Era o Hotel Cambridge (Idem, 2016)

O Brasil passa hoje um processo de ebulição social desde o processo de impeatchment -ou melhor dizer, GOLPE-  contra a presidenta da república legitimamente eleita em eleições livres e diretas, fazendo ascender de forma indireta ao comando do Executivo nacional um presidente sem voto, representando um projeto totalmente divergente com aquele consagrado nas urnas no pleito de 2014. É importante compreender esse cenário político e social turbulento, pois ele que define o contexto de muitas vidas, sobretudo dos membros das classes mais baixas que são atingidos diretamente pelas medidas impopulares do governo vigente pós-impedimento/golpe. Nesse contexto que “Era o Hotel Cambridge” se baseia de forma livre e incisiva, abordando uma ocupação do movimento dos sem teto frente ao processo de reintegração de posse ordenado pelo Governo do Estado de São Paulo e o Judiciário local, sem levar em questão a particularidade da vida daqueles indivíduos, nos quais vamos aos poucos conhecendo com intimismo e empatia.

A direção de Eliane Caffé emula muitas nuances do singular documentarista brasileiro Eduardo Coutinho, porém não o copia, detém de um personalismo frente sua câmera em sintetizar a essência de um movimento social, sua complexidade e sobretudo sua necessidade em ser necessário. Não é uma obra panfletária, é sim um Cinema político de forma plena e urgente, denunciando os desmandos arbitrários do Estado frente a um grupo marginalizado pelos próprios órgãos governamentais, enquanto tentam buscar por civismo e representação, são massacrados, não só pelos agentes do estado, mas também pela opinião pública moldada graças a uma mídia tendenciosa e favorável à especulação imobiliária e ao desmonte de qualquer movimento social que represente o enfrentamento aos interesses do Capital.

O Hotel Cambridge funciona não só como cenário da narrativa, é um personagem que ajuda na construção dela, assim como Coutinho fez em Edifício Master (2002), com ironia, torna aquele ambiente aprisionador ao mesmo tempo que libertador. É o ambiente comum daqueles indivíduos onde eles se tornam iguais, sem exceção, com suas particularidades individuais, vivem conjuntamente em prol da sobrevivência, com cooperação e respeito, uma experimentação de uma utopia socialista, porém na marginalidade que o Estado os aprisiona, tornando aquela vida periférica, abaixo dos direitos constitucionais supostamente garantido aos cidadãos.

Assim como “Aquarius” representava um grito a favor da resistência, “Era o Hotel Cambridge” grita por mobilização, luta institucionalizada sintetizada em movimentos sociais e populares, na contramão do conservadorismo autoritário do Estado. Ambos os longas-metragens se complementam de forma bárbara, propondo uma forma de Cinema pensante, autocrítico e incisivo, não poupando nenhum setor da civil da responsabilidade dos atuais desmandos que acontecem no Brasil, sobretudo pelo conivente silêncio que nada nos leva. “… Hotel Cambridge” urge para que todos se mobilizem, deixem de lado manifestações meramente virtuais e apoiem causas universalizadas, como o direito à moradia.

Uma das coisas mais interessantes é a mescla de atores profissionais consagrados como José Dumont e Suely Franco – incríveis – ao lado dos próprios moradores, com destaque claro a líder do movimento, que demonstra coerência e solidez em sua liderança, nos fazendo comprar seus ideais de forma natural. Talvez, apenas os mais reacionários e apoiadores de antigos regimes ditatoriais não gostarão da narrativa, aos mais libertários, é impossível se sentir indiferente e, sobretudo, inspirado. Um filme que reflete muito o Brasil do presente e inspira para que o Brasil do futuro seja mais socialmente justo, basta nós irmos a luta, como já diria Bertolt Brecht: “Nada deve parecer impossível de mudar”.

Nota: 5/5

Poesia Sem Fim (Poesía sin fin, 2016)

Obra autobiografia do diretor chileno Alejandro Jodorowsky, Poesia sem fim pode ser considerado exagero, gritante e egocêntrico, sobretudo pela ideia do cineasta dirigir a própria vida, tentando inclusive alerta-lo das consequências das escolhas que o “eu jovem” dele fez. Entretanto, há um anseio do filme ser um testamento de Jodorowsky, uma carta na qual reitera seus equívocos, tenta os redimi-lo, mas exalta sua figura como poeta nascido a rebeldia dos anseios de sua família, lutando contra o movimento fascista crescente no Chile e ainda enfrentando os dilemas universais como a busca incansável de um amor duradouro, os dilemas de não se achar capacitado como artista, a inclusão no meio etc.

