Crítica | Casual | 3ª Temporada

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Casual (3ª Temporada) (Hulu, 2015-); Criada por: Zander Lehmann; Direção: Lynn Shelton, Carrie Brownstein, Lake Bell, Amy York Rubin, Michael Weaver, Gillian Robespierre, Jason Reitman; Roteiro: Zander Lehmann, Liz Tigelaar, Marguerite MacIntyre, Harris Danow, Molly Smith Metzler, Rosa Handelman, Tommy Dewey, Michaela Watkins; Elenco: Michaela Watkins, Tommy Dewey, Tara Lynne Barr, Nyasha Hatendi, Julie Berman, Kyle Bornheimer, Judy Greer, Frances Conroy, Nadine Nicole, Katie Aselton, Zak Orth, Maya Erskine, Eliza Coupe, Austin Basis; Número de Episódios: 13 episódios; Data de Exibição: 23 de Maio a 01 de Agosto de 2017;

O texto contém spoilers.

A segunda temporada de Casual encerrou despejando um fardo enorme sobre personagens e espectador, completando o arco de Charles (Fred Melamed) e refletindo sua decisão nas escolhas feitas a seguir por Alex (Tommy Dewey) e Valerie (Michaela Watkins), tudo culminando numa catarse emocional que dita o ritmo dessa terceira temporada por conta de sua importância, inclusive após a revelação de Dawn (Frances Conroy) sobre Valerie na première. A dinâmica dos personagens esse ano sofre uma alteração que, como podemos descobrir no penúltimo episódio, se dá de tal maneira desde 1999, quando a própria Laura (Tara Lynne Barr) antes de seu nascimento fortaleceu o laço entre os dois irmãos, ou meio irmãos. A decisão dos dois em deixar de morar juntos dá a Casual três grandes arcos narrativos, onde os protagonistas são desenvolvidos em meio a suas características enquanto constantemente nos lembramos de como a dinâmica anterior parecia uma espécie de sustentação, o que tornava os problemas de cada um menos perceptíveis. Juntos talvez superassem as coisas mais rápidos, mas tanto Valerie, como Alex e até mesmo Laura, até então, realmente apenas escondiam esses problemas e continuavam como estavam. Nesta terceira temporada são confrontados fora de sua zona de conforto, em terreno hostil.

Em uma atuação outra vez acima da média de Michaela Watkins (Transparent), Valerie passa pelo que parece uma crise de meia idade, ou quase isso. O que faz parte também da vindoura independência à qual a personagem obrigatoriamente será submetida conforme Laura se distância ainda mais da família, num processo natural da vida. Ainda que toda a temporada reflita muito bem isso, existem dois momentos cruciais que servem para revelar essa situação de Valerie com sua própria vida, individualmente, e da relação com sua filha. A primeira delas é quando ela ressalta para Laura as complexas relações sexuais pelas quais a filha opta. A naturalidade da relação entre as duas torna essa postura próxima que possuem numa insensibilidade, que as abala de maneira diferente. Até porque Valerie tinha suas convicções sobre como criara sua filha. Aí vem o outro momento, em uma das grandes cenas em toda a existência de Casual e num momento de sensibilidade máxima de Michaela Watkins e Frances Conroy. Quando as duas se sentam -por sinal, confortavelmente- para conversar, o que vemos é uma síntese não só do momento pelo qual a personagem passa atualmente, mas de todas as coisas que levaram e influenciam naquele momento, naquela conversa, naquela reciprocidade e compreensão de ambas as partes.

