Crítica | Better Call Saul | 3ª Temporada

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Better Call Saul (3ª Temporada) (AMC, 2015-); Criada por: Vince Gilligan, Peter Gould; Direção: Vince Gilligan, John Shiban, Thomas Schnauz, Daniel Sackheim, Keith Gordon, Adam Bernstein, Minkie Spiro, Peter Gould; Roteiro: Vince Gilligan, Peter Gould, Thomas Schnauz, Gennifer Hutchison, Jonathan Glatzer, Gordon Smith, Ann Cherkis, Heather Marion; Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Michael McKean, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Giancarlo Esposito, Mark Margolis, Ann Cusack; Número de Episódios: 10 episódios; Data de Exibição: 10 de Abril a 29 de Junho de 2017;

(Divulgação: Michele K.Short/Netflix)

Better Call Saul viverá à sombra de Breaking Bad e ter que reafirmar isso chega a ser redundante, além de completamente injusto e entristecedor. A grandeza de uma ofusca a aspiração que outra série tem de tomar seu lugar, mas nunca vemos aqui uma repetição da fórmula que deu certo. Desde sua primeira temporada o spin-off deixou claro que tem sua própria identidade, e isso só fica ainda mais evidente a cada ano. Com a introdução de personagens já conhecidos, e o fato de que não funcionam como uma muleta no sucesso estabelecido previamente, só vemos isso tudo sendo reforçado, essa força que a série tem por si é, na realidade, apenas implementada pelo sucesso da primeira. Tudo porque, como já sabemos muito do destino de boa parte dos personagens, o amargor de vê-los sendo desenvolvidos aqui, por vezes, se torna uma experiência deveras dolorosa. Mas não é o destino que importa, e sim a jornada até ele. Deixar de lado o preconceito, e receio, quanto a derivados -prática ordinária na indústria audiovisual atualmente- é essencial para poder se apreciar como deve toda a obra brilhante que Better Call Saul prova ser ano após ano, já se tornando uma das grandes produções desta década.

(Divulgação: Michele K.Short/Netflix)

Boa parcela da temporada é dedicada ao imbróglio da fita, em que Chuck (Michael McKean) gravou a confissão de Jimmy (Bob Odenkirk). Enquanto é o que dá continuidade aos episódios, numa manobra digna do talento dos roteiristas que criam personagens tão bem elaborados a ponto de suas atitudes serem completamente plausíveis, inclusive a previsibilidade surpreendente de alguns, é o desenvolvimento, quase em uma espécie de subtexto, que realmente se faz o interesse, culminando na chocante cena final da temporada. De certa forma ela sintetiza, numa mescla de literal e figurativo, o estado mental de Chuck e aquilo que o personagem enfrentou ao longo da história. Se torna óbvio afirmar que Michael McKean é o grande nome da temporada em Better Call Saul, sua relação com o irmão e o definhamento dela, dos altos e baixos do personagem, em muito são sustentados pela entrega do ator, que parece se perder em meio ao personagem. No final, todas aquelas cicatrizes expostas ajudam a alimentar uma chama que nunca se apaga, e consome sem medo o que encontra pela frente. Quando o personagem sucumbe, é uma entrega a um estado que parece interminável, incompreensível. Os rumos que trará a próxima temporada são dolorosos, mas necessários.

(Divulgação: Michele K.Short/Netflix)

Better Call Saul não reserva seus talentos, e outra trama que se sobressaí é a da personagem de Rhea Seehorn. Sua Kim Wexler, ainda que como uma coadjuvante mais a parte dos motes principais, encontra um desenvolvimento impressionante, que também culmina em algo de certa gravidade, dada as circunstâncias que, como a própria personagem afirma, podia ter ocorrido algo muito pior. Todo o desenvolvimento da personagem, porém, é tão bem trabalhado que é impossível não se importar com seu estado, com seu bem-estar. Sua intérprete é outra que merece destaque, numa atuação que retrata a personagem com todas as nuances necessárias. Falta a Rhea Seehorn somente o reconhecimento, pois seu trabalho tem mantido o mesmo nível em todas as temporadas e está à altura de todo o restante do elenco, inclusive os nomes já consagrados e os personagens mais queridos aos fãs. No entanto, as mentes por trás da série têm plena consciência disso, assim, não temem em arriscar em sequências que exigem da atriz tudo do que ela é capaz. Portanto, ao lado dela acompanhamos uma jornada de extremos, onde somos jogados e triturados pela rotina da personagem, resultando em momentos como o acidente. Contudo, vamos de explosões a momentos de extrema delicadeza sempre transitando com muita competência.

(Divulgação: Michele K.Short/Netflix)

Porém, é Bob Odenkirk o dono do show. A transição gradual de Jimmy em Saul Goodman rende não só o grande contexto da série, mas um subtexto cômico que é certeiro. Só que há mais ali do que apenas o superficial. O protagonista em si dispensa mais comentários sobre tal, mas vale ressaltar a forma como parece sintetizar aquilo que os personagens ao seu redor dizem sobre o estado ocioso de Albuquerque, ao qual são relegados por uma condição marginal em que se encara a cidade situada no Novo México, nos Estados Unidos. Better Call Saul, assim como Breaking Bad, assimila o lugar e sua peculiaridade como uma parte da narrativa, sem medo de assumir isso. É um contexto no qual se compreende a razão do funcionamento da malandragem de Jimmy McGill. Entretanto, o segredo do equilíbrio da fluidez do personagem é Bob Odenkirk. O maior exemplo da qualidade do que vemos está ao final do sétimo episódio, quando a personalidade do personagem e o desenvolvimento narrativo, propositadamente, entram em conflito. Acontece o óbvio, mas estamos nos segundos finais até surgir a certeza sobre o que presenciamos, quando as feições de Odenkirk revelam, em um sorriso maroto, as lágrimas de crocodilo que havia acabado de derramar. Ato que indiretamente culmina na grande tragédia que enfrentará na próxima temporada.

(Divulgação: Michele K.Short/Netflix)

O sofrimento em antecipação, no entanto, é maior do que parece. Justamente por causa de Breaking Bad. As tramas de Mike e Gus – respectivamente, Jonathan Banks, em outro ano espetacular e Giancarlo Esposito (The Get Down) em um aguardado retorno- já se cruzaram, trazendo surpresas, e falam diretamente de consequências que vemos na série da qual derivam. Não há dúvidas que o caminho de ambos logo cruzará o de Jimmy, e o final dessa história já conhecemos. O fato da individualidade das tramas, com encontros casuais, conseguirem coexistir organicamente fala muito sobre o retrato geral de Better Call Saul. As técnicas utilizadas para contar as histórias replicam as experiências anteriores em Breaking Bad, a certeza do que funciona, aqui, é plena. Além de uma narrativa delineada pelo roteiro, há uma outra à parte, visual. Os tons, da fotografia bem como do design de produção e figurino, são sempre condizentes com o que vemos, ditando a seriedade, a leviandade, o clima e o âmago dos personagens. Mas há uma incerteza sobre a tonalidade que reina sobre a série. Seria ela um drama com requintes cômicos luxuosos ou exatamente o inverso? As vertentes se fazem todas presentes ali, e conversam com os personagens que as ditam. Mas há uma certa decadência que ecoa um pastelão protagonizado pelo Jimmy McGill de Bob Odenkrik. No fim das contas, Better Call Saul entende o que é e se revela, mesmo, a maior obra tragicômica da atualidade.

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