Crítica | Animais Noturnos

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Animais Noturnos (Nocturnal Animals, 2016); Direção e Roteiro: Tom Ford; Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Armie Hammer, Ellie Bamber, Laura Linney; Duração: 116 minutos; Gênero: Drama, Thriller; Produção: Tom Ford, Robert Salerno; Distribuição: Universal Pictures; País de Origem: EUA; Estreia no Brasil: 29 de Dezembro de 2016;

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Só descobri que Animais Noturnos era adaptação de um livro quando o vi aparecendo como indicado na respectiva categoria em algumas premiações. É estranho porque, pelo pouco que conhecia da história do filme, tudo se assemelhava, no meu pré-julgamento, ao mundo de Tom Ford, a sua realidade parecia ser aquilo que ele retratava nessa ficção.

Não é tão estranho, porém, ver que o filme toma para si o título do livro que conhecemos dentro da história, título tal que até o próprio livro, Tony and Susan, tomou para si em inteiro numa recente reedição nos Estados Unidos. Faz sentido pelo filme, mas é no filme que faz ainda mais sentido a razão da mudança como escolha de Tom Ford.

Afinal, Animais Noturnos se desenvolve em três tramas paralelas, sendo elas: o contemporâneo, que é onde nos encontramos e nos encaixamos na narrativa; uma série de flashbacks, que vão moldando boa parte do que o discurso do filme concretiza; e, por fim, o de fato ficcional, quando o livro presente no filme ganha vida.

Parece até óbvio que a trama favorita de Tom Ford, diretor e roteirista do filme, seja aquela do livro dentro do livro, no caso aqui do livro dentro do filme. As três chegam a parecer filmes diferentes, algo que acontece intencionalmente, mas é esta que se sobressaí as outras, ou mais ainda, que valida as outras duas.

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Animais Noturnos é feito inteiramente de tensão, sendo que é difícil pensar num momento de calmaria dentro de todo o filme. Mas seu ápice, sem dúvida alguma, vem justamente dentro da história que é protagonizada por Jake Gyllenhaal. Nela, aliás, é onde até atores em que desacredito brilham como nunca antes.

A densidade da trama que envolve os personagens de Gyllenhaal, Aaron Taylor-Johnson -em sua melhor atuação na carreira, o que não quer dizer muito- e Michael Shannon se revela incrivelmente perturbadora. Sendo o ponto alto de Animais Noturnos, pois é no desenrolar desta faceta da narrativa que o filme demonstra a plenitude do talento de Tom Ford como diretor, além de destacar o trabalho dos três atores.

Ainda temos como realce a estupenda direção de fotografia de Seamus McGarvey, que fornece não só ao diretor, mas ao público também, um misto de sensações através de imagens. A especificidade é tanta, e o trabalho tão digno, que Tom Ford consegue criar, em tais sequências, um Western moderno de respeito, ainda que efêmero.

A maneira como tais sequências são fortes, não só em violência verbal, gráfica e psicológica, mas visualmente, na construção de imagens, por assim dizer, diz muito mais sobre Animais Noturnos que todo o restante. Funcionando não só como uma muleta, mas reforçando ideias do discurso presente nas tramas protagonizadas por Amy Adams (A Chegada).

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A atriz, entretanto, praticamente torna-se uma coadjuvante no próprio filme que protagoniza e, por mais que sua atuação sustente-se na leitura do manuscrito do livro escrito por seu ex-marido, falta a personagem aquilo que torne o filme em algo além do monótono, quando necessário.

Porque por mais que parte da história da personagem seja disposta a nossa frente, não quer dizer que há qualquer sinal de desenvolvimento. Muito pelo contrário, chega a ser constrangedor em alguns momentos como Animais Noturnos apresenta certa presunção quanto a isso.

Parecendo estar tão certo de que tudo funciona perfeitamente, algumas cenas destoam por completo. A exemplo da participação mínima de Jena Malone, que rende de artifícios expositivos a atos extremamente equivocados dentro do filme, isso num período de no máximo dois minutos.

Essas oscilações pelas quais Animais Noturnos passa tornam o filme num desperdício de boas ideias, até porque o tanto que é dito nas entrelinhas acaba perdendo-se em meio aos devaneios estéticos em excesso. Assim, tudo fica mais na forma do que na prática, porque se falha em concretizar o potencial ao qual tanto aspira. A complexidade da narrativa multifacetada não só apresenta intencionalmente filmes diferentes, mas deixa-se enganar por eles também, imaginando que é aquilo que quer ser, sem perceber o que de fato é.

Trailer Legendado:

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