Soa interessante percebermos a vastidão de títulos nacionais, que nos últimos anos, estão sendo produzidos e estreados. Nesse ano, tivemos vários títulos consagrados, destacando o fato de todos falarem de questões diferentes, porém aspectos sociais latentes e presentes no dia a dia. É notório como o cinema nacional passa a observar a si mesmo de forma incisiva e inventiva. Um desses exemplos é “O Silêncio do Céu”, novo longa do diretor Marco Dutra. O filme é falado quase todo em espanhol, se ambienta no Uruguai. Contudo, aborda questões genuinamente brasileiras.

O longa começa, de cara, com uma forte cena de estupro, encenada de dois diferentes ângulos. Não sabemos os acontecimentos precedentes ao ocorrido, nem se houve algum tipo de ligação entre os personagens e os estupradores. Diana (Carolina Dieckmann) é uma mãe em processo de divórcio, tentando reatar com seu marido Mario (Leonardo Sbaraglia). Eis que ela é vítima de um estupro e seu marido presencia, não tendo reação em defesa da esposa. Ela então opta pelo tortuoso silêncio em prol de reestruturar a relação dos dois como casal.

Chega a ser irônico esse longa estrear nacionalmente na semana que uma pesquisa indicou o fato de um terço dos brasileiros culparem as vítimas do estupro pelo caso ocorrido, triste enxergar uma lógica tão machista, peçonhenta e banal vinda da sociedade brasileira que parece ter ficado no século passado. O trunfo do roteiro de Silêncio do Céu é por optar pela desconstrução. O fardo que Diana carrega consigo caladamente não a torna mais fraca, sim mais forte e corajosa. A torna superior ao seu marido Mário, após ter agido de forma impotente e covarde, não consegue conceber o fato de sua própria masculinidade ter sida abalada, se sente inferior e obcecado por um redenção consigo mesmo, não em prol da solidariedade com a esposa.

Outro fator instigante na narrativa é a alusão da incomunicabilidade nos relacionamentos conjugais, principal fator da falência dos sentimentos mútuos entre os pares. É doloroso perceber como uma relação se torna abusiva na medida em que uma parte precisa se silenciar em prol da outra se acomodar, o silêncio se torna importuno, incômodo e até traiçoeiro. A impotência se torna sentimento predominante, sobretudo em uma relação pautada pela esterilidade, como na narrativa transcorrida.

O elenco é competente, Leonardo Sbaraglia consegue dar dubiedade ao seu personagem sem soar óbvio, Carolina Dieckmann acrescenta uma força necessária. A direção de Marco Dutra é enxuta, sem exageros ou maneirismos, induz uma tensão ofegante, fazendo o público carregar o mesmo fardo de seus personagens. É um filme duro, crú, sobre como o homem consegue ser brutal em toda sua plenitude. Ainda que não seja um entretenimento, tão pouco uma programa fácil, é um Cinema de qualidade inegável, além de um exercício de gênero pouco visto na produção nacional até agora. Só por isso merece ser visto, ainda mais se tratando de um exitoso projeto.

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