A Noite do Jogo (Game Night, 2018); Direção: John Francis Daley, Jonathan Goldstein; Roteiro: Mark Perez; Elenco: Jason Bateman, Rachel McAdams, Billy Magnussen, Sharon Horgan, Lamorne Morris, Kylie Bunbury, Jesse Plemons, Kyle Chandler; Duração: 100 minutos; Gênero: Comédia; Produção: John Davis, Jason Bateman, John Fox, James Garavente; País: Estados Unidos; Distribuição: Warner Bros. Pictures; Estreia no Brasil: 10 de Maio de 2018;

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(Divulgação: Hopper Stone/Warner Bros. Pictures)

Há uma especificidade do norte-americano que diz respeito a sua extrema competitividade. É quase como se estivesse embebido na cultura natural ter como objetivo vencer, ter alguma finalidade que não um simples passatempo.

Me lembro de uma entrevista da britânica Tilda Swinton em uma rede de televisão norte-americana. Contestada quanto ao objetivo de um jogo que praticava, ela dizia que não havia qualquer outro além de simplesmente jogar. Ainda terminava por afirmar que havia esquecido como eram os “americanos”.

Digo isso porque é assim que percebemos como há certa obsessão cultural, capaz de exaltar ânimos para além do que estamos acostumados quando praticamos alguma jogatina de tabuleiro com amigos.

A Noite do Jogo (Game Night) tem justamente essa função de elevar a potencia do jogo a níveis incomuns, injetando adrenalina não só em seus personagens, mas também em seu público.

De forma alguma deixa de lado, também, as piadas. Na realidade, é muito mais uma comédia que qualquer outra coisa.

Uma comédia de erros seria um ótimo termo para definir o filme, mas não é nenhum Fargo, visto que está também bastante distante da qualidade do filme dos irmãos Coen.

Entretanto, nem por isso quer dizer que não divirta. Pelo contrário, ainda que em meio a deslizes banais e alguns excessos -de personagens, por exemplo- há plena garantia de que se cumpre o que é prometido a princípio.

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(Divulgação: Hopper Stone/Warner Bros. Pictures)

Os diretores John Francis Daley e Jonathan Goldstein -dois dos muitos roteiristas de Homem-Aranha: De Volta ao Lar– tiram proveito dos próprios elementos da narrativa, que faz com não se peça muita inventividade nas sequências mais intensas do filme.

A Noite de Jogo se assume como comédia e, dentre sua cinematografia, vai chamar mais atenção obviamente um plano sequência mais próximo ao clímax do filme.

É compreensível porque os personagens em momento algum são tidos como heróis de ação. Constantemente somos lembrados de como são pessoas comuns e que apenas gostam de confraternizar com amigos nessas noites de jogos.

Serve praticamente como uma desculpa para sequências que não conseguem empolgar serem retratadas como hilárias trapalhadas.

Mascaram, por exemplo, a quase completa inércia com a qual Daley e Goldstein comandam uma cena de perseguição. Condiz com seus personagens, mas não condiz tecnicamente com o que pode ser desenvolvido.

Justamente aí reside uma tênue linha que devia ter sido cruzada. Porque o conformismo em fazer rir se vê tomado por uma ingenuidade que banaliza certos acontecimentos que contradizem o que o restante do filme prega.

Afinal, quando alguém é sugado pela turbina de um avião bem à sua frente, com você sendo uma pessoa ordinária qualquer, é de se espantar que não haja uma reação no mínimo de choque. Ao contrário disso, o filme tenta aliviar completamente qualquer peso.

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Imagem cortesia da Warner Bros. Pictures

Veja bem, minha crítica não se direciona ao intento de fazer rir com a trapalhada que causa a situação, mas em como o próprio filme mina seu efeito ao banalizar exatamente o que devia ser chocante aos personagens.

É um filme que pretere a leviandade e, com isso, vai se esvaindo aos poucos. A tentativa também de gerar um arco emocional cai nessa mesma armadilha, ainda mais quando os personagens com os quais nos deparamos são bastante simplórios e bidimensionais.

O que não funciona é que ambos os casais amigos dos protagonistas acabam por ser elementos basicamente avulsos de todo o restante no filme.

Os personagens de Lamorne Morris (New Girl) e Kylie Bunbury, por exemplo, são uma parte tão distante da narrativa que é possível lhes arranjar uma trama completamente à parte que não faz diferença alguma existir ou não dentro do filme.

Não é nenhum problema se não levarmos a sério, e na verdade nem deve ser feito, porém isso inevitavelmente reflete num melodrama exagerado que tem a intenção de gerar uma catarse.

Toda essa trama, desde o início, traz a memória o filme Vidas em Jogo (The Game), uma das produções mais subestimadas na carreira de David Fincher e que, dada algumas diferenças -o humor principalmente-, tem proposta extremamente similar. Entretanto, lembrar do filme de 1997 durante A Noite do Jogo só ressalta a inferioridade deste último, em todos os sentidos.

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(Divulgação: Hopper Stone/Warner Bros. Pictures)

O grande trunfo em A Noite do Jogo reside justamente em ser mais sagaz do que parece, ainda que não o seja tanto assim. Algumas gags visuais e pontuais, que inclusive se veem repetidas a exaustão quando há a certeza de que funcionam.

Quanto aos protagonistas, não há nada digno de nota. Jason Bateman (A Última Ressaca do Ano, Um Espião e Meio, O Presente) está como em quaisquer outras comédias que estrelou nos últimos anos, enquanto Rachel McAdams (Spotlight – Segredos Revelados, Nocaute) diverte com suas caras e bocas e por realmente comprar a ideia de sua personagem.

O que resta não é tanto, ainda mais porque a urgência é substituída pelo alívio cômico; quanto mais objetivos precisam ser os americanos, menos o são.

Contudo, é suficiente, afinal, apesar de toda minha “rabungentice”, é inegável que A Noite do Jogo é uma corriqueira comédia que funciona sem apelar ao pastelão.

Diverte com sinceridade e consegue ser uma experiência que evoca a algo mais bem realizado entendendo suas limitações e as mesclando organicamente com elementos de sua narrativa.

A Noite do Jogo – Trailer Legendado:

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