Crítica | Sense8 | 2ª Temporada

- in Séries de TV
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Sense8 (2ª Temporada) (Netflix, 2015-); Criada por: The Wachowskis, J. Michael Straczynski; Direção: Lana Wachowski, James McTeigue, Dan Glass, Tom Tykwer; Roteiro: Lana Wachowski & J. Michael Straczynski; Elenco: Doona Bae, Jamie Clayton, Tina Desai, Tuppence Middleton, Max Riemelt, Miguel Ángel Silvestre, Brian J. Smith, Toby Onwumere, Freema Agyeman, Terrence Mann, Anupam Kher, Naveen Andrews, Daryl Hannah, Valeria Bilello, Alfonso Herrera, Eréndira Ibarra; Número de Episódios: 11 episódios; Data de Lançamento: 05 de Maio de 2017;

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(Divulgação: Murray Close/Netflix)

O texto contém spoilers.

Sense8, em sua primeira temporada, demorava alguns episódios até engrenar, se bem me lembro era a partir do quarto que a série exibia uma razão de continuidade para o público mais casual. Reflexo direto dos conceitos que se desejava estabelecer, tanto que no primeiro ano da série vemos nossos protagonistas tendo suas tramas individuais desenvolvidas e, portanto, deixando em segundo plano o misterioso vilão interpretado por Terrence Mann, bem como a mitologia dos sensates, cuja conceitos se viam mais esboçados e menos concretizados. Uma construção da qual as irmãs Wachowskis entenderam desde sempre, podendo ser provado até mesmo no fiasco que foi o resultado final de O Destino de Júpiter (Jupiter Ascending), lançado no que parece agora um longínquo 2015. Dada a oportunidade de continuidade, as irmãs retornam -ou ao menos Lana, afinal Lilly se resguardava, enquanto convalescia da cirurgia de transição- a sua criação na série, em parceria com J. Michael Straczynski, para agora desenvolver mais intensamente a mitologia que envolve as capacidades extraordinárias de seus personagens. Algo que, com a notícia de que uma possível terceira temporada seja a última, nos leva a perceber como, sutilmente, Sense8 caminha para criar um arco com processos semelhantes ao funcionamento do maior sucesso na carreira das Wachowskis: a trilogia Matrix.

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(Divulgação: Murray Close/Netflix)

A consequência dessa ambição, no entanto, age de maneiras divergentes, com contrapontos positivos e negativos em cada lado. Nas tramas individuais temos das mais desinteressantes, que além de receberem um raso desenvolvimento se passam, por vezes, com tamanha ingenuidade que as enfraquece; há, também, tramas que se mostram tão interessantes que vemos tomar as rédeas da temporada para si, de maneira muito merecedora por sinal. Obviamente também que, ouvindo os fãs da série, há um investimento mais atencioso nas cenas sensuais, inclusive com uma aparente justificativa da própria série para qualquer eventual reclamação de excedentes cenas de sexo durante Sense8. O fato é que as mesmas se beneficiam do melhor que se tem a oferecer no trabalho da produção, onde há sempre uma beleza estonteante durante o ato sexual, tornando-se até desnecessário um debate sobre suposta gratuidade das cenas. A verdade é que, na maioria das vezes, é mais fácil deslumbrar-se com o que vemos do que lançar críticas infundadas. Algo que atinge seu ápice, provavelmente, no episódio com cenas filmadas durante a parada gay de São Paulo, que lança a cidade a uma importância fundamental na trama da série, que encontra no Brasil um de seus maiores mercados consumidores, devolvendo, assim, a reciprocidade num episódio que é uma ode ao amor.