O exagero surrealista de Poesia Sem fim é gritante e hipnotizante, faz o filme permanecer vivo constantemente ao longo de suas mais de duas horas, não há um único momento de tédio ou vazio argumentativo, tudo que está jogado ali é proposital, abstrato ao modo de gerar múltiplas interpretações, até mesmo as interjeições de Jodorowsky a ele mesmo consegue proporcionar subjetividade, a empatia com ele é um ponto controverso, pois é dúbio como o personagem principal é uma figura questionável. É uma obra que segue uma veia deixada pelo cinema de Federico Fellini, em juntar questões pessoais do diretor mais outras questões universais, presentes na sociedade. Contudo, não achem que Poesia se trata de um Oito e Meio, pois ambos tem uma proposta bastante distinta, ainda que seja similar em certos pontos.

“Poesia” transborda metalinguagem, transborda poesia, transborda Cinema que não é feito em demasia hoje em dia. É um êxtase visual sem parar, não nos deixa respirar, nos vemos diante de um artista criado em meio ao preconceito e ao patriarcalismo, tentando voar, ser quem ele é e quebrar tais algemas estereotipadas arcaicas. Alejandro inspira a todos nós ao mesmo tempo que ataca aos seus pais, ao conservadorismo e a si próprio, com um olhar arrependido de alguém que errou em suas decisões, principalmente no que diz respeito aos seus pais e a conturbada relação entre eles.

A estética por si só já grita sobre a proposta de cinema de Jodorowsky, porém seu roteiro e direção acompanham isso e tornam a experiência única. Não há espaço para a indiferença ao longo da projeção, há sim encantamento e curiosidade para a vida nem um pouco convencional de um artista menos convencional ainda. Poeta, cineasta, artista plástico, rebelde… O mundo carece de um Jodorowsky para nos encantar e incentivar a revelia diante de uma crescente onda conservadora no Brasil e no mundo como um todo.

Portanto, ouso dizer que “Poesia Sem Fim” fora uma das minhas melhores experiências na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, pois a projeção crítica, encantadora e surrealista proporcionou horas de discursão, internalização e questionamento, ou seja, fez o melhor que o cinema pode proporcionar ao espectador. Ainda fez a nós, público, conhecer um pouco sobre esse grande cineasta, em meio a tantos signos de sua vida, tanta solidão e redundância. Um trabalho incrivelmente ousado e vastamente narrativo. Memorável soa eufemismo diante de uma obra inspiradora e transloucada no melhor sentido que a palavra pode significar. Ainda vamos pensar muito sobre esse longa, obrigado Alejandro, por ser tão necessário ao Cinema.

Nota: 5/5

Beduíno (Idem, 2016)

Definir o novo longa-metragem de Júlio Bressane é totalmente impossível, pois “Beduíno” é uma experiência daquelas subjetivas nas quais cada um precisa ver e rever para tirar suas próprias conclusões. Num ar totalmente teatral, nos deparamos com um casal que reflexa sua existência, como indivíduos em sociedade e como casal em si, encenando a formação da sociedade moderna em meio ao lirismo do simples ato de pensar dos dois. Quebra paradigmas cinematográficos pelo fato de colocar o espectador literalmente como alguém que “expia” pelo buraco da fechadura o embate do casal vivido por Alessandra Negrini e Fernando Eiras.

O filme, ou melhor dizendo, a experiência apresenta uma grandiosa contradição: Ele é a exaltação do ato de existir, ao mesmo tempo que questiona ao todo tempo sobre a existência humana. Ou seja, a vida é inocente, sensual, banal, superficial, vasta, complexa… plena. O tom teatral reafirma essas múltiplas nuances contidas no decorrer da vida, a argumentação inclusive lembra algo saído de um filme do Terence Malick.

Beduíno é uma obra cinematográfica tão inédita como visto em “Adeus à Linguagem” de Goddard, o que por si só é um grande chamariz. Mas há genuinidade em propor um espetáculo de encenação lírica e onírica no qual é a vida humana. A vida é um espetáculo ou o espetáculo é a vida? Rende bons debates pra posteridade.

Nota: 4/5

Canastra Suja (Idem, 2016)

O eventual burburinho que esse filme vai gerar é decorrente de se tratar da mesma equipe da minissérie da Rede Globo “Justiça”, mas se enganam quem ache que o longa-metragem de Caio Soh é meramente mais um episódio do programa televisivo, ele tem essência própria na construção de uma narrativa imprevisível, onde o truque é o ponto forte, por mais óbvio que soe os caminhos a se seguir, nada é totalmente claro. O diretor literalmente joga com o espectador de forma sádica até, ele a todo momento se baseia em blefes a fim de instigar a nós apostarmos tudo que tivermos, nos entregarmos sem medo, para então poder nos dar um xeque-mate derradeiro.

