Casual (2ª Temporada)

(Hulu, 2015-presente)

Direção: Jason Reitman, Karyn Kusama, Iain B. MacDonald, Lynn Shelton, Marielle Heller, Michael Weaver, Fred Savage

Roteiro: Zander Lehmann, Liz Tigelaar, Harris Danow, Molly Smith Metzler, Marguerite MacIntyre, Rosa Handelman

Elenco: Michaela Watkins, Tommy Dewey, Tara Lynne Barr, Nyasha Hatendi, Julie Berman, Katie Aselton, Fred Melamed, Zak Orth, Dylan Gelula, Britt Lower, Vincent Kartheiser, Britt Robertson, Kyle Bornheimer, Rhenzy Feliz

Número de Episódios: 13 episódios

Data de Lançamento: 07 de Junho a 23 de Agosto de 2016

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O texto contém spoilers.

Confesso que Casual atraiu minha atenção muito antes da indicação ao Globo de Ouro este ano. Na verdade, aconteceu quando eu pensava o projeto ser um novo filme do diretor Jason Reitman (Homens, Mulheres e Filhos), o que para minha surpresa não se revelou exatamente correto, mas não menos satisfatório. O mundo ao qual fomos introduzidos na primeira temporada era encantador, e por pouco não comentei sobre a série aqui, a vontade era enorme, mas já não era mais tempo. Felizmente, a série parece retornar ainda mais inspirada em sua segunda temporada, dando uma oportunidade senão igual, então superior a discussão sobre apenas uma temporada.

Após os abruptos desentendimentos no final do primeiro ano de Casual, caminhos diferentes são seguidos por cada um na tentativa de superar a situação em que se encontram. O mais afetado é claramente Alex (Tommy Dewey), que se recusa em admitir o estado de luto após terminar uma relação que o fazia tão bem. Porém, se ele não encontra uma forma de se sentir melhor, Valerie (Michaela Watkins) e Laura (Tara Lynne Barr) também passam por algo semelhante, sem saber exatamente como seguirem com suas próprias vidas. Resultado também da comodidade, não sempre positiva, que Valerie encontra vivendo com o irmão.

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Mas nada nunca é tão bom quanto você pensa que será, afirmação da própria Valerie sobre uma sopa, afirmação que parece servir tão perfeitamente bem aos acontecimentos dessa temporada, inclusive a tentativa de se cobrir uma sopa mediana com tudo o que for possível para torna-la digna de tanta propaganda, ou ao menos tentar. Essa segunda colocação é uma metáfora que complementa a afirmação, porque raramente o que acontece em Casual é realmente como se esperaria que fosse e, com isso, os personagens tentam acobertar essa decepção da melhor maneira que podem. Afinal, como pode Alex sempre terminar estando bem?

A season finale desta temporada parece vir para firmar como as aparências enganam, como nós próprios nos enganamos em meio a esse monte de mentiras com as quais cobrimos nossas vidas. O motivo para isso, entretanto, parece ficar obscuro, parece não fazer sentido. É confuso. Não se quer apenas viver sem ter uma resposta, mas engana-se quem pensa que aceitar isso tudo é apenas seguir vivendo cotidianamente sem refletir sobre. Porque aí continuamos a sermos enganados, acreditando em algo que também não é uma verdade. São as vantagens e desvantagens de nada ser absoluto, de nada perdurar ou dever perdurar tanto quanto pensamos que deveria.

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Não é exatamente essa realidade que dá um novo propósito ao site de Alex? Essa ambiguidade do que é a vida dá também ao personagem de Jordan (Vincent Kartheiser) uma certa sensação de hipocrisia, quando chegamos em sua relação com Sarah Finn (Britt Lower), o que Casual não falha em explorar, e com certa agilidade. É incrível como cada um dos personagens principais segue uma muito bem estabelecida diretriz problemática com as relações que possuem, que fora a que constroem em casa, em família, não são nada simples e raramente funcionam, muito porque a projeção em outrem bate na mesma tecla de nunca ser o que se espera.

Quando Alex reencontra Sarah a sensação é de que essa sua diretriz, dele não conseguir manter uma relação, da quase inexistência da paixão em sua vida, vai por água abaixo. A dinâmica dos dois revela mais sobre Alex do que Sarah, é verdade, mas revela anteriormente ao season finale a dificuldade do personagem em construir esses laços. O que funciona incrivelmente bem no espaço cênico da casa de Alex, casa com cômodos que servem quase que como um outro personagem, desempenhando um grande e importante papel na maneira como tudo ali se desenrola.

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Assim, quando Sarah Finn chega e altera a aparência do local, as coisas deixam de serem as mesmas, e isso no geral, porque altera-se toda a dinâmica da coisa. Cada personagem parece ter em seu quarto uma passagem literalmente para uma intimidade só sua, quando estando ali deixando transparecer algo além, isso não se tratando das cenas mais superficiais de sexo. As cenas mais dramáticas, na prática, exprimem algo desses personagens em seus cômodos particulares, não à toa Alex quase não tem cenas sozinho em seu quarto, pois pouco deixa transparecer para o público.

Laura, no entanto, já é bastante diferente. E sua intimidade, muito compartilhada conosco, expõe sobre ela essa introspecção da qual a personagem sofre. Enquanto possa incomodar alguns espectadores a maneira como ela se relaciona, é justamente essa a intenção para a personagem, para explorar essa dificuldade que ela encontra. E aqui Casual fala muito sobre os exemplos paternos, principalmente quando Laura deixa Valerie, sua mãe, adentrar em sua intimidade, quando as duas conversam na cama durante o último episódio da temporada. Ali Laura revela não só a realidade da relação de seus pais, mas possivelmente o que ela tanto teme encarar em relações mais duradouras.

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Assim como o que Valerie teme em enfrentar com relações que não perdurem tanto. Porque correm-se menos riscos, porque espera-se menos e, como consequência, decepciona-se menos com coisas que acabam não sendo o que pareciam. Até porque se está em algo que não é o que parece, com a comodidade, como sempre, falando mais alto. E não é que Casual destitua qualquer relação duradoura ou seja contra casamentos, namoros ou uma vida conjunta, muito menos tenta demoniza-las por completo. A verdade é que Casual apenas não acredita que elas realmente sejam o que parecem.

No fim é tudo nossa culpa, porque já sabemos o que irá acontecer e, ainda assim, parecemos agir como se esperássemos algo diferente disso, algo diferente do fim. Não sabemos lidar com a dor da solidão e a tristeza, porque nunca somos preparados ou preparamos para tal, almejamos tanto a própria felicidade que esquecemos não estarmos sozinhos, ao menos não em um sentindo geral. Quando Leon (Nyasha Hatendi) abre um episódio todo com um romance em sua vida, longe dos Cole, é apenas um indicativo que não são só as nossas próprias vidas que importam. Cada um como protagonista de sua própria história, cada um sofrendo tanto quanto o outro. Casual, tanto a série como a palavra. Esse evento com o qual nos envolvemos, postergando a tragicômica ação que é aceitar o quão óbvio se precisa seguir em frente.

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