Por Gabriela Borges.

Em 1895 houveram dois nascimentos importantes, os irmãos Lumiére criaram o primeiro projetor de filmes, dando nascimento ao cinema, e os primeiros estudos sobre a Histeria, inaugurando a ciência da psicanálise, desde então, estas duas tem estado inextricavelmente ligadas. Em 1931 a indústria americana de cinema estava sendo chama de “fábrica de sonhos”, refletindo a semelhança entre as imagens dos filmes e o trabalho dos sonhos.

O cinema e a psicanálise tem uma afinidade natural, e em vista disso, nesta coluna estarão presentes as minhas interpretações, de acordo com a minha realidade psíquica, dos filmes, e com aquilo que estudo, bem como, algumas explicações sobre os transtornos mentais que podem aparecer em tais filmes. Lembrando que é papel do espectador receber e fazer a sua própria leitura do que é mostrado nos filmes, ter o seu próprio entendimento, pois cada pessoa pode ter uma compreensão diferente, não existindo apenas uma maneira de entendermos o que se passou na tela.

Esta semana será feita uma breve reflexão sobre o filme , de acordo com coisas que li, pois este é um filme bastante estudado, e com inúmeras interpretações diferentes.

O protagonista, Scottie, possui acrofobia, um transtorno de ansiedade em que a pessoa tem medo de altura, e no começo do filme, sofre um trauma quando seu amigo tenta salvá-lo e cai do telhado. Posteriormente, tenta se recuperar disso aos poucos, como na cena em que tenta subir uma escada. Porém, na realidade, pessoas que sofrem de tais fobias raramente se sujeitam á tais situações, e isto pode piorar ainda mais o seu caso clínico.

Ao tentar resgatar a si mesmo, acaba sendo chamado por um antigo colega para ajudar a sua esposa, Madeleine. Ao ser relatado os problemas de Madeleine, Scottie diz para o amigo que ele deveria leva-la á um psiquiatra, neurologista ou psicanalista, e a partir deste momento, podemos ver Scottie assumindo o papel do psicanalista, na medida em que tentar recuperar as memorias perdidas de Madeleine, interpretar os seus sonhos, esforçando-se para liberá-la das garras de sua obsessão misteriosa.

Scottie estava preso com o seu profundo envolvimento emocional e identificações inconscientes, com a impossibilidade de manter a objetividade, tanto individual, e de garantir o seu papel como um objeto bom ou reparador. Se apaixona por Madeleine, e quando esta morre, caindo da torre da igreja, sofre um grande trauma e é internado. Logo após a morte de Madeleine, Scottie vai embora para casa e depois relata não lembrar de ter feito isso, bem como, pesadelos e sonhos recorrentes, sendo ambas acontecimento muito comuns no transtorno de estresse pós-traumático, porém durante sua internação, permanece imóvel, sem falar nada, o que não acontece nesse tipo de transtorno.

Posteriormente ele encontra Judy, uma sósia de Madeleine, a convida para sair e imediatamente passa a vesti-la como Madeleine se vestia, já que não consegue amar Judy por quem ela é. Scottie busca um amor ideal ligado a alguém morto, rejeita a realidade existencial a fim de viver uma irrealidade mítica.

A sua visão romântica e ingênua da situação o impede de enxergar a realidade, a de que Judy é Madeleine, e quando descobre, a confronta, levando-a para o alto da torre, e supera a sua vertigem/acrofobia (o que provavelmente não aconteceria na realidade). Judy, se assusta com a freira que aparece e acaba caindo do telhado, morrendo (de verdade agora).

Outra forma de enxergar, é a de que, de acordo com Gabbard (1998, Psychoanalisis and film), existe um lado defensivo da objetificação da mulher, envolvida constantemente nas fantasias sexuais dos homens. A necessidade de onipotência, e ainda sádico, controle do objeto de amor para lidar com o terror da perca do objeto está no núcleo de desejo masculino. O que Gabbard sugere, se encontra por baixo da superfície da simbólica necessidade e idealização de mulher que Scottie tem. Lembrando que durante toda a vida do diretor, Alfred Hitchcok, ele lutou com dependência, mulheres e sadismo, que é documentada por vários episódios biográficos em seus filmes.

*Gabriela Borges é estudante de psicologia na Universidade Federal de Goiás – UFG, tem 21 anos e é amante do cinema como um todo.

 

 

REFERÊNCIAS

GABBARD, G. O. Psychoanalysis & film. London and New York: KARNAC, 2001.

 

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