Crítica | Deuses Americanos – 1ª Temporada

- in Séries de TV
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Demorou muito tempo para achar o formato adequado para adaptar a obra American Gods de Neil Gaiman, empacou por anos com a promessa de uma franquia de filmes, porém foi engavetada e desengavetada para virar uma série de televisão, tendo Bryan Fuller comandando o programa. O showrunner enfrentou dificuldades para conduzir Hannibal, pois emissora achava o tom muito pesado para o público – de canal aberto – acabando por sofrer impasses que tiveram como desfecho o cancelamento da série. Se Fuller enfrentou bloqueio criativo na antiga emissora, agora nota-se como ele gozou de pleno controle narrativa na construção desse universo tão vasto, chegando ser evidente como o criador do show dialoga tanto com o material original no qual está adaptando, construindo uma das séries mais visualmente ousadas dos últimos tempos e com uma narrativa visceral, tornando os –meros- oito episódios uma experiência marcante.

A trama gira entorno de um ex prisioneiro, recém saído da cadeia, chamado Shadow Moon (Ricky Whittle), ele acabou de perder a esposa Laura (Emily Browning) e vê como opção de recomeço o trabalho com o misterioso Sr Wednesday (Ian McShane). O enredo não esconde o que está acontecendo realmente, apesar da ingenuidade de Shadow em perceber as figuras nas quais ele está conhecendo. Wednesday é um Deus antigo que tenta não ser esquecido e por consequência substituído pelos Deus Modernos – tecnologia, mercado financeiro e mídia – e então parte na jornada para “recrutar” outros deuses que vivem a mesma aflição. Entretanto, os deuses modernos percebem a ameaça iminente de uma guerra entre eles e entram em campo para evitar essa briga de braço.

Não se pode falar muito da estória em si, pois a graça é justamente perceber as jogadas do roteiro em te levar para um caminho surpreendente. Contudo, a criação dos personagens é feito de forma minuciosa, até o maniqueísmo expresso na relação “antigo” Vs “Novo” é feito de forma elaborada. Os novos deuses em nenhum momento são taxado como vilões, eles representam grandes benefícios para a sociedade moderna, contudo, ao mesmo tempo, são responsáveis pelos principais malefícios. Ao mesmo tempo que os Deuses Antigos, que se baseiam muito numa fé cega e corrosiva, ocasionando derramamento de sangue ao longo dos séculos em nome de “Deus”.

A ideia de personificar as figuras endeusadas proporciona uma controversa relação de identificação e frustração. Dói perceber o quão amargurado e frágil são aquelas figuras que supostamente deveriam nos guiar em favor da força maior e superação de qualquer adversidade. No entanto não é uma ofensa ou um enfrentamento da fé alheia que a série propõe, sim o argumento que Deus está dentro de nós e a própria fé compõe nossa força, algo meio banal mas ainda sim primordial de ser dito, ainda mais em tempo de tamanha intolerância e miopia intelectual.

A série propõe também em colocar em xeque a construção que a sociedade faz entorno de mitos, endeusando figuras humanas e as transformando em Deuses. A personagem Mídia (Gillian Anderson) melhor reflete isso, ao incorporar diferentes personalidades do mundo pop, mostra como a sociedade em essência carece de identidade própria, tendo que criar uma tendência a seguir. Dos três deuses modernos, ela foi a melhor desenvolvida. Não me parece mera coincidência o Tecnoboy (Bruce Langley) ser um adolescente imaturo e birrento, corresponde muito a maioria do público das redes sociais. Porém senti falta de um envolvimento maior ao Sr. World, o deus do mercado, espero que isso seja melhor elaborado na inevitável segunda temporada.

Um dos pontos altos é como a série exalta a figura da mulher encarnada na deusa Bilquis (Yetide Badaki) Rainha de Sabá- ela representa sexualidade, liberdade e renovação, tendo sido privada de seus poderes pela opressão masculina que não aceitava uma figura feminina tão representativa assim. Ela é a personagem de longe que mais representa o empoderamento feminino entorno do mundo moderna machista, individualista e conservador. Seu plot é bastante intrigante e o que mais deixa o gostinho de quero mais para a próxima temporada, pois queremos vê-la liberta dos dogmas totalitários que a fizeram decair.

American Gods ou Deuses Americanos termina em momento de ápice, deixando tudo preparado para a próxima temporada. Se as primeiras temporadas costumam ter o problema de apresentação de personagem e problematização deles, eu diria que a primeira temporada conseguiu com mérito superar todos os desafios enfrentados, até pela dificuldade do material, entregando uma obra atual, importante e vibrante. É interessante notar que todos os deuses apresentados são das mais variadas e distintas religiões, pregando coexistência entre elas e demonstrando as similaridades de todas. Apesar do “Darwinismo religioso”, de assimilar o melhor que uma religião tem para construir outra conforme a necessidade de um povo/sociedade/etnia, todas as religiões em si partem de um denominador comum que é fé que a vida tem algum sentido. American Gods pode não dar isso, porém nos dá um entretenimento inteligente e arrebatador, tornando a vida um pouco menos amarga.

TRAILER LEGENDADO

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