Enquanto Valerie se desprende, flertando entre estar com alguém e levar a vida adiante só, Alex passa por um processo que é praticamente o inverso. Afinal, apesar de contar na maioria das vezes com a irmã, é a solidão quem mais o fez companhia, ainda assim, ao ver ela partir ele perdeu quem era sua estabilidade. Tommy Dewey esbanja carisma e é tão fácil ter empatia com seu personagem, o que parece servir inclusive aos outros atores em cena. É o arco narrativo de Alex que nos permite contemplar o sempre bem-vindo trabalho de Judy Greer, numa personagem que parece estar prestes a se tornar o porto seguro de Alex, até que, infelizmente, confrontamos a realidade. Aí a maior participação de Maya Erskine (como Rae) passa a fazer mais sentido e tanto atriz como personagem parecem se encaixar perfeitamente na série. Aliás, o final da temporada é uma ótima notícia, pois sabemos que a atriz estará assegurada por ao menos mais um ano. Entretanto, todo o processo pelo qual Alex passa coloca em equilíbrio seu narcisismo e sua tendência à depressão, um tornando o outro justificável e por sequência ambos tornando-se relacionáveis, num personagem que parece conversar diretamente com o espectador.

Mas quem se faz de mais fácil identificação em Casual é, sem dúvidas, a personagem de Tara Lynne Barr, até por viver uma fase da vida a qual grande maioria do público já passou. A retratação da vida adolescente através de Laura aqui é uma das mais gratificantes a serem transpostas para a tela. A forma como se quebra paradigmas e se cria uma figura tridimensional, que tem sua realidade e ainda assim não dispensa as outras, que foge dos estereótipos e humaniza a juventude não como se fosse uma figura estranha a ser estudada, mas na figura dessa mulher em desenvolvimento pessoal e que é sobrecarregada não só com o desenrolar de sua vida, mas de todos aqueles ao seu redor. É sutil, mas existem ainda mais paralelos quanto a isso quando vemos citadas escolhas presidenciais, não é sutil quando vemos o arco da personagem e seu envolvimento em voluntariado e energias renováveis, quando ela segue os dizeres de Joni Mitchell e luta. Um Universo de possibilidades se apresenta à personagem, e há uma sensibilidade tão grande para demonstrar isso, numa escolha de direção tão acertada ao contar com Gillian Robespierre. Laura parece o ponto alto dessa temporada e nos guia por caminhos que desconhecemos, mas tanto ansiamos, onde se encontram o que fomos e o que queremos ser.

Só é possível que Casual funcione em tais níveis, que gere um envolvimento emocional tão profundo, com um trabalho que é tão delicado como o que vem sendo realizado desde a primeira temporada. A escolha das direções dos episódios nesta temporada, nos quais dos sete nomes que assinam cinco são diretoras, são tão inspiradas e conversam tanto sobre o que a série tem a intenção de estabelecer. Um ano de tantos acertos e de mudanças que parecem ter vindo para ficar. Quando encaramos o panorama geral podemos perceber como algumas coisas dão tais indícios, até porque a ciência que se tem dos mínimos detalhes é incrível, numa série que tem o direito de brincar com seu próprio deslocamento de personagens, surpreendendo ao entregar a relação de Leia (Julie Berman) e Leon (Nyasha Hatendi) ao mesmo tempo em que tem capacidade para torna-la completamente crível. Mas é quando Jason Reitman (Homens, Mulheres e Filhos) retorna ao posto de direção -ao contrário dos anos anteriores aqui ele comanda o final da temporada- que se faz obrigatório admitir o quanto admiro seu trabalho e principalmente seu talento e a grandiosidade do que constrói em Casual. Um Alex desamparado encara na mesa em frente a si a máquina de Waffle quebrada e sem conserto, irremediável; Uma Valerie desamparada encara a mesa sendo arrumada distante de si, em segundo plano. Nenhuma palavra precisa ser dita, mas ainda assim Bob Dylan insiste em recitar: “Você deve partir agora… Está tudo acabado agora…

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Crítica | Casual | 3ª Temporada

Casual (3ª Temporada) (Hulu, 2015-); Criada por: Zander Lehmann; Direção: Lynn Shelton, Carrie Brownstein, Lake Bell, Amy York Rubin, Michael Weaver, Gillian Robespierre, Jason Reitman; Roteiro: Zander Lehmann, Liz Tigelaar,

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