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(Divulgação: Netflix)

Fica claro, porém, que Sense8 é recheada de momentos que transitam do piegas ao constrangedor em questão de segundos. Muito se releva quando há a possibilidade de se apoiar tais escolhas no desenvolvimento conjunto dos personagens, quando se configura uma conexão que transcende os limites comuns. É simplesmente a suspensão da descrença. Entretanto, o interessante é mesmo quando a frenética visitação dos personagens, seja de todo o cluster ou apenas dois ou três, em situações específicas. A segurança dessa qualidade na construção de tais momentos é tamanha que permite, por exemplo, o embate entre os clusters no oitavo episódio. Mas há uma discrepância em alguns momentos, quando colocamos lado a lado individualidades e visitações. Os personagens de Tuppence Middleton e Brian J. Smith, por exemplo, se veem relegados ao compartilhamento, mas o desenvolvimento de cada um deixa a desejar, com o segundo recebendo uma falsa injeção de dramaticidade após o final do nono episódio. A sequência final é tocante, mas o peso que supostamente deveríamos sentir, assim como os outros sensates do cluster, se vê diluído quando subjugado por outras tramas. É uma situação na qual os personagens se tornam reféns das circunstâncias da própria narrativa, até mesmo por isso a sequência final desta segunda temporada parece se fazer ainda mais alucinante.

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(Divulgação: Murray Close/Netflix)

Não somente os dois personagens ali se veem reféns de um elemento narrativo, como outros precisam se alçar ao mesmo destino para que suas tramas individuais tenham maior propósito. O Wolfgang de Max Riemelt de forma independente, por exemplo, sequer parece possuir uma trama na qual a série queira investir de verdade, com este tendo seus melhores momentos quando com a Kala de Tina Desai, que também não tem lá a mais bem trabalhada das tramas. O primeiro, no entanto, é conduzido rumo ao encontro da Lila Facchini de Valeria Bilello, outra sensate e que se encarrega de fazer a narrativa culminar na reviravolta final. A Nomi Marks de Jamie Clayton e o Lito de Miguel Ángel Silvestre são os que parecem ter algumas das tramas mais sólidas, principalmente por conta da repercussão em torno da sexualidade dos personagens, com apenas alguns pontos sobressalentes, como uma ligeira autofagia das Wachowskis. O que acontece, porém, está longe de ser brilhante, e só funciona bastante bem porque Sense8 sabe lidar com essa sua característica catártica e abraça todas suas consequências. A força injetada nestes personagens é realocada aos outros na narrativa, sejam aos coadjuvantes das tramas individuais, sejam aos ouros sensates do cluster. Contudo, quem mais sofre, individualmente e por motivos externos ao diegético, é o Capheus de Toby Onwumere, que têm seus bons momentos, mas cuja engajamento político requer algo mais que ainda falta a Sense8.

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(Divulgação: Murray Close/Netflix)

Algo que, talvez, encontremos de sobra na trama de Sun Bak, vivida aqui por uma Doona Bae cuja inspiração e dedicação parecem atrair os demais para sua personagem. Não à toa, por exemplo, Lana Wachowski se deleita no season finale dedicado quase que inteiramente à tentativa de resolução do destino da personagem, com uma heroína sob um ponto de vista até fetichista, mas nem por isso com resultado menos efetivo. A derrocada final de Sun resume uma temporada que desenvolveu a personagem, com todos os elementos da obra conjuntamente, de maneira que a torna praticamente a protagonista. O único problema disso é não termos suas cenas em coreano, pois toda a trama sul coreana que envolve a personagem seria dona de uma riqueza emocional e de uma sensibilidade ainda maiores. É ela quem parece mais se aproximar do que foi o melhor do cinema das Wachowskis, mas a narrativa de Sense8 não pode somente girar em torno dela, e carece dessa mesma qualidade compartilhada a seus outros protagonistas. A produção continua impressionante e seu conteúdo permanece tocante, contudo falta coesão para alinhar o todo como um só. Sense8 sempre teve potencial para figurar num escalão de séries que é para poucos, continuando a ter a sua disposição todas as ferramentas para tal. Se saberá aproveitá-las, que o faça logo, afinal, o fim pode estar próximo -ainda que, talvez, chegue só daqui dois anos.

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