Crítica | The Handmaid’s Tale | 1ª Temporada

- in Séries de TV
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The Handmaid’s Tale (1ª Temporada) (Hulu, 2017-); Criada por: Bruce Miller; Direção: Reed Morano, Mike Barker, Floria Sigismondi, Kate Dennis, Kari Skogland; Roteiro: Bruce Miller, Leila Gerstein, Dorothy Fortenberry, Wendy Straker Hauser, Lynn Renee Maxcy, Kira Snyder, Eric Tuchman; Elenco: Elisabeth Moss, Yvonne Strahovski, Max Minghella, Amanda Brugel, Joseph Fiennes, Madeline Brewer, O. T. Fagbenle, Ann Dowd, Samira Wiley, Alexis Bledel, Nina Kiri; Número de Episódios: 10 episódios; Data de Exibição: 26 de Abril a 14 de Junho de 2017;

Ainda que os 30 anos desde o lançamento do livro de Margaret Atwood não tenham concretizado uma distopia tal qual, é simplesmente desconfortável assistir à adaptação desenvolvida por Bruce Miller para o serviço de streaming Hulu. É verdade que encarar nossa realidade refletida, literal ou figurativamente, é sempre duro, contudo The Handmaid’s Tale parece algo distante de acontecer nos nossos dias. As aparências, porém, se fazem meras ilusões quando nos deparamos com tantos aspectos de nosso cotidiano em uma série que retrata um governo cristão totalitário e fictício. A ficção vista ali, no entanto, teima em aos poucos se fazer uma verdade em nosso mundo, e nos governos que regem as nações. A crescente presença da fé, em assuntos que obrigatoriamente deviam ser laicos, refletem um antro de ignorância que resiste a difusão pelas quais passam as sociedades, isso quando temos em mente as nações ocidentais e algumas orientais mais influentes. Se é assustador de nossa comodidade assistirmos a algo assim, é preciso acordar para a realidade de que vivemos em um mundo no qual regimes semelhantes já se fazem presentes. Enquanto crenças são uma desculpa simples para a ocorrência dos mesmos, The Handmaid’s Tale torna bem claro que essa não é exatamente a razão.

É muito mais fácil como homem encarar o que se vê, é muito mais difícil assimilar e aceitar o fato de que parte daquelas atitudes são possíveis porque você as propaga, se não diretamente, então ao não se interpor quando as presencia, quando simplesmente aceita o privilégio que, equivocadamente, lhe cabe. Porque é fácil ser homem. The Handmaid’s Tale pouco se importa com nossos egos masculinos e não podia ser diferente. O visceral se encontra no retrato da mulher e o quanto ela é destituída de seu próprio ser, de suas próprias conquistas. Em parte, por essa propagação privilegiada de idiotice que permitimos, todos nós, se fazer realidade. É inquietante perceber o quanto deixamos de compreender o quão complicado é ser mulher e o tamanho da parcela de culpa que temos aí. Soa até errado lançar uma crítica sobre a série que tem uma funcionalidade tão contundente nesses quesitos, que bate de frente com o patriarcado e alça um retrato sobre o mundo que está por se construir. Mas é necessário falar sobre os holofotes que se lançam sobre os menores atos, ao protagonismo de Elisabeth Moss e das mulheres, aquelas presentes nesse mundo ficcional e as reais, que provavelmente temem, com razão infelizmente, um acontecimento como o retratado na série.

The Handmaid’s Tale une a narrativa literária de Margaret Atwood a uma adaptação que não somente atualiza, sem dúvidas, o conteúdo, mas cria um espectro estético que tem igual importância. Num tom ditado por uma espetacular trilha sonora, ora tocante ora assombrosa, o mundo infértil de Gilead se faz ainda mais austero na combinação dos elementos; do figurino e design de produção contrastantes, à maneira como os mesmos são ressaltados por uma fotografia raramente convencional, em que se opta pela saturação e destaca principalmente esse estado das personagens femininas que, mesmo entre as privilegiadas no alto escalão da sociedade, se encontram em uma situação de constante opressão masculina. Uma desconstrução que, por completa, acompanhamos no melhor episódio da série. O deslumbrante sexto episódio é o primeiro inteiramente escrito e dirigido por mulheres em The Handmaid’s Tale, as responsáveis são Floria Sigismondi que, na direção, faz algo excepcional com o roteiro escrito por Wendy Straker Hauser, até mesmo pela temática com a qual lida. Enquanto é justo afirmar que tanto os flashbacks como as tramas da protagonista June (Elisabeth Moss), e dos outros coadjuvantes, são ótimos, é naquele focado na personagem de Yvonne Strahovski que temos desferido sobre nós o golpe mais forte. A maneira na qual a própria autora sucumbe à sua ideia é emblemática, rendendo confrontos memoráveis durante o episódio, assim como a cena em que sua obra é considerada descartável. Portanto, resguardada ali encontramos uma reflexão muito profunda e indispensável.

Demonstra também a ambiguidade que The Handmaid’s Tale cria ao desenvolver seus personagens, deixando o maniqueísmo onde precisa estar, e tornando algo que parecia de simples compreensão em complexo. A própria Ann Dowd (The Leftovers) faz disso um exemplo perfeito, naquele mesmo sexto episódio, quando recebe uma ordem desconcertante da personagem de Strahovski. O que torna latente a hipocrisia de um sistema de crença falido. Outro elemento que também não é simplificado ao longo da temporada, muito pelo contrário, há tanto a se descobrir sobre o que há por detrás dos comandantes e quem rege esta sociedade, que segue à risca mandamentos mas parece manter perante a Deus outra autoridade que não essa. Nada além do óbvio, visto que mesmo aqui do nosso lado as “vitórias” de responsáveis por retrocessos, em congressos legislativos e semelhantes, são alguns dos quais não se salvam em momento algum dessa mesma hipocrisia. Se a série funciona nesse nível de exposição, onde torna clara as maiores semelhanças entre realidade e distopia, entre o nosso encaminhar ao pesadelo, é nos menores detalhes que se fazem destaque o quanto nos aproximamos disso ao fecharmos os olhos e recusar perceber o que já está aqui, no cotidiano de nossa sociedade e ainda mais vigente às mulheres.

Elisabeth Moss se faz uma força motriz em The Handmaid’s Tale. Seu talento já havia sido comprovado ao longo de anos em Mad Men, assim como na minissérie Top of the Lake. Aqui, porém, tanto recaí sobre a atriz. Os enquadramentos chegam a ser cruéis, ou assim parecem, de tanto que exigem de Moss, que cena após cena implementa à dramaticidade da série e nos carrega numa jornada emocional que é de dar um nó no estômago. Os raríssimos e ligeiros momentos de alegria da personagem se fazem um alívio que transcendem apenas ao instante, pois através de Elisabeth Moss a série encontra uma ponte perfeita para estabelecer uma conversação que se faz obrigatória. Essa crueldade, portanto, passa a se fazer menos uma imposição ao espectador. A estabilidade no rosto da atriz é quase uma obrigação, não é possível, não é permitido desviar o olhar. Aquilo que se está por encarar não apenas é uma interpretação de uma personagem fictícia, mas uma representação daquilo em que permitimos a que ela fosse submetida, ao que nós a tornamos, a subjugamos. É propositadamente desconfortável, porque de uma vez por todas é preciso renegar a comodidade e prestar atenção: retornar à escuridão não é uma opção.

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