Crítica | Transparent | 3ª Temporada

Crítica | Transparent | 3ª Temporada

- in Séries de TV
3

Transparent (Amazon, 2014-); Criação: Jill Soloway; Showrunner: Jill Soloway; Direção: Jill Soloway, Silas Howard, Stacie Passon, Shira Piven, Andrea Arnold, So Yong Kim, Marta Cunningham; Roteiro: Ethan Kuperberg, Jessi Klein, Faith Soloway, Jill Soloway, Micah Fiterzman-Blue, Noah Harpster, Bridget Bedard, Ali Liebegott, Our Lady J, Stephanie Kornick; Elenco: Jeffrey Tambor, Gaby Hoffmann, Jay Duplass, Amy Landecker, Judith Light, Kathryn Hahn, Anjelica Huston, Alexandra Billings, Trace Lysette, Cherry Jones, Rob Huebel, Alex MacNicoll, Brett Paesel, Richard Masur; Número de Episódios: 10 episódios; Data de Lançamento: 23 de Setembro de 2016;

Crítica com spoilers.

Nessa temporada de Transparent a personagem de Judit Light traz à tona algo que a trama parece fazer questão de abordar, causando uma reflexão um tanto amarga, ainda que necessária. Ao declarar que quando alguém da família passa por uma transição de gênero, toda a família também passa por uma transição, a personagem começa a tomar isso para si, a se apossar da transição de Maura (Jeffrey Tambor). Com uma das tramas explorando de maneira brilhante a própria história da personagem, não estaria Transparent, que tanto nos ensina e conscientiza, tentando nos guiar aos nossos próprios caminhos, às nossas próprias transições?

Não é exatamente em busca de algo que se inicia esta terceira temporada? Com a personagem de Kathryn Hahn (A Visita) buscando alguma forma de encontrar algum sinal, alguma manifestação qualquer do divino? Mas não há nada lá, ou há? Afinal, o silêncio eterno que recai sobre nossas vidas não quer nos dizer algo? Não seria algo semelhante o que impede Maura de ser feliz, mesmo com tudo a seu favor? Abraçando o existencialismo, ainda que muitas vezes de maneira sutil, Transparent continua a se aproximar do âmago, tanto de seus personagens como o de seu público, e conversar de maneira singular uma vez em contato com qualquer um que se disponha a prestar atenção.

Esse estado mental, ou se preferir de espírito, faz Transparent arriscar com sua narrativa algumas tramas que se davam de maneira um pouco mais paralela. Para isso, no entanto, outras tramas, e personagens, que tiveram destaque na temporada anterior, agora acabam recebendo menor atenção. A principal personagem a sofrer uma redução parece ter sido a Sarah de Amy Landecker, acabando por navegar em tramas mais secundárias. Ainda assim, sua importância na série é mantida intocada e há momentos exacerbantes da personagem, que são elevados a tais níveis por conta da atuação de Amy Landecker.

O que, no funcionamento de meu fluxo de pensamento, me faz lembrar de como Transparent soube aproveitar muito bem o espaçamento entre seus personagens nesta temporada, abrangendo com sobriedade cada um deles e explorando suas tramas, interconectadas ou não, todas de maneira satisfatória. Quem parece mesmo ter recebido mais atenção neste terceiro ano foi, no entanto, o personagem de Jay Duplass (Cidades de Papel) e sua relação com o que se tornou, de certa forma, sua segunda família. Ainda que tenhamos posteriormente na temporada momentos mais comoventes, a partida da Rita (Brett Paesel) só não se fez tão dolorosa por uma falta de um carisma maior.

Ainda assim, com as cinzas dela sendo despejadas em meio a montagem do final da temporada, durante o grande encerramento de Judith Light, demonstrou-se como a partida da personagem foi realmente fundamental a esta temporada da série, mais ainda ao personagem. Porque o vazio que a Raquel de Kathryn Hahn confronta, é semelhante ao de Josh. Em ambos os casos a grande figura de suas vidas parece se ausentar, todavia, para Josh, a brutalidade com a qual ele é afastado da maior memória que tinha desse ser o tira dos eixos por completo, por mais que fosse uma atitude necessária de acontecer.

No entanto, o golpe parece ser ainda mais duro pela maneira com a qual age para com seu relacionamento com Shae, rendendo a atriz Trace Lysette um dos momentos mais marcantes em Transparent. E o que faz culminar nesse momento subverte expectativas, porque enquanto a série parecia poder encaminhar os dois personagens para um romance de simples desenvolvimento, a problematização dessa relação aborda um duro estigma e algo que, possivelmente, é recorrente na vida real. Mas diferente de Transparent, com certeza é algo tratado com enorme ignorância, e aqui se esboça com muita clareza o quão dolorosa é essa objetificação da mulher trans.

Por isso mesmo acredito que a personagem com a qual Jill Soloway, criadora da série, mais se identifica é a hipnotizante Ali Pfefferman de Gaby Hoffmann (Livre). A maneira como a personagem transita pela trama, com destaque ao oitavo episódio da temporada, parece revelar o constante aprendizado pelo qual, provavelmente, Jill Soloway passou com suas experiências pessoais e ao abordar a temática da série. Sendo este, aliás, um aprendizado que condiz não somente a situação de pessoas transgênero, mas da própria mulher e seu papel na sociedade, cuja personagem nos conduz a uma percepção de como foi reduzido sob imposição do patriarcado, indo muito além num caminho do qual há tanto a se explorar, descobrir e afirmar.

O que, por si só, já torna Transparent numa série grandiosa. Mas se vai além. Assim, Jeffrey Tambor tem outra oportunidade de tornar sua Maura Pfefferman numa personagem ainda mais inesquecível. Com um ápice no primeiro episódio, numa sequência toda comovente envolvendo uma jovem garota trans, culminando numa busca e um encontro que alteram os rumos da personagem. O que a influência durante toda a temporada e, posteriormente, sem a possibilidade de se submeter a cirurgia de confirmação de gênero, é no contato com Elizah (Alexandra Grey) que a própria personagem compreende que precisa aprender mais sobre si mesma e, quem sabe, assim entender o ponto de vista de Vicky (Anjelica Huston), consequentemente para nossa alegria propiciando o retorno desta para uma quarta temporada.

Entretanto, é quando Hand in My Pocket, música de Alanis Morissette, ganha uma reinterpretação no show de Shelley que temos o grande momento da terceira temporada de Transparent. Numa atuação de arrepiar, Judith Light transcende o desenvolvimento de sua personagem, fazendo parecer até que é fácil uma música compreender a explosão de sentimentos que, naquele momento e durante toda a temporada, acometeram não somente aos personagens, mas a todo o público que acompanhou uma jornada que nos levou ao inferno e nos trouxe de volta (To Shell and Back de fato), mesmo que ainda não esteja tudo bem…

Assim, Transparent encerra sua terceira temporada de maneira extasiante, algo que só é possível porque, uma vez mais, a criação de Jill Soloway continuou a exibir uma sensibilidade singular durante toda a temporada. O que mais surpreende, porém, é como a série parece não ter medo de errar, e isso a torna algo que é muito mais do que apenas uma representação, é um sinal de mudança e esperança. Aí voltamos, então, ao constante aprendizado que é Transparent, porque se tateia no escuro para descobrir algo necessário, ultrapassa limites que entendem plenamente que, ao contrário do que aceita uma cômoda sociedade patriarcal, ninguém ainda entendeu tudo.

Comentários

comentários