Crítica | Demolidor | 2ª Temporada

Crítica | Demolidor | 2ª Temporada

- in Séries de TV
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Demolidor (Marvel’s Daredevil)

(Netflix, 2015-)

Direção: Phil Abraham, Marc Jobst, Peter Hoar, Floria Sigismondi, Andy Goddard, Ken Girotti, Michael Uppendahl, Stephen Surjik, Euros Lyn

Roteiro: Douglas Petrie, Marco Ramirez, Mark Verheiden, John C. Kelley, Lauren Schmidt Hissrich, Sneha Koorse, Luke Kalteux, Whit Anderson

Elenco: Charlie Cox, Deborah Ann Woll, Elden Henson, Jon Bernthal, Élodie Yung, Stephen Rider, Rosario Dawson, Vincent D’Onofrio,

Número de Episódios: 13 Episódios

Data de Exibição: 18 de Março de 2016

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O texto contém spoilers.

Demolidor (Marvel’s Daredevil) veio para uma segunda temporada tomada de expectativas. O primeiro ano da série deu tão certo, sendo sucedido por Jessica Jones que, de uma vez por todas, mostrou como a Marvel sabe muito bem fazer uma produção adulta. Só que aqui saí a urgência do discurso de Jessica Jones, que tocava em temas muito mais delicados, algo que já deixa claro que Demolidor nunca atingirá um determinado patamar, se não abrir mão de certas convenções. Em compensação outra urgência que sai de cena nessa segunda temporada é o estabelecimento de um Universo para a personagem título, o que faz com que esse segundo ano possa fluir muito bem.

É verdade, entretanto, que demora para engrenar. Aqui podemos discutir, por exemplo, a estratégia de marketing. Obviamente é difícil esconder a adição de novos personagens à trama, entretanto, não havia surpresa para essa segunda temporada se você acompanha regularmente notícias do mundo do entretenimento. Dessa maneira, os episódios iniciais da segunda temporada parecem mesmo se desenvolver sem ter muito o que oferecer, buscando em personagens aleatórios e descartáveis uma forma de conectar todos as personagens naquilo que moverá a trama do segundo ano de Demolidor. É a partir do terceiro episódio, portanto, que a série começa a decolar.

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Só que como consequência, o Demolidor de Charlie Cox parece perder sua própria série. Ainda que seja o principal e todos ali recorram a ele, ou em dado momento precisem de seu auxílio, essa temporada acabou sendo mais dos outros que do próprio personagem que dá título à série. O que não conflita com o que falei de já ter estabelecido um Universo. É exatamente este o motivo. Com um Universo já estabelecido, onde o Demolidor e sua existência são plausíveis, abrem-se portas para explorar ademais personagens, como Foggy Nelson (Elden Henson) e Karen Page (Deborah Ann Woll).

O que talvez falte seja estabelecer um Demolidor consistente. Dar uma complexidade ao personagem de Charlie Cox. Porque, por enquanto, seus melhores momentos são quando está interagindo com alguém ou em algumas cenas de luta, algumas das mais bem trabalhadas da série. O que funciona é, na realidade, a química exibida por Charlie Cox ao lado de seus dois interesses românticos, interpretados por Deborah Ann Woll e Élodie Yung (Deuses do Egito). Assim como sua amizade com Foggy, ou sua estranha parceria com o Justiceiro de Jon Bernthal. O que não me convence são as crises da personagem, de ser ou não o herói que a cidade precisa.

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É exatamente por faltar uma urgência semelhante à vista em Jessica Jones. O que muda, por exemplo, quando Matt Murdock faz uma visita a Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio) na prisão. Quando o Rei do Crime decide tornar as coisas mais pessoais, porque assim o fez também Murdock, surge então um viés mais interessante de ser explorado, abrindo uma possibilidade de vermos um Matthew Murdock mais conflitante entre ser ou não este herói que a cidade precisa. Até porque ele irá, então, repensar suas relações de maneira muito mais altruísta, quando perceber o risco no qual está colocando seus amigos.

Digo isso porque a sensação que tive é que o desenvolvimento da relação entre Matthew Murdock e Karen Page, mesmo que já tivesse sido superficialmente explorada no ano anterior, acontece aqui de maneira muito artificial. Como se a produção estivesse empurrando os dois um para outro, ao invés de fazer a narrativa jogá-los naturalmente na vida um do outro. Assim, foi deixada de lado qualquer relutância que Matt tinha em se relacionar com outras pessoas. Perceber como isto é artificial se torna simples quando a Elektra de Élodie Yung entra em cena, com a série se demonstrando praticamente apática ao desenvolver o romance entre os dois.

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Não completamente apática, é verdade. Mas é emocionalmente barata a relação de Elektra e Matt. Mesmo a cena em que os dois finalmente se entendem e compreendem que o melhor, na realidade, era os dois fugirem juntos e serem felizes. Por ela vir justamente no momento do ultimato, perde força. Diferente, por exemplo, de quando os dois, em um flashback, entram na casa do homem que matou o pai de Matthew, sem ele saber do que se trata. Quando Elektra resolve cortar o queijo em cima de Matthew percebemos uma certa naturalidade na interação dos dois, é ali que a relação funciona. Depois é tudo muito mecânico, exatamente porque Demolidor, como série, tem medo de se comprometer completamente.

A consequência disso é o Justiceiro. Em um bom trabalho de Jon Bernthal temos aquele que é, provavelmente, o melhor Justiceiro das telas. Porém, o discurso que se queria ser construído em Demolidor perde força, justamente por a série não exibir um mesmo comprometimento que Jessica Jones. Porque os crimes do Justiceiro, e sua matança nada mais é do que um crime, não se faz parecer como tal. Assim, quando o Demolidor se sente em dúvida em relação ao Justiceiro não é uma sensação tão plausível. Aí é que entra a personagem de Deborah Ann Woll. Porque é quando Karen Page se vê dividida que percebemos qual deveria ser a gravidade do discurso.

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É justamente por se comprometer demais com o entretenimento que Demolidor não deixa isso transparecer. A série não só pode, como deve, sim, almejar muito mais. Mas Demolidor parece se conter como a série de “porradaria bruta” para maiores de idade. Porém, nem aqui consegue se comprometer completamente, afinal, as coreografias parecem muito mais danças do que lutas. Sem contar na forma não só como soam, mas parecem falsas. São muito melhores do que a média, entretanto, ficam aquém do que se espera. Parece ter sido feito às pressas e, assim como o drama moral da série, que não se faz pesar sobre o público, os golpes do Demolidor não se fazem pesar sobre os vilões, o inverso idem.

Todavia, Demolidor está longe de ser ruim, entrega justamente o que promete. O problema é mesmo essa promessa, de se contentar com menos do que deveria. Porque enquanto Jessica Jones está lá, discursando veementemente contra o estupro, lutando contra o machismo e colocando a mulher no centro de sua própria história, erguendo uma bandeira, Demolidor parece nem saber o que é sexo, muito menos abuso sexual. É uma série adulta, mas que parece ter visto sua vida adulta chegar precocemente, parece ter sido obrigada a viver nesse estado. Funciona, mas por tempo limitado. Inflama os ânimos, mas não é o suficiente para mantê-los alimentados por muito tempo. Quando o Justiceiro afirma que o Demolidor é uma meia-medida, não posso fazer outra coisa, senão concordar.