Bloodline

(Netflix, 2015-)

Direção: Ed Bianchi, Michael Morris, Jean de Segonzac, Daniel Zelman, Dennie Gordon, Stephen Williams, Todd A. Kessler, Mikael Håfström

Roteiro: Glenn Kessler, Carter Harris, Lizzie Mickery, David Manson, Chris Mundy, Barry Pullman, Lucas Jansen, Amit Bhalla, Arthur Phillips

Elenco: Kyle Chandler, Ben Mendelsohn, Linda Cardellini, Norbert Leo Butz, Owen Teague, Sissy Spacek, Jacinda Barrett, Andrea Riseborough, Jamie McShane, John Leguizamo, Enrique Murciano, Frank Hoyt Taylor, Katie Finneran, Taylor Rouviere, Brandon Larracuente, Glenn Morshower, Beau Bridges, David Zayas

Número de Episódios: 10 episódios

Período de Lançamento: 27 de Maio de 2016

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O texto contém spoilers.

Bloodline manteve em sua temporada de estreia o nível de qualidade que, na época, geralmente se esperava de todas as produções da Netflix. O que surpreendia na série, no entanto, era sua estrutura narrativa, que no final nos revelava um segredo que esteve ali, a nossa frente todo o tempo. No entanto, ao final da primeira temporada uma escolha foi feita, abriu-se mão não somente de uma opção estética, mas de um dos principais personagens, senão o principal, visto que Ben Mendelsohn (O Lugar Onde Tudo Termina, Êxodo: Deuses e Reis) foi o grande destaque no primeiro ano de Bloodline. Na segunda temporada, a tentativa de subverter essas perdas foi o que acarretou na rápida decadência da série.

Após a morte de Danny (Ben Mendelsohn), a família Rayburn tenta se recompor como pode. Meg (Linda Cardellini) está em seu novo trabalho, em Nova York, porém, o segredo entre irmãos parece estar consumindo seu bem-estar. Kevin (Norbert Leo Butz) passa a enterrar essa mesma pressão nos vícios que já tinha, agora passando a crescerem ainda mais. Sally (Sissy Spacek), a matriarca da família, tenta seguir em frente se conformando em não saber toda a verdade. Por fim, John (Kyle Chandler) precisa mostrar toda uma falsa integridade, tanto frente a família como no seu trabalho, onde o departamento continua suas investigações e, diferente dos outros, este membro da família se depara constantemente com o nome do falecido irmão, ainda mais com Marco Diaz (Enrique Murciano) disposto a descobrir a verdade sobre o caso.

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Além de terem encoberto um assassinato, o que torna os três irmãos Rayburns restantes em cúmplices de um crime, eles ainda enfrentam, portanto, cada um os seus dilemas morais. Entretanto, se numa temporada com menos episódios imaginou-se que Bloodline iria, de alguma maneira, se conter, muito pelo contrário. Na ambição de deixar sua narrativa ainda mais complexa algumas adições são feitas, porém, elas apenas abarrotam e inflam a série com elementos que não eram, na realidade, necessários. Alguns podem até fazer sentido como consequências de uma atitude, mas outros são apenas incluídos numa tentativa de deixar a série mais atrativa, correndo riscos que ficam sob uma tênue linha.

O lado da linha para qual tais elementos pesam fica evidente por si só. O retorno de Wayne Lowry (Glenn Morshower), por exemplo, faz sentido. Não só ele tem John em suas mãos, baseado em credibilidade narrativa, como também oferecia uma oportunidade de evolução para tal personagem, podendo formar uma aliança, como fez inicialmente, com John. O problema é, no entanto, que Bloodline tenta, mesmo que sutilmente, pintar John Rayburn como um herói, fato que se dá simplesmente por ser ele o personagem principal da série. Porém, mesmo com a boa atuação de Kyle Chandler (Carol, O Lobo de Wall Street), ele não consegue credibilidade ou carisma para tal.

