Crítica | Relatos Selvagens

Crítica | Relatos Selvagens

- in Crítica Cinematográfica, Críticas
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Título Original: Relatos Salvajes

Direção: Damián Szifrón

Elenco: Ricardo Darín, Leonardo Sbaraglia, Darío Grandinetti, Erica Rivas, Nancy Dupláa, Julieta Zylberberg, Oscar Martínez e Rita Cortese

Roteiro: Damián Szifrón

Gênero: Comédia/Drama/Suspense

País de Origem: Argentina/Espanha

Duração: 122 minutos

Ano: 2014

 

Esse filme é o grande fenômeno de bilheterias do ano na Argentina. No país, já alcançou mais de 3 milhões de espectadores desde sua estreia, permanecendo diversas semanas em primeiro lugar no ranking de mais vistos. Quando a sessão chega ao fim, não é difícil identificar os fatores que levaram ele ao enorme sucesso. Primeiro, suas qualidades são inquestionáveis, conquistando não só a crítica local como a internacional, recebendo muitos elogios no Festival de Cinema de Cannes desse ano. O segundo e talvez mais importante, seria a grande identificação que o público exerce com as situações apresentadas, que por mais selvagens que sejam, nos remetem aquelas reações momentâneas de raiva ou talvez aqueles desejos de vingança que ficam ocultos na nossa mente.

O diretor Damián Szifrón é mais conhecido por lá pelos seus trabalhos na televisão e afirmou em entrevistas que apesar de amar cinema, encontrava certas dificuldade de se inserir no formato. Decidiu então escrever doze histórias individuais, que foram reduzidas para as seis que assistimos na película, em um projeto calculado durante anos. Como ponto em comum, temos o fato de serem retratos da linha tênue que separa a civilidade da barbárie, ou seja, personagens do cotidiano que explodem devido as circunstâncias de alguma situação , resultando em violência, momentos sádicos e muito sangue. São os relatos do título, nada ficcionais do que se pode acontecer em um momento de perda de controle.

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Temos um avião que “coincidentemente” reúne pessoas que têm ligação com um rapaz problemático. A garçonete que finalmente tem a chance de enfrentar cara a cara o homem que arruinou sua família. A discussão de dois homens em uma rodovia, um dono de um carro novo e o outro dirigindo uma lata velha. Um engenheiro que vira vítima frequente de multas de trânsito injustas, que acabam por afetar também sua vida pessoal. Um milionário que tenta subornar o número de pessoas necessárias para colocar um de seus empregados como o culpado do trágico atropelamento provocado pelo seu filho e por último, temos uma noiva que descobre na festa de casamento que está sendo traída.

O ponto mais louvável da produção é ter uma regularidade rara nesse formato. Filmes que também apresentam várias tramas individuais tendem a alternar bons e fracos momentos. Ainda que seja possível o espectador vir a se familiarizar ou simpatizar mais com uma e menos com outra, todas se mostram de excelente qualidade. A sequência do avião é o aperitivo antes dos créditos iniciais, enquanto na do restaurante temos um clima mais soturno e que beira ao suspense. A terceira e que se passa na rodovia, talvez seja a que melhor defina a tal selvageria – situações grotescas, que nos fazem dar risadas, mas também causa um certo desconforto. No quarto episódio, sobre o engenheiro, temos abordado um problema mundial – os abusos do sistema e suas burocracias, que o coloca diretamente como a de mais fácil identificação. Apesar de ser menos dinâmica e movimentada, a quinta história consegue segurar a ansiedade do espectador para o final, que é o mais chocante dos seis. Sem trocadilhos, a última com o casamento parece ter sido escolhida para ser a cereja do bolo – divertida, cômica e que guarda as melhores cenas. Resumindo, cada uma delas parecem deixar o longa-metragem mais completo, com seus diferenciais que fazem valer a sua presença ali.

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Para dar a vida a esses personagens em meio ao caos, Szifrón reuniu um bom time de atores argentinos, entre eles o ícone local Ricardo DarínDario Grandinetti ( de “Fale com Ela” ) e Erica Rivas, no papel da noiva e que é o verdadeiro destaque em termos de atuação. Outro nome bastante popular e que aparece como produtor é Pedro Almodóvar, que me pegou de surpresa nos créditos iniciais, ainda mais sendo eu um de seus admiradores. É justificável seu interesse, visto que o diretor reúne aqui aquele humor ácido e a imprevisibilidade típica do cineasta espanhol, afinal, assim como o que acontece nos nossos momentos selvagens, o resultado do que vem pela frente é quase impossível de se prever.

Relatos Salvajes termina por ser uma rara junção de humor muito bem feito e reflexão, capaz de atingir todos os tipos de expectadores, sejam eles os mais exigentes ou aqueles que vão em busca apenas de uma diversão momentânea. É exatamente o que falta no Brasil, onde nosso melhor filme do ano “O Lobo Atrás da Porta“, foi sufocado por um público que tem uma ansiedade em ver no cinema praticamente os mesmos roteiros e artistas que assistem na televisão diariamente. Representante da Argentina no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2015, parece que nossos vizinhos chegam mais uma vez fortes para a premiação e com louvores!

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21 anos. Apaixonado pelas múltiplas histórias de Robert Altman, as cores de Almodóvar, a melancolia de Bergman e todo o perfeccionismo de Kubrick.

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1 Comment

  1. Se você viu o filme, foi o grande ator Leonardo Sbaraglia, que agora podem ver em O hipnotizador (http://www.embreve.tv) série muito bem sucedida na América Latina.

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