Crítica | Human Flow

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Human Flow – Não Existe Lar se Não há Para Onde Ir (Human Flow, 2017); Direção: Ai Weiwei; Roteiro: Chin-Chin Yap, Tim Finch, Boris Cheshirkov; Elenco: Israa Abboud, Hiba Abed, Rami Abu Sondos, Asmaa Al-Bahiyya, Eman Al-Masina, Maya Ameratunga; Duração: 140 minutos; Gênero: Documentário; Produção: Ai Weiwei, Chin-Chin Yap, Heino Deckert; País: Alemanha; Distribuição: Paris Filmes; Estreia no Brasil: 16 de Novembro de 2017;

Ai Weiwei é um renomado poeta e artista plástico chinês que seguido está na mídia devido às suas polêmicas e embates contra a censura e abusos do governo da China, inclusive já foi preso pela polícia de Xangai. Em suas obras e nos seus atos há uma incessante busca pela proteção aos direitos humanos e não é surpresa que sua primeira tentativa no mundo da sétima arte seja sobre o tema. Human Flow, nesse sentido, é um documentário que horas parece um projeto muito pessoal e intimista de Weiwei, horas beira um desabafo e denúncia do diretor, ambas visões, ainda que possam ter efeito negativo no filme, exaltam a relevância e extrema importância de aproximar as pessoas sobre a crise dos refugiados. Quando se lê nas noticias o que aconteceu na Europa nos últimos dois anos, tudo parece apenas números, contudo, ver, na tela grande, aquela quantidade de gente, sem o mínimo existencial para viver, migrando sem rumo, sem comida e sem qualquer garantia de assistência, a realidade se mostra ainda mais pesada, frente à impessoalidade da imprensa.

Já no inicio da projeção, o diretor decide estabilizar sua câmera e mostrar o rosto de várias pessoas: de um simples trabalhador, a uma mãe que tenta de todas as formas dar um sorriso para câmera (a despeito de ser evidente que não há como demostrar algum tipo de felicidade com a situação). Ali, a tentativa de trazer todas esses humanos para mais perto de quem assiste é evidente, porém, Weiwei, de forma muito inteligente, se recusa a pessoalizar ou focar em apenas poucas pessoas. Aliás, ele passa por 23 países e faz questão de mostrar praticamente todos, então ele precisava de uma visão mais macro, a qual se reflete na insistência do uso de planos aéreos sobre os acampamentos de refugiados. Essa técnica acaba por ter uma dupla função na narrativa: revelar o rigor estético do diretor e metaforizar como aquelas pessoas são tão inferiorizadas.

Human Flow é um documentário essencial sobre a crise de refugiados que assola a Europa (e o mundo, afinal isso é uma questão global). Em seus 140 minutos de projeção é impossível ficar indiferente e, no mínimo, não se questionar dos porquês de toda essa barbárie estar acontecendo. Aliás, os dados que o Ai Weiwei nos apresenta são, no mínimo, assustadores: o mundo nunca esteve tão dividido (pasmem, nem durante a Segunda Guerra Mundial existiam tantos muros e cercas entre os países); as condições dadas aos refugiados são inumanas, não há higiene, tratamento de esgoto, comida, então, é quase um luxo. Entretanto, o fato que mais assusta é a indiferença da maioria das personagens envolvidas, desde países que preferem fingir que nada está acontecendo, até nações que, “por motivos de segurança”, inserem grades nas suas fronteiras e impedem refugiados de passar por seu território.

No fim, Ai Weiwei cria o retrato definitivo da crise dos refugiados em um filme que, desde já, se mostra como um dos melhores do ano, não só pela forma sensível e não comercial que lida com um assunto que já beira o esquecimento, como também denuncia o descaso com os refugiados que, antes de mais nada, são seres humanos que perderam suas casas e fogem de seu país de origem com medo de morrer, na esperança de encontrar um futuro em outro local. O mais triste é constatar que esse futuro talvez não exista e a culpa está no egoísmo e na indiferença do ser humano.

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