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Bloodline pesa para o lado errado da linha, trazendo de volta o melhor personagem de sua primeira temporada. A forma como o faz, entretanto, é se utilizando de uma espécie de “fantasma shakespeariano”. A função da aparição na vida de John, porém, não só é mal explorada e desenvolvida, mas não demonstra uma função de necessidade. A não ser que encaremos a coisa pelo lado lógico da produção da série, que também acaba revelando porque os riscos que a segunda temporada se propõe a correr são apenas superficiais. Danny Rayburn retornar como uma aparição é só uma parte de toda uma dificuldade que Bloodline tem em se desfazer de quem roubou a cena e conquistou o público.

O personagem de John Rayburn, com seu discurso de que fez tudo pela família, não foi capaz de convencer boa parte do público. Assim, no primeiro ano pairou sempre à sombra do anti-herói que era Danny, então coroado por uma atuação soberba de Ben Mendelsohn, que sequer tem oportunidade, com o que é lhe dado aqui, de desempenhar um trabalho coadjuvante a altura do que fez no primeiro ano da série. Mesmo que ele retorne em flashbacks, recontando trechos -desnecessários- apenas para adicionar e integrar mais personagens à trama de Bloodline.  Ao menos, nem todos os novos nomes são assim tão dispensáveis.

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Obviamente os roteiristas têm planos para o Ozzy Delvecchio de John Leguizamo (Irmãs, Kick-Ass 2) que, sinceramente, não consegue convencer no papel que precisa desempenhar. O que incomoda justamente pela sensação que se tem de que a Evangeline Radosevich de Andrea Riseborough (Birdman) poderia muito bem funcionar como uma personagem atuando de maneira singular. Não completamente, é verdade, afinal, ainda estaria acompanhada de Nolan Rayburn, filho da personagem e interpretado pelo versátil Owen Teague. Não só a trama dos dois, caso não tivesse o personagem de Leguizamo, sustentar-se-ia normalmente, como também daria aos dois a oportunidade de desenvolver melhor suas atuações, que ficaram entre as melhores desta temporada, mas podiam ter ido além.

O problema é que ao adicionar novos personagens para não deixar Danny Rayburn escapar, Bloodline acaba subutilizando personagens, como é o caso do Eric O’Bannon de Jamie McShane (Garota Exemplar, O Abutre), que só recebe mais atenção porque os roteiristas encontram uma conveniência minimamente crível para ali aproveitar mais de Ben Mendelsohn. No entanto, quem acaba ficando menos importante ainda é a personagem de Chloë Sevigny, cuja maior erro de Bloodline é não aproveitar toda a capacidade e talento que a atriz possuí, mesmo ela dando a possibilidade de flashbacks que inflariam muito menos a narrativa da série.

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Porém, Bloodline novamente resolve optar pela ambição, querendo se tornar o mais grandiloquente possível, surpreendendo o público com reviravoltas chocantes. Desperdiça aí, portanto, uma analogia ótima de personagens. Porque John cada vez mais é o reflexo de Danny, enquanto Meg deixa fluir seu lado mais sombrio, refletindo muito do que havia em seu pai. A redenção da família viria na ingenuidade de Kevin, mas essa também morreu afogada, e o personagem tomou uma atitude que, ainda que possa condizer com sua personalidade, não condiz com sua trama, não por ter oportunidades diferentes, mas por se encaminhar por outras linhas, no final convertidas em escolhas bobas e convenientes.

O problema de Bloodline foi, após correr riscos derradeiros, não saber abrir mão de certos elementos. Assim, a família Rayburn acaba, nesta segunda temporada da série original da Netflix, se prendendo a uma nostalgia desnecessária. Ao invés de fluir, a série faz o inverso, tentando voltar atrás, o que, convenhamos, é impossível de acontecer. Portanto, ao escolher expandir, ao invés de centralizar sua trama naquilo que já tinha mostrado sua qualidade, Bloodline risca uma série de possibilidades que lhe dariam estabilidade, almejando para si, mesmo que não intuitivamente, uma vida mais curta que o previsto. Só resta saber se, dessa vez, os roteiristas saberão devidamente abrir mão daquilo que for preciso, visando algo que não souberam como conquistar nesse segundo ano.

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