A Trilha dos Ratos” (2021); Direção: Marcelo Felipe Sampaio; Roteiro: Pedro Burini e Marcelo Felipe Sampaio; Elenco: Malu Bierrenbach; Duração: 74 minutos; Gênero: Documentário; Produção: MS – Pictures; País: Brasil; Distribuição: –; Estreia no Brasil: –;

Existe todo um mercado midiático em cima da aura nebulosa do regime nazista, somennte no History Channel há pelo menos cinco programas na grade inteiramente baseados nessa busca por artefatos, estratégias, armas, experimentos entre outros “feitos” do regime. É uma forma muito sútil de expressar essa visão de seres humanos completamente psicopatas em algo mais palpável, tornando seus feitos totalmente caricatos. Os seres dotados de um mal digno de Dick Vigarista, planos de um Coiote, entre outros, tudo isso para não se aproximar de um ponto fundamental e escondido nesse panorama geral: Hitler só passa a ser considerado um problema a partir da invasão à Polônia, quando ameaça diretamente a soberania dos outros países europeus.

Como o filme A Trilha dos Ratos, presente no CineOP deste ano, abre seus primeiros vinte minutos deixando claro: O nazismo foi aderido pela máquina liberal no pós-guerra. Diversos países diretamente afetados pela intervenção norte-americana se tornaram refúgios de ex-oficiais nazistas buscando amparo para evitar um eventual tribunal de guerra. Mas o filme de Marcelo Felipe Sampaio não parece interessado na implicação cada vez mais óbvia de que os grandes players do cenário macro-político preferem abrigar a direita autoritária se isso simbolizar alguma forma de enfraquecimento da esquerda. O longa do diretor não parece interessado em nada além da curiosidade de que o anjo da morte morreu em plenitude das terras brasileiras.

Por que o filme, apesar do seu aviso prévio expondo as evidentes limitações de gravar na atual conjuntura, não aparenta que as limitações na geração de imagens tenha sido um grande problema. Pois o uso das entrevistas e informações estão sempre entregues à fala. Não existe uso retórico algum que esteja em algum elemento além da voz e dos relatos de seus entrevistados. Como já dito sobre alguns filmes do Festival É Tudo Verdade, o cinema documentário atual apresenta um modo automático que se assemelha muito ao formato de áudio podcast. A impressão plena é de que ver o filme enquanto lava a louça não seria um desperdício de grandes elementos na unidade.

O filme passa um pouco menos de sua metade com o olhar para as fazendas onde dois oficiais nazistas se refugiaram em uma região cafeeira do estado de São Paulo. Porém há pouco interesse na região em si, explica-se os aparentes porquês, como o clima próximo do europeu, mas nada além disso. Em determinado ponto, conta-se sobre a paranoia de um desses fugitivos sobre uma eventual captura, uma prisão, até mesmo fantasias com a ideia de ser guilhotinado, e existe uma brecha para falar sobre como isso se manifestou na construção de uma torre na chácara. Porém explorar o agora vazio espaço parece ser a menor das intenções, pois tudo está subjugado à prioridade maior: Entregar informação.

Esse é o grande mérito da obra, ela entrega a informação com todos os P’s jornalísticos bem claros. O começo evidenciando como o sistema não se interessava em punir o nazismo de forma veemente à como isso se refletiu no Brasil e encerrando com a presença maior na cidade interiorana. Apesar da estrutura narrativa bem definida, não há nenhum esforço em tornar essa narrativa cativante, falta storytelling que diferencie o filme de uma matéria de curiosidades postada por algum grande portal em uma época de pautas frias.

São 74 minutos que poderiam ser 74 parágrafos, fotos, infográficos, montagens, recortes. Enfim, falta ao filme o que o torna cinema, pois A Trilha dos Ratos é apenas suas informações e entrevistas. 

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