Animais Noturnos (Noturnal Animals)

É aquele velho papo de sempre: expectativa é o maior dos males. Infelizmente é real, estava bastante empolgado para ver o retorno de Tom Ford como diretor, após o incrivelmente sensível Direito de Amar (A Single Man, 2009), mais ainda após ele ganhar o prêmio grand prix – espécie de segundo lugar – no júri do festival de Veneza deste ano. Após a primeira exibição na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ficou-me claro como o “hype” é a pior das coisas, pois me trouxe uma amarga decepção diante de um filme totalmente estéril.

Animais Noturnos segue a estética redundante, assim como no seu longa de estreia, entretanto a qualidade não acompanha seu visual vasto. Há um vazio narrativo grotesco expresso em duas narrativas, a primeira se passa na vida de Susan (Amy Adams), uma artista visual infeliz com sua vida e que recebe o romance de seu ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal), começando a lê-lo, ao mesmo tempo que recorda de seu relacionamento com o escritor. Paralelamente, há a narrativa do próprio livro: Um pai de família (também o Jake) viaja com sua esposa e filha (Isla Fisher), no meio da estrada um fato grave ocorre e muda o destino de seus personagens. Não posso contar nada sobre a segunda narrativa pois pode diminuir a experimentação do público ao ver, sobretudo por haver uma tensão criada a medida que os fatos vão acontecendo, principalmente na subjetividade dos acontecimentos em progresso e não explicitamente em sua execução.

Mais incomoda o fato de uma narrativa, a suposta “principal”, ser engolida pela secundária, inclusive o fato de Amy Adams ser completamente um artigo de luxo no filme, tendo uma personagem vaga