O Poço, El Hoyo (2020),

Direção: Galder Caztelu-Urrutia

Roteiro: Pedro Rivero e David Desola

Distribuição: Netflix

Desde sua publicação, em 1605, Dom Quixote, obra de Miguel de Cervantes, faz uma crítica alegórica à burguesia. Com seus personagens e seus exageros, o livro fala sobre a realidade da nobreza da época e da burguesia em si. Aqui em O Poço, novo sucesso da Netflix, essa é só uma das muitas referências muito bem colocadas. Não jogadas, mas somando à história que o filme quer contar.

Há muitos que virem o nariz para filmes que tentam falar algo além da história propriamente dita. É compreensível, visto quantos filmes ultimamente vivem de metáforas, sem agradar o público geral com algo em primeiro plano que chame atenção. No filme da Netflix, o erro não acontece. Talvez por ser de produção do serviço de streaming, é importante que haja acontecimentos, movimentos. O filme – que se passa em basicamente um cenário – não perde o movimento.

Trabalhando um conceito simples, o filme é quase didático. Em certo momento, os personagens se prendem a repetir que um elemento da cena seria “a mensagem” que eles queriam passar. Nada resume mulher o filme do que essa cena. Por mais de 90 minutos, muita coisa acontece, mas parece que roteiro e direção focaram em algo que é a mensagem e a repetem na duração da obra, que passa sem perceber.

Mas qual é a mensagem? Ela, talvez, seja um dos elementos para o burburinho que o filme gerou. Na trama, os prisioneiros em níveis inferiores vivem de restos dos prisioneiros superiores. Não se prende ai. Por causa do egoísmo dos que estão em cima, os debaixo sofrem com a fome. Sofrendo, os menos favorecidos acham a saída mais imediata: se voltar contra seus semelhantes, aqueles que estão na mesma situação.

Ora, se todos só usarem o que precisam para sobreviver, todo mundo vive. Mas, você que sofre e um dia consegue “subir para os níveis superiores” não se preocupa mais com quem ficou embaixo, não é? Viu, é didático! Obviamente não intencional durante a produção do projeto, seu lançamento foi nada menos que conveniente. As discussões batem de frente com o que se vê toda hora nos dias atribulados que vivemos.

Vale ressaltar que o filme em si não apresenta nada além do convencional. Primeira direção de Galder Caztelu-Urrutia, O Poço é firme mas não te nenhum elemento inovador. No roteiro, a sutileza não é sua maior qualidade, mas isso garante a fluidez de todos os tipos de público com o filme logo de cara. Existe uma barriga (momento mais arrastado) no meio, mas nada que te tire da trama, a história é fácil de comprar.

As atuações são ágeis. O protagonista Ivan Massagué (um irmão perdido do Eduardo Bueno, haha) é funcional, principalmente na sua relação com o melhor dos coadjuvantes, Zorion Eguileor, um velhinho nada simpático mas que chamou muita atenção. Ainda ganhamos uma participação de Antonia San Juan, que atuou em Tudo Sobre Minha Mãe, todos os cinéfilos de plantão vão reconhecer.

O Poço é uma obra criativa e inventiva. Como um bom brasileiro (mesmo sendo um filme espanhol), sabe usar sua esperteza para compensar algumas falhas técnicas. Conquistando o público por sua relação próxima com a realidade, o filme traz uma experiência de noventa minutos de diversão e entretenimento, seguidos por uma reflexão e por imagens que vão ficar com você. Se todo mundo só usar o que precisar, não falta para ninguém.

Nota: 8.9

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