Crítica | Flaked | 1ª Temporada

Crítica | Flaked | 1ª Temporada

- in Séries de TV
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Flaked

(Netflix, 2016)

Direção: Wally Pfister, Josh Gordon e Will Speck, Tom DiCillo

Roteiro: Will Arnett e Mark Chappell

Elenco: Will Arnett, Ruth Kearney, David Sullivan, Lina Esco, George Basil, Christopher Mintz-Plasse, Heather Graham, Travis Mills, Kirstie Alley, Mike Cochrane, Jeff Daniel Phillips, Seana Kofoed, Annika Marks, Annabeth Gish, Robert Wisdom, Mark Boone Junior

Episódios: 8 episódios

Data de Lançamento: 11 de Março de 2016

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O texto contém spoilers.

Flaked, nova série original da Netflix, é obviamente um projeto pessoal para Will Arnett. Cocriador da série com Mark Chappell, os dois assinam os roteiros de todos os 8 episódios dessa primeira temporada, que traz um misto de comédia e drama. Mas que se perde exatamente na transição entre os dois. Aliás, é também exatamente por ser um projeto pessoal que se perde, por exemplo, a linha guia de quem é Will Arnett e quem é a personagem que ele interpreta. Isso resulta no que dificulta a digestão de Flaked, que sofre algo semelhante ao que acontece em Love, outra série original da Netflix lançada esse ano.

Em Flaked, acompanhamos o dia-a-dia de Chip (Will Arnett) em Venice, onde ele vive como um guru de autoajuda para o grupo de alcoólicos anônimos da comunidade. Ele mesmo é um ex alcoólatra, vivendo um autoexílio na cidade há 10 anos, época na qual matou um homem atropelado na cidade, enquanto dirigia bêbado. Sentindo-se responsável, ele vive para impedir que alguém cometa tragédia semelhante à sua. Entretanto, após a chegada de uma nova moradora em Venice, além de sua amizade com Dennis (David Sullivan), segredos que seu passado guarda também serão colocados em risco, capazes de destituir sua credibilidade.

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Flaked não demora para engatar, muito menos merece ser tão rechaçada como vem acontecendo. Apesar de faltar à série uma identidade visual mais consistente, é o humor sofisticado existente na série que a diferencia. Portanto, Flaked está longe de ser ruim, mas ainda a alguns passos de distância de ser veridicamente boa. Se dá dessa maneira exatamente por não saber explorar de melhor forma essa sofisticação que possuí, ficando no meio do caminho. É um drama travestido de comédia bem escrita, porém, antes disso não sabe sequer ser um drama correto. Seja aí, talvez, que resida o maior empecilho de Flaked.

A trama se desenvolve num bom ritmo, gerando um mistério sobre o que realmente leva Chip à Venice. Tanto é que se torna bastante óbvio o que realmente ocorreu antes mesmo de ser dito com todas as palavras. Porém, antes disso acontecer há muitas outras coisas presentes em Flaked. Pode-se discutir se a trama da série é movida pelas personagens ou pela história. Porque se há algo que leva a trama para a frente, mais do que tudo, são as próprias personagens. Chip, obviamente por ser a principal personagem da série, é o que torna isso mais evidente. Pensando assim compreendemos algo básico sobre Flaked.

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Por isso o humor é sofisticado e, por vezes, parece até truncado. É exatamente por não focar numa história ou situação específica, mas na personagem em si. O que torna difícil de se aceitar o que vemos acontecer, porque o Chip de Will Arnett é um babaca, como a própria personagem Kara (interpretada por Lina Esco) vai dizer à Dennis em certo episódio. Aqui é que se confundem personagem e ator. Porque se o próprio roteirista, que também é o ator e criador da série, aceita que seu personagem é um babaca, mas nada faz para muda-lo, fica a dúvida se não trata-se simplesmente de ego.

Um ímã de mulheres. A maneira mais correta de definir a sexualidade de Chip. Mesmo sendo babaca com todas as mulheres -ou homens, ou animais ou qualquer coisa. Ainda que se trate, na maioria das vezes, de relações casuais. Mas é, por exemplo, na sua relação com Kara que percebemos o quão negligente ele consegue ser. Poderia afirmar que ele não gostaria de se apegar a alguém, pois não consegue desprender-se completamente de seu passado. Entretanto, na sua última cartada para não perder sua loja, o próprio dono do estabelecimento faz Chip perceber que tem somente um blefe, afinal, tem medo de abrir mão do que estabeleceu em Venice.

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É o resultado de um narcisismo da personagem, que tem como consequência personagens coadjuvantes muito mais empáticos que ele próprio. Dennis, por exemplo, é muito mais relacionável que o Chip de Will Arnett. Por isso mesmo quando ele começa a desenvolver sentimentos por Kara, gera-se uma sensação de satisfação. Só que ao decepcionar Dennis romanticamente ficando com outro, ela demonstrou, ao menos no meu caso, como me apeguei muito mais ao personagem de David Sullivan, porque foi aquele o grande momento de partir o coração na primeira temporada de Flaked, que culminou no final do último episódio, quando Dennis se sentiu traído com tudo que Chip manteve em segredo.

É também quando descobrimos que Chip não matou ninguém, mas aceitou encobrir sua ex esposa, Tilly (Heather Graham), a verdadeira responsável pelo acidente, que percebemos o quanto Flaked perdeu a chance de ser uma grande série. Porque o fardo que imediatamente surge, a faceta mais complexa que se revela de Chip, completam uma história movida por sua principal personagem. Flaked poderia ter explorado de melhor maneira essa vida artificial que Chip criou para si próprio. Contudo, a reviravolta final da série perde força, pelo mesmo motivo que a cena final da temporada, na qual Chip sai andando abraçado com London (Ruth Kearney). Se mentiras são o que viveu Chip por 10 anos, Flaked fez jus a isso, como consequência, mentindo para o público ao entregar um desenvolvimento artificial e superficial.

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