Crítica | Em Ritmo de Fuga

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Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, 2017); Direção: Edgar Wright; Roteiro: Edgar Wright; Elenco: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Eiza González, Jon Hamm, Jamie Foxx, Jon Bernthal; Duração: 113 minutos; Gênero: Ação, Aventura, Policial, Thriller; Produção: Nira Park, Tim Bevan, Eric Fellner; Distribuição: Sony Pictures; País de Origem: Estados Unidos, Reino Unido; Estreia no Brasil: 27 de Julho de 2017.

Falta a Edgar Wright o reconhecimento público que o cineasta tem entre aqueles que cultuam suas obras. Longe de marcos, os trabalhos do britânico são, de certa forma, experimentos de gênero, sempre embebidos de muito bom-humor, normalmente utilizado como uma ferramenta para subverter os clichês aos quais muitas obras se submetem. Um trabalho que, talvez, tenha encontrado seu ápice em 2007, em Chumbo Grosso (Hot Fuzz). Para os que já são familiares ao cineasta e seu trabalho, a falta que fazia seu cinema é, aqui, uma recompensa que serve em dobro, remediando a perdida possibilidade de uma bem-vinda virada em filmes de super-heróis, no qual uma vez se arriscava na direção de Homem-Formiga; até surgirem as infames diferenças de criatividade entre realizador e estúdio. Passou o tempo de amargar o que nunca foi, e contemplar um projeto que parece aspirar às grandes ambições de Edgar Wright como tal realizador. Em Ritmo de Fuga (Baby Driver) reúne quase que completamente todas as qualidades e talentos do diretor, emprestando de uma série de influências e encontrando uma maneira de homenagear o cinema daqueles que admira. Um filme que conversa com o que lhe ensinou, mas que não teme em revelar sua faceta que vive independentemente dos mesmos.

Em Ritmo de Fuga tem uma premissa básica e, ao contrário do título nacional, não foge dos elementos que delineiam muitas das referências que tocam o diretor. A narrativa é simples, partindo de um roteiro que tem noção de como não se complicar. É normal, portanto, esbarrar em elementos corriqueiros, alguns que, inclusive, se fazem assim dentro do próprio filme. Plano, execução e recompensa, três diretrizes que se repetem sem muitas alterações. A irreverência de Edgar Wright se faz então fundamental. Ironia e sarcasmo surgem para salvar o dia, especialmente na reviravolta que envolve aquele que é, provavelmente, o momento mais hilário do filme -quando “descobre-se” o talento musical (obviamente!) do protagonista vivido por Ansel Elgort (A Culpa é das Estrelas, Homens, Mulheres e Filhos). Essa veia humorística se torna essencial durante o filme, contudo, não é possível negar que há um perfeito equilíbrio entre as tonalidades. Humor, suspense, drama e assim por diante, são outras diretrizes pelas quais navegamos, mas com tremenda graciosidade, ainda que por vezes se dê abruptamente. O motivo é semelhante ao timing na comédia, que aqui também se faz presente, mas de maneira muito mais expansiva. Em Ritmo de Fuga faz as coisas em seu tempo, a narrativa acompanha e os elementos se encaixam como tem de ser. A baliza é, afinal, excepcional.

De forma tanto metafórica como literalmente. Pois a exuberância de Em Ritmo de Fuga reside, felizmente, na conjunção dos dois termos do título nacional. Se a sequência de abertura não for o suficiente para convencer, o que se segue exala plenamente a assinatura de estilo de seu diretor. E é incrível. Uma cena que surge sem as perseguições automobilísticas é o que dita o que veremos. A sincronia, a atenção aos detalhes, a dedicação a tornar prática a ação que acompanhamos. Visualmente é, portanto, puro deleite, ainda que Edgar Wright tenha maior preocupação com a assimilação do que acontece em cena, ao invés de buscar uma apuração estética que seja puramente ornamental. Se a simplicidade da narrativa se faz valer, é verdade também que o inverso acontece com as cenas de perseguições. A cada nova fuga de um assalto as manobras se tornam mais arriscadas, crescente com o andamento do filme quando se encaminha para o clímax. Quando dentro dos carros é que a ação aspira a mais, porém, não se limita a isso. A construção de antagonistas tem uma consistência invejável a Hollywood atualmente, os embates que consequentemente são promovidos por conta disso rendem algumas das cenas mais intensas.

Funciona porque Edgar Wright sabe das virtudes de seu elenco e usa do talento dos mesmos para fortalecer seus personagens, resultando numa exibição carismática e envolvente. Além disso, demonstra-se facilidade para subverter as expectativas em torno dessas figuras, evitando usuais clichês e levando seu protagonista a caminhos que denotam uma escolha consciente no encerramento de Em Ritmo de Fuga. Tudo, óbvio, em um gracioso acordo com a impressionante musicalidade, que se apresenta como essencial e, por que não, descolada, imprimindo justamente o que parece ser o espírito de seu realizador. Elementos que tornam absoluta a certeza de que divertirá o público da maneira mais honesta possível, entretanto, não é o filme que salvará Hollywood de seu marasmo. A legitimidade do que é feito aqui é inegável, ainda mais pela busca constante de uma sensação de realismo, fazendo com que, de sua forma, o cineasta possa ter seu trabalhado elevado a altura de alguns dos nomes nos quais se inspira. Para o público em geral uma obra segura como é se faz garantia de entretenimento da melhor qualidade, assim como uma porta de entrada a um cinema que merece reconhecimento. Aos fãs do cineasta resta apenas comemorar o reencontro.

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Crítica | Em Ritmo de Fuga

Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, 2017); Direção: Edgar Wright; Roteiro: Edgar Wright; Elenco: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Eiza González, Jon Hamm, Jamie Foxx,

Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Edição
Summary
80 %
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