Crítica | GLOW | 1ª Temporada

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GLOW (1ª Temporada) (Netflix, 2017-); Criada por: Liz Flahive & Carly Mensch; Direção: Jesse Peretz, Wendey Stanzler, Claire Scanlon, Melanie Mayron, Phil Abraham, Kate Dennis, Sian Heder, Lynn Shelton, Tristram Shapeero; Roteiro: Liz Flahive, Carly Mensch, Nick Jones, Sascha Rothchild, Rachel Shukert, Jenji Kohan; Elenco: Alison Brie, Betty Gilpin, Sydelle Noel, Britney Young, Marc Maron, Jackie Tohn, Kate Nash, Britt Baron, Gayle Rankin, Chris Lowell, Kimmy Gatewood, Rebekka Johnson, Sunita Mani, Kia Stevens, Ellen Wong, Marianna Palka, Bashir Salahuddin, Rich Sommer; Número de Episódios: 10 episódios; Data de Lançamento: 23 de Junho de 2017;

(Divulgação: Erica Parise/Netflix)

Liz Flahive e Carly Mensch têm bem claro em seus currículos o quanto gostam de trabalhar o protagonismo feminino. A parceria de ambas culmina em GLOW, que faz bem em aproveitar o envolvimento das criadoras com Orange is the New Black, mas não tira proveito à toa, ou não surge somente para suprir a sede de mais uma temporada da mesma. Essa nova comédia da Netflix também não é feita tendo em mente, somente, os fãs de luta livre. Logo de cara já dá para identificar o viés que a série possuí, mas é logo no quarto episódio que temos plena certeza de que GLOW possuí uma identidade própria e que é capaz de conquistar seu próprio público. O conjunto da obra é, no entanto, uma grata surpresa não só pela qualidade e como lida com suas temáticas, mas como consegue estabelecer um ritmo constante e envolvente, se mostrando uma experiência que tem garantido o selo de binge-watching do serviço de streaming, numa narrativa gostosa de acompanhar e que ressalta o talento de suas criadoras bem como se atenta, nos momentos corretos, à seriedade necessária para que as personagens assumam o protagonismo que lhes pertence, lançando a série a momentos de puro êxtase.

(Divulgação: Erica Parise/Netflix)

A construção da identidade de GLOW segue diretrizes práticas, mas que não se tornam um clichê ou soam desgastadas. Dos figurinos típicos à maquiagem, da trilha sonora ao pano de fundo político, a série nos transporta com sucesso para meados dos anos 80, no que parece ser o auge de uma geração, ou se tornaria quando essas mulheres passassem a protagonizar suas próprias histórias. Num acerto estético alinhado com a proposta, o ar que se faz aparente, porém, é daquelas comédias autorais independentes norte-americanas. Chega a ser irônico em se tratando de uma série sobre luta livre, mas há uma naturalidade prevalecente na série, o que, quando estabelecido com o sucesso visto aqui, acaba nos aproximando dos personagens. GLOW ainda age de maneira muito sábia ao abraçar suas peculiaridades com um senso autocrítico fundamental. É em parte o que torna possível a maneira com a qual vemos os estereótipos sendo lidados ao longo da temporada. O quarto episódio deixa bastante claro esse funcionamento, quando o relacionamento entre Sheila (Gayle Rankin) e Ruth (Alison Brie) é desenvolvido e as duas acabam por reconhecer um sentimento mútuo, vendo através dos estereótipos aos quais foram rotuladas. O laço que se forma ali é uma das virtudes na série.

(Divulgação: Erica Parise/Netflix)

Se é possível dizer que no quarto episódio GLOW nos conquista por completo, é então no oitavo episódio que assim se justifica também. A razão, em grande parte, de ser tão envolvente está no carisma que apresenta, algo que se estende por toda a série, mas que fala mais alto em quando se trata das personagens, ou até mesmo no Sam Sylvia de Marc Maron (Easy), por exemplo. Todas as atrizes coadjuvantes rapidamente passam a formar uma família, cuja medo de vermos sendo desfeita, por uma possível falta de sucesso do projeto, ecoa em nós com tremenda força quando Justine (Britt Baron) contempla essa possibilidade de desmanche. Essa união das personagens é contagiante, mas seria injusto dizer que todas recebem a mesma parcela de atenção. Este é um elemento em que GLOW pode se aprofundar, aproveitando para explorar histórias individuais em possíveis próximas temporadas. É não só uma oportunidade singular a que se tem em mãos aqui, mas também um futuro trunfo, de dar a essas mulheres a história que merecem. Algo pelo qual tanto Sheila, como a Cherry Bang de Sydelle Noel e a Carmen Wade de Britney Young já demonstraram ter segurança para sustentar, faltando só a série, agora, se aprofundar nas personagens e no talento das atrizes.

(Divulgação: Erica Parise/Netflix)

Elementos que são aproveitados plenamente no antagonismo de Alison Brie e Betty Gilpin (American Gods, Masters of Sex), que trazem temáticas muito mais sérias à GLOW e até modificam o tom cômico para um dramático, em transições naturais, obviamente. Como no oitavo episódio, cuja brilhante final ainda pode, infelizmente, trazer consequências em vindouras temporadas. É impossível escolher uma das duas como principal nome da temporada, e a própria série parece compreender isso. É através do conflito de ambas, no entanto, que muito do que GLOW prega se torna mais claro. Por vezes são em sutilezas, quando precisam se provar àqueles ao seu redor, por vezes são literais, quando tornam eloquente o que encontram nos treinos, por exemplo quando a mãe de Sebastian (Chris Lowell) compreende o que as mulheres estão tentando fazer. A trinca final de episódios é um encaixe perfeito, nos quais tudo o que acompanhamos ao longo da temporada acaba sendo compensado, todos os problemas são enfrentados cara a cara, preconceitos são superados e estereótipos são desenvolvidos até assim deixarem de ser, culminando em um episódio final que traz o tão aguardado momento, tanto para personagens como espectador, fluindo entre as provações dessas mulheres pertencerem aonde bem entenderem e resultando num embate final extasiante, onde o voo metafórico se refere a muito mais do que aparenta.

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