A narrativa acompanha uma família totalmente desestruturada no subúrbio carioca, cada um de seus membros detém de um tipo de fuga daquele ambiente tão hostil, o pai por exemplo é alcoólatra. Em dado momento uma tensão muito forte vai gerar o literal desmoronamento dessa família, expondo a cada um de seus pares de forma cru. Não posso falar mais do resumo da estória, devido ao fato de ser um desses tipos de filme onde quanto menos se sabe é melhor, para o aproveitamento da experimentação própria. A câmera completamente subjetiva nos faz confrontar cada personagem particularmente difícil, numa posição de juiz e ao mesmo tempo de vítima, por haver muitas características em cada um dos personagens presentes de certa forma no nosso cotidiano.

Aliás, é um filme que tenta expor inúmeras hipocrisias contidas na sociedade, muitas inclusive que nós mantemos de forma torpe. Soa também bastante crítico ao colocar o espectador em muitas vezes como juiz, levando em conta a moral de cada um pra julgar quem quer se for – não é um ataque, só uma constatação de como é complexo um ser humano julgar outro. A alusão de cartas de um baralho servindo para separar a narrativa em capítulos auxilia também em demonstrar um grande jogo no qual o público se sente oras vitorioso, oras totalmente rendido, num truque final certeiro e digno de notoriedade, assim como era na minissérie Justiça. O elenco consta com a estreia de Bianca Binn num longa-metragem, mostrando grandeza como atriz no qual era pouco aproveitado nas novelas, já Adriane Esteves se mantém como uma Atriz maiúscula ao lado do fenomenal Marco Ricca, emulando bastante Macbeth de Shakespeare. Um longa que cresce após seu término, servindo de um coringa bastante surpreendente frente a cinematografia nacional em plena evolução.

Nota: 4/5

Belos Sonhos (Fai Bei Sogni, 2016)

Eu devo confessar que foi um longa no qual não fiquei nem um pouco interessado de ver inicialmente, até mesmo minutos antes da projeção eu me senti entediado e convicto que veria um filme totalmente repetitivo. Felizmente, eu me surpreendi e vi um dos melhores longas-metragens do italiano Marco Bellochio, um biografia instigante, carismática e muito bem dirigida, na qual Bellochio brinca de usar todos os clichês possíveis na abordagem de relação mães x filho, para então desconstruí-los de forma encantadora, com uma câmera sutil na aproximação dos personagens, ele deixa tudo fluir de forma natural, sem forçar ou induzir a dramaticidade de forma inverídica, consegue proporcionar uma identificação na figura do filho Massimo, um jovem que precisa superar a perda da sua mãe e se relacionar de forma conturbada com seu pai.

O primeiro ato do longa é totalmente hipnotizante, não sentirmos passar e caminhamos juntos do menino Massimo, uma criança plenamente encantadora, uma atuação de gente grande do jovem Lorenzo Monti, dá muita vastidão ao seu personagem, não se baseia em mera caricatura comum. Logo após esse ato, nos vemos o Massimo já adulto, tentando confrontar a morte da mãe e os rumos que sua vida levou, essa narrativa demora um pouco pra engrenar, pelo excesso de informação na tela, decorrente justamente de tantos conflitos nos quais o adulto apresenta consigo mesmo.

A forma da construção da imagem de Bellochio é inebriante, principalmente por ele usar a profissão do personagem principal – fotografo – pra demonstrar o poder da manipulação da imagem ou meramente a composição de uma imagem que diga por si o que o roteiro tenta deixar subjetivo ao espectador. É uma direção incrível de um diretor que demonstrou, aos mais de 80 anos, ter uma mão sensível e intimista em elaborar uma narrativa totalmente carismática, sem abandonar aspectos sociais comuns na cinematografia do diretor, que demonstrou estar vivo e com garra de fazer cinema.

Além de ter sido uma surpresa, “Belos Sonhos” foi uma experiência bastante emocionante, em uma cena há uma carta na qual é expressa o amor de filho para mãe que inicialmente soa totalmente manipulativo porém quebra com isso ao final da cena, demonstrando um domínio no roteiro, não se pautando em clichês, tentando ao máximo tornar o filme diferente dos demais da temática. O elenco é iluminado, dando uma grandeza aos seus personagens bastante linda de se ver, pois dá pra ver o brilho nos olhos de cada um dos atores em momentos chaves, algo bastante espontâneo. É um filme que pode passar despercebido para muitos, porém aos que adentrarem se depararão com uma obra aparentemente convencional, mas bela, muito bela. Como um bom sonho, que vale a pena ser sonhado, no modo de querermos volta-lo a tê-lo. E esperamos que Bellochio continue fazendo filmes assim.

Nota: 4/5

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