olhar para dois principais nomes da história, Akira Kurosawa e Yasuhiro Ozu, o primeiro buscando uma grandiosidade independente da escala (o arco-íris em “Sonhos”, o incêndio em “Ran”, a grandiosidade do terceiro ato de “Sete Samurais”, etc) enquanto o segundo buscava um cinema muito mais focado nos gestos, reações e pequenos atos.

Quando trazemos para o contexto atual, em que o país sofre com uma sucessão de gerações cada vez mais inaptas para com o trato social, cada vez mais apegada a consumo de conteúdo enquanto forma de fuga da realidade, esta abordagem com a imagem revela as pequenas nuances das inevitáveis relações sociais do cotidiano. Parece que as intenções de Ryûsuke Hamaguchi é explorar tal fator como engate para um filme dispositivo em “Roda do Destino“. As sequelas desta repressão coletiva gera o fenômeno que gira os três eventos encenados: Pessoas que só conseguem se expressar de forma genuína através do diálogo com completos desconhecidos.

De forma bem minimalista, com poucas dezenas de planos por capítulo (sendo três ao total), o diretor consegue tornar as conversas genuínas e verossímeis mesmo na premissa teatral que as rege. Pois como Robert McKee diz em outras palavras em seu icônico livro Story: O que é real e o que soa como tal pela tela são coisas distintas. Em texto, os diálogos seriam considerados verborrágicos, expositivos e até mesmo artificiais. A escolha por uma câmera majoritariamente estática, em plano americano, enfatiza o trabalho gestual dos atores.  Cenas como a inicial, em que duas colegas de trabalho conversam sobre o suposto encontro perfeito ganham força através da ingenuidade evidente na feição das atrizes.

De certa forma, a premissa de “Roda do Destino” é um tanto quanto metalinguística. O cinema, ainda mais o de vertente mais autoral, é um processo de abertura para com desconhecidos. Os personagens conversam de forma franca com o interlocutor, mas também com o público. Esse efeito de sentir-se na conversa fica ainda mais potente pela opção de filmar quase tudo sob a altura dos olhos daqueles que estão sendo encenados. Pela temática de cada situação, acaba sendo um retrato do Japão como um todo. Respectivamente, um país obcecado em seus próprios escapismos; reprimido sexualmente; preso a um ciclo de ruídos de comunicação. Tudo isso a partir da premissa básica de conversar com desconhecidos. Um filme dispositivo eficaz em sua própria falta de complicações.

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