• Título Original: Noite Vazia
  • País de Origem: Brasil
  • Gênero: Drama
  • Direção: Walter Hugo Khouri
  • Roteiro: Walter Hugo Khouri
  • Elenco: Odete Lara, Norma Bengell, Mário Benvenutti, Gabriele Tinti
  • Duração: 93 minutos
  • Ano de Lançamento: 1964

 

noitevaziaO filme Noite Vazia de Walter Hugo Khouri se inicia mostrando a vida noturna na cidade de São Paulo. Festas, bares, homens e mulheres, em busca de alguma diversão, algo para lhes tirar da monotonia da rotina. Uma noite cheia de pessoas e vazia em sentimentos. Na cidade, temos Nelson e Luisinho, frequentadores assíduos da noite paulistana. Na cidade, conhecem as garotas de programa Mara e Regina, mas a noite termina por ser frustrante para todos os envolvidos, pela amargura de suas conversas e atitudes, revelando seus sentimentos mais profundos, demonstrando o vazio de suas vidas.

Um dos concorrentes a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes de 1965, o filme é considerado a obra-prima máxima do cineasta Khouri. A principal características de seus trabalhos é mostrar a angustia dos seres humanos, algo bastante presente nesse filme. Nascido em São Paulo, trata-se de um dos mais renomados nomes do país de sua geração e também bastante e polêmico. Um dos seus filmes mais lembrados atualmente, embora não esteja entre seus melhores, é “Amor Estranho Amor”, eternizado por uma cena de sexo entre a apresentadora infantil Xuxa e um garoto. “Noite Vazia” não foge a regra e tem como uma de suas cenas mais interessantes um momento de lesbianismo entre Mara e Regina. Bastante sutil, ainda assim ousada para os padrões da época, nos dias de hoje encanta pelo extremo bom gosto e inteligência na forma em que foi filmada. Khouri não era um diretor apenas de polêmicas, mas sim de grande talento.

noiteeeO cineasta viveu na época do Cinema Novo, mas fazia filmes bastante diferentes do período. Com o lema “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, eram obras que retratavam a situação política e cultural do país na época. Basta ver algumas obras dos mais importantes nomes do movimento, como Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos para perceber as fortes características brasileiras presentes neles. Totalmente oposto, Khouri tinha suas influências em nomes do cinema europeu, principalmente  Antonioni, seu maior ídolo.  Primeiramente o tema tratado em “Noite Vazia” não é exclusivamente brasileiro, mas sim universal e trás consigo uma sofisticação poucas vezes vistas até no cinema local atual. Mesmo se passando a maior parte do tempo dentro de um hotel, as boas escolhas estéticas do diretor ficam bem evidente e seu uso de cores, na maior parte do tempo usando tons escuros, ajudam a trazer um toque de elegância.

O longa-metragem traça um retrato do vazio por parte da burguesia – pessoas que buscam preencher sentimentos e sensações que o dinheiro não consegue comprar, tal qual a solidão, o amor ou a felicidade. Os personagens são hipócritas. Os rapazes ostentam o seu dinheiro e a vida social que levam. As garotas de programa evidenciam a sua a liberdade de escolha para com seus clientes e o dinheiro que recebem, porém ao longo daquela noite todos se revelam seres frágeis e infelizes com a própria existência. Nelson sempre diz que será a última noite, que mudará, mas sempre acaba voltando à farra com Luisinho, em mais uma tentativa de na próxima noite encontrar algo. Ao longo da noite temos jogos, filmes, brincadeiras, mas nada parece saciar as necessidades e elas só aumentam, assim como o clima de desgosto,  o vazio, acabando por se tornar uma noite cada vez mais entediante. A trilha sonora acompanha a angústia, trazendo um sufocamento, nos transportando para as sensações dos personagens.

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Fazendo justiça ao clima europeu adotado na produção, temos nele duas divas brasileiras que eram respostas as que vinham surgindo no exterior, como Brigitte Bardot, Monica Vitti e Jeane Moreau. Norma Bengell e Odete Lara, não tinham só a elegância e a beleza dessas musas, mas o mais importante – um comportamento totalmente a frente do seu tempo e desafiador das regras impostas por um país em transformações e de poucas liberdades.

 Norma Bengell foi refugiada e protagonizou o primeiro nu frontal do Brasil em “Os Cafajestes”, de Ruy Guerra. Dedicou sua vida inteiramente ao cinema, trabalhando com cineastas como Glauber Rocha e Anselmo Duarte, vendo diversos de seus filmes chegarem até o Festival de Cannes. Lá acabou por cultivar amizades com nomes como Luchino Visconti e Federico Fellini e foi onde conseguiu trabalho no cinema italiano, protagonizando um sci-fi do cultuado diretor Mario Bava, “O Planeta dos Vampiros” e chegando até a atuar também ao lado de Catherine Deneuve. No filme, ela interpreta Regina, talvez a que mais demonstre uma insatisfação com a sua vida, sempre com feições quase sempre tristes, talvez estando a procura que algo a tire daquilo – um amor talvez.

 

A loira dotada de uma beleza estonteante Odete Lara, também trabalhou com Glauber Rocha e foi um dos maiores NoiteVaziasímbolos sexuais do Brasil na década de 60, além de extremamente talentosa. Lutou contra a censura e chocou o país ao se converter ao budismo e largar o mundo artístico jovem e no auge da carreira. Sua Mara é mais autoritária, se assume uma vagabunda e tenta esconder a sua infelicidade por de trás de ironias e frieza.

 

São duas musas esquecidas, em um filme que infelizmente teve o mesmo destino. Não é de se admirar, afinal muito se foi deixado de lado do que se foi feito no Brasil anos atrás. Pior ainda é atualmente, onde filmes de péssima qualidade lotam salas, até de curiosos dispostos apenas a assisti-los a fim falar mal do nosso cinema, enquanto nossas legítimas obras de arte passam quase sem ser vistas, lutando para serem exibidas em algumas salas, aquelas que ainda primam pelo bom gosto. “Noite Vazia” merece reverência, uma legítima obra-prima e inesquecível na mente daqueles que já tiveram o prazer de assisti-la um dia.

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