The People v. O.J. Simpson: American Crime Story

(FX, 2016-)

Showrunner: Nina Jacobson

Criada Por: Scott Alexander e Larry Karaszewski

Direção: Ryan Murphy, Anthony Hemingway, John Singleton

Roteiro: Scott Alexander, Larry Karaszewski, D. V. DeVincentis, Maya Forbes, Wallace Wolodarsky, Joe Robert Cole

Elenco: Sterling K. Brown, Kenneth Choi, Christian Clemenson, Cuba Gooding, Jr., Bruce Greenwood, Nathan Lane, Sarah Paulson, David Schwimmer, John Travolta, Courtney B. Vance, Steven Pasquale, Selma Blair, Connie Britton, Billy Magnussen

Número de Episódios: 10 Episódios

Data de Exibição: 02 de Fevereiro a 05 de Abril de 2016

The People v. O.J. Simpson: American Crime Story

O texto contém spoilers.

The People v. O.J. Simpson: American Crime Story me deixou embasbacado no momento em que percebi que a nova antologia de Ryan Murphy vinha com tal subtítulo, American Crime Story. Justamente por trazer a memória, imediatamente, uma das melhores séries, também de antologia, da atualidade. A American Crime, de John Ridley. As duas tem propostas semelhantes, mas uma se embasa em acontecimentos reais, enquanto outra se aproveita completamente da ficção. A semelhança que parecia arriscada se mostra interessante, portanto, justamente quando os papéis se invertem, uma “brinca” muito mais com realidade v. ficção, enquanto a outra tenta ser naturalista ao extremo. É no conflito entre ficção e realidade que percebemos, então, o que é crucial na bela American Crime Story.

The People v. O.J. Simpson é o primeiro tema da antologia, que traz um dos casos mais conhecidos da história, não à toa muitos o chamaram de “julgamento do século”. Gerações mais novas, como é meu caso, não devem ser familiares a história, até por envolver um astro do futebol americano, esporte com o qual a maioria dos brasileiros, como eu, não tem sequer a menor intimidade. O que vem mudando, é verdade. Mas não muda o fato de que O.J. Simpson, pivô da história toda, não é aqui tão conhecido como nos Estados Unidos, obviamente. O que ajuda quando não se conhece o caso, pois, a cada nova virada na trama, podemos nos encontrar realmente surpreendidos.

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É aí que acredito que American Crime Story foi vitoriosa, pois, mesmo eu estando convencido de algo, me vi em dúvida em certos momentos. A história conta o julgamento do caso As Pessoas do Estado da Califórnia v. Orenthal James Simpson (The People v. O.J. Simpson), que tinha como base a acusação de homicídio duplo do ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson (Cuba Gooding Jr.). As vítimas eram Nicole Brown Simpson, sua ex-esposa, e Ronald Lyle Goldman. Diversas evidências apontavam para O.J. Simpson como autor do crime, porém, em meio a incompetência do sistema, policial e judiciário, o caso tomou proporções inimagináveis, com a mídia inflamando e influenciando quase que diretamente nas prerrogativas que definiram as consequências do julgamento de O.J. Simpson.

A mídia encontrou uma história dentro da história, afinal, pouco importava se O.J. Simpson era ou não culpado, mas sim o circo que toda a situação gerava. Porque precisamos entender que o futebol americano inflama o público norte-americano como quase nenhuma outra forma de entretenimento faz. Assim, ver um querido jogador sendo exposto daquela maneira, gerava apreensão, mas o julgamento pelas mortes, esse era um que ficou de lado, porque a mídia vendia a história como se fosse O.J. Simpson v. O Sistema Judiciário. O que levava à exposição de cada um envolvido no caso.

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Funciona como uma via de duas mãos, porque O.J. Simpson, se era protagonista na época, aqui deixa de ser. Ryan Murphy, não de forma surpreendente, prioriza a Marcia Clark de Sarah Paulson. O que acaba funcionando bem por diversos motivos, dentre eles o principal, talvez, seja a brilhante atuação de Sarah Paulson. Em anos de American Horror Story a atriz não chegou perto do que faz em The People v. O.J. Simpson, mesmo que tenha tido ótimas atuações lá também. O que ajuda a esclarecer o nível da atuação de Sarah Paulson na minissérie. É incrível como ela transpõe, com sensibilidade, a delicadeza da batalha interior de Marcia Clark no caso, que virou algo pessoal quando, infelizmente, a mídia “atacou” a vida pessoal da advogada, abrindo brechas para que American Crime Story faça uma denúncia/crítica admirável do sexismo.

