Crítica | Better Things | 1ª Temporada

- in Séries de TV
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Better Things (FX Networks, 2016-); Criação: Pamela Adlon & Louis C.K.; Direção: Louis C.K., Pamela Adlon, Nisha Ganatra, Lance Bangs; Roteiro: Pamela Adlon, Louis C.K., Cindy Chupack, Gina Fallore; Elenco: Pamela Adlon, Mikey Madison, Hannah Alligood, Olivia Edward, Celia Imrie, Lucy Davis, Milla Sofia Press, Rebecca Metz, Patricia Scanlon, Diedrich Bader, Alysia Reiner, Mather Zickel; Número de Episódios: 10 episódios; Data de Lançamento: 08 de Setembro a 10 de Novembro de 2016;

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O texto contém spoilers.

Better Things pode não ser a série mais feminista que você assistirá em 2016, mas parece fazer sua parte, ou até mais, em prol desse grito por igualdade. É semelhante ao que Atlanta faz pelos afro-americanos, que vale citar, com Better Things formou uma excelente nova dobradinha de comédias da FX Networks, emissora que está por tornar-se uma das melhores e mais conceituadas atualmente.

Criada por Pamela Adlon e Louis C.K., que aqui dividem também créditos de roteiros em alguns episódios bem como assinam, individualmente, a direção de alguns outros, os dois parecem emprestar da série Louie alguns elementos para subverter, de forma necessária e bem-vinda, um ponto de vista pré-estabelecido.

É mais que correto dizer, porém, que Better Things está longe de revolucionar, muito menos é inovadora em termos narrativos. O que a série faz, no entanto, é pegar o simples e torna-lo complexo, a um ponto onde seus personagens, e suas tramas, ecoem no público de maneira singular e sincera.

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Mesclando vida real e ficção, Better Things introduz Pamela Adlon como Sam, uma mãe solteira que cria sozinha suas três filhas, Max (Mikey Madson), Frankie (Hannah Alligood) e Duke (Olivia Edward), vivendo em Los Angeles, onde trabalha como atriz para sustentar a elas próprias e, pasmem, o próprio ex-marido. Este último lemento da narrativa que paira como uma possibilidade a ser aprofundada futuramente.

O que não se esconde em momento algum, ou não fica simplesmente em níveis superficiais da série, é a presença de personagens masculinos, ou a falta deles. O que não é um problema, mas é notável como homens se fazem ausentes na trama e, daqueles que são introduzidos, muitas vezes senão meros coadjuvantes, são meros paspalhões.

Algo que deixa claro não somente o processo pelo qual Sam é obrigada a se submeter, de criar as filhas sozinhas, com seu ex-marido apresentando cada vez menos interesse em passar tempo com as garotas, mas também como, apesar da série possuir um criador-roteirista-diretor, nenhum homem pode dizer a uma mulher o que deve, pode ou tem de fazer ou viver. Entretanto, Better Things faz tal declaração de forma bastante sutil.

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Tudo porque o foco da série se revela estar mesmo na relação de Sam com suas três filhas, bem como com sua mãe, e avó das garotas, a Phyllis de Celia Imrie (O Exótico Hotel Marigold 2). E com os nomes das personagens principais todos citados, percebam a sutileza: Sam, Max, Frankie, Duke e Phyl (como Sam a chama) são todos nomes neutros, que funcionam de maneira unissex.

Tal sutileza é possível porque Better Things desvia a atenção muitas vezes se utilizando de discursos recheados de clichês, mas em segundo plano colocando em pauta debates e questionando a opinião de seu público. Aqui não referente somente ao feminismo, mas ao racismo (em um episódio muito específico), xenofobia e, de maneira fundamental, identidade de gênero.

Better Things, porém, quer se fazer de descompromissada. Não só por querer fazer piadas a vontade com tais temáticas, e com as próprias individualidades cotidianas de suas personagens, mas por se distanciar de uma dramaticidade, estabelecendo-se quase que inteiramente como uma comédia, também fazendo comentários inteligentes, consequentemente cômicos, sem se comprometer em prol disso ou daquilo de maneira plena.

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Porque, uma vez mais, o importante são as relações, principalmente o crescimento das filhas de Sam. O que acontece com tal sensibilidade que, mesmo em meio a toda comicidade possível, Better Things acaba por se tornar uma jornada emocional gratificante e reconfortante, nos abraçando junto de suas personagens com uma mesma compaixão que utiliza para desenvolve-las.

É essencial para a compreensão disso o fato de que nada parece estar ali à toa. Assim, os elementos introduzidos na trama se apresentam por alguma razão, muitas vezes, com a devida atenção, se perceberá que a série tira o tempo necessário para debater alguns desses elementos, evidenciando suas próprias intenções.

O comportamento de Max, por exemplo, se justifica e se retifica a partir do quinto episódio. Se Frankie parece, ao público, um tanto à deriva de família, com sua própria mãe a chamando, carinhosamente, de estranha, posteriormente Better Things dedica atenção integral a isso, mostrando que sempre esteve ciente da posição de Frankie na narrativa. Tanto que chegamos ao ponto de um dos momentos finais da temporada ser dedicado inteiramente a ela e sua mãe.

E o mesmo acontece com Sam e sua própria mãe, numa relação um tanto conturbada, mas que tem nuances deliciosas embasadas na brilhante atuação de Celia Imrie, que demonstra exímia ambiguidade em um carrossel de emoções. É deveras interessante notar como as duas relações se refletem, mesmo que Sam e Max e Sam e Phyllis estejam em períodos diferentes de suas vidas, contudo, a percepção desse contraponto é algo que questiona nossa própria opinião sobre a forma desses relacionamentos.

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A grande e, provavelmente, a principal responsável por essas possibilidades se tornarem realidades é Pamela Adlon. Porque ela não é simplesmente a criadora, roteirista, diretora e produtora da série, mas também a grande estrela, fazendo jus a seu papel.

O último episódio da temporada parece tão aleatório dentro da história que é Pamela Adlon, a atriz, que nos traz de volta à realidade. Há determinado momento no episódio que a certeza sobre sua atuação parece mais voraz que nunca, num trabalho soberbo e, literalmente, de arrepiar.

O fluxo insano do episódio pode fazer passar despercebido o quanto Pamela Adlon se entrega, plenamente, à sua criação naquele episódio. A beleza do caos em Only Women Bleed é a maneira como esse décimo episódio, também sutilmente, sintetiza tudo aquilo que foi sendo explorado individualmente ao longo da temporada. O resultado é que em um vislumbre do cotidiano da família agora temos a noção do quão complexo é aquilo que parece simples.

Better Things, portanto, se encerra delicadamente nos mostrando que, agora, não só fazemos parte daquela família, mas também a compreendemos, o tanto quanto suas próprias integrantes. Inteligente em todos os sentidos, especialmente na forma como utiliza seu repertório afiado de humor, a série é uma declaração que esclarece através de suas personagens uma realidade universal, ainda que singular. Afinal, assim como elas, ainda não compreendemos tudo na vida.

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