Woody Allen retorna ao romantismo em um de seus mais aclamados e bem sucedidos longas que, particularmente, considero o meu favorito da estenda filmografia do diretor. Conseguindo abordar diversos temas, de forma realista, retratando assim a naturalidade da vida e suas inúmeras impressibilidades.

Nos deparamos, mais uma vez, com o mundo particular de Allen, baseado muito no pessimismo e indecisão naturais ao ser humano, sem uma ordem moral universal. Porém, em ‘Hannah‘, o diretor acrescenta ainda lados mais belos e espontâneos, construindo um singular retrato da vida em si, acompanhando na narrativa, durante um ano, as excentricidades de três irmãs e sua família.

No enredo, conhecemos então as irmãs: Hannah (Mia Farrow), Holly (Diane Wiest) e Lee (Barbara Hershey), elas levam vida distintas e apesar de suas diferenças se dão bem. No dia de Ação de Graças, porém, inicia-se os primeiros conflitos particulares: Primeiro o marido de Hannah (Michael Caine) descobre-se apaixonado pela cunhada , que por sua vez, está  em plena crise em seu relacionamento com um homem mais velho (Max Von Sydow). Enquanto isso, Holly encontra-se em constante busca a fim de preenchimento do seu vazio sentimental e profissional. Paralelamente, conhecemos Mickey (Woody Allen), um diretor de televisão que beira a crise existencial devido sua hipocondria, suspeita de câncer, além de insatisfação com o ofício.

Vamos acompanhando tais distintos personagens e sua relações -conflituosas, muitas vezes- além de depararmos os seus conflitos internos e as surpresas que a vida apresenta. Tudo isso tendo como pano de fundo a cidade de Nova Iorque, aqui com um papel extremamente relevante, mostrando as múltiplas possibilidades que o belíssimo cartão postal oferece.

As diversas temáticas interligadas exaltam a vida e retratam toda sua inconstância, o quão fecundas podem ser as possibilidades que temos e, muitas vezes, temos medo de executar, o romantismo em sua forma plena, a capacidade humana de mudar e ainda o papel decisivo que os acidentes podem apresentar em nossas vidas. Enfim, uma obra que serve de espelho para a realidade, tendo como personagem principal o ser humano simples e, na maioria da vezes, conflituoso.

Woody Allen usa múltiplos recursos, como uso de flashbacks, múltiplas narrações e uso de capítulos para separar determinados episódios, aumentando então a experiência que se torna envolvente e particular ao expectador, desafiando-o a não se identificar com, pelo menos, um momento que seja. A direção de Allen é muito mais intimista e particular, sendo assim um filme em que melhor ele consegue transparecer sua visão de mundo, se baseando, como sempre, no pessimismo crônico, porém acrescentando o quão bela a vida consegue ser em simples momentos que já valem por si a existência humana.

O roteiro de autoria do diretor é um de seus mais originais e inspirados, há uma argumentação sólida e engrandecedora, nos quis é exaltado as particularidades do ser humano e do convívio familiar. Criando também um contraste em relação aos conflitos familiares, ao mesmo tempo onde há clima de celebração de união. Woody faz inúmeras homenagens a obras renomadas, como Anna Karenina, no qual o mesmo diz ser sua inspiração para o roteiro.

O elenco está extremamente à vontade e em sintonia, todos os integrantes soberbos. Diane Wiest e Michael Caine maravilhosos, sendo os personagens com mais empatia com o espectador. Mia Farrow e Barbara Hershey expressivas e carismáticas, ainda temos o Woody Allen em seu auge como ator, reafirmando sua versabilidade como artista. Ainda há participações pequenas, porém marcantes, como o ator favorito de Bergmann, Max Von Sydow.

“Hannah e Suas Irmãs” é, portanto, um dos filmes mais particulares e inspirados de Woody Allen, uma experiência charmosa e tocante que mostra que mesmo em meio a crise e decadência humana, há como germinar uma mera semente de otimismo e esperança, mostrando assim como a vida pode ser oportuna e linda, seguindo seu curso natural. Enfim, uma lição singular por um diretor de mesmo nível.

~CURIOSIDADES~

  • Barbara Henshey e Max Von Sydow foram ovacionados de pé por seus colegas de elenco após a gravação de suas cenas;
  • Muitas sequências de Hannah/Mia Farrow foram gravadas em seu próprio apartamento;
  • A atriz Maureen O’Sullivan interpreta a mãe de sua filha na vida real, Mia Farrow;
  • Woody Allen pensava em um desfecho mais pessimista, mas mudou de ideia após conversas com seu produtor;
  • Quatro filhos de Mia Farrow aparecem de relance, incluindo Soon-Yi Previn, atual esposa do diretor;
  • Houve um gigantesco movimento para o roteiro de Woody ser indicado ao  Prêmio Pulitzer;
  • O poema que Lee lê em determinada parte faz parte de “Em Algum Lugar Eu Nunca Viajei”, de E.E Cumings.

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