Mas quando falamos de atuação em The People v. O.J. Simpson, é necessário falar sobre todos, pois aqui temos um trabalho exímio de praticamente todo o elenco. O que expõe como o caso mexeu emocional e pessoalmente com cada um dos envolvidos, além daqueles que haviam sofrido as consequências diretas do ato. As emoções expostas por Courtney B. Vance, John Travolta, Sterling K. Brown, Nathan Lane, entre outros, evidenciam justamente as proporções que o julgamento tomou, quando deslocou-se de um homicídio duplo para uma problemática social constante e gritante nos Estados Unidos.

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O que é uma hipocrisia não somente da defesa de O.J. Simpson, mas das próprias pessoas que foram capazes, posteriormente, de dar ao ex-policial Mark Fuhrman (interpretado na série por Steven Pasquale) posições de destaque na mídia, como comentarista criminal ou com seu próprio programa de televisão. Algo que é, por sua vez, um elemento que ajuda a entender porque o Johnnie Cochran de Courtney B. Vance conseguiu tão “facilmente” manipular a mídia e subverter o sistema. E são motivos como esse que ajudam a entender o apelo público do julgamento e as reações causadas. Porque, querendo ou não, se envolviam ali problemas sociais, com os quais não foram lidados da maneira correta.

Porque não se tratava somente de problemas raciais com os quais precisamos lidar, mas com a convivência social no todo. Porque, se há algo que Ryan Murphy e a equipe responsável por The People v. O.J. Simpson conseguem deixar claro, é como as pessoas colocam o seu ego em primeiro lugar, e não o próximo, que convive em sociedade com você. Assim, pensando só em si mesmos, o caso revelou um egoísmo e um individualismo impressionantes, por parte de cada um dos integrantes, que se viam ali com o maior caso de suas vidas em mãos. Uma oportunidade única de lucrar com a desgraça do próximo.

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O que é algo que a própria série precisa lidar cuidadosamente, porque tendo em vista que este foi um julgamento tão notável e divulgado, mundialmente, precisava de ter algo a mais a oferecer, e não somente ganhar em cima de uma história que, sem dúvidas, chamaria a atenção do público. Esse diferencial, talvez, sejam os bastidores a partir do ponto de vista dos principais envolvidos. Aí surge outro empecilho, o de criar e moldar situações que nunca estiveram lá em primeiro lugar, porque fazer isso seria manipular o público e, lidando com tal julgamento, isso é algo que, pelo bem da sua própria obra, não se quer fazer.

The People v. O.J. Simpson parece acertar aqui, porque mesmo nas cenas das quais tudo que se vê veio direto da imaginação de algum roteirista, há algo contundente sendo adicionado à discussão sobre o julgamento. O mais importante, é concomitante com as personalidades, é algo que vem da essência das personagens. O que ajuda a tornar palpáveis as situações que vemos em cena. É óbvio, entretanto, que se poderia explorar mais uma ou outra personagem, como o próprio júri, porque a passagem de tempo que só é explorada no antepenúltimo episódio, podia ter sido evidenciada anteriormente, fazendo com que se pesasse, junto com o público, a situação deles.

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Porém, tudo parece se encaixar extremamente bem dentro da trama. Mesmo os excessos típicos de Ryan Murphy se controlam, um pouco. Alguns movimentos de câmera, por vezes, se tornam desnecessários. Outras vezes, no entanto, exprimem uma sensação que deve se assemelhar ao que realmente era estar lá, participando daquele caótico julgamento. E essa justaposição de realidade e ficção é justamente o que torna The People v. O.J. Simpson: American Crime Story na grande série que é. Quando a série se encerra, a vontade é de explorar tudo novamente, a partir do ponto de vista que assimilamos na última cena.

Quando o O.J. Simpson de Cuba Gooding Jr. encara, depois de sair de sua própria festa, uma estátua sua que possuí no quintal, fica claro exatamente pelo que Marcia Clark batalhou o tempo todo no julgamento e o que o júri escolheu. Coisa que a própria personagem de Sarah Paulson diz, mesmo que não com todas as palavras, no mesmo episódio, um pouco antes dessa última cena. Ela não lutou contra o O.J. Simpson que estava ali, divinizado numa estátua, ela lutou a favor dos fatos que iam contra o O.J. Simpson que encarava a sombra do que ele um dia havia sido. A verdade não foi suficiente, porque a verdade não é suficiente. Porque acreditamos em histórias que deem um senso de estabilidade, uma esperança de que somos o que, na realidade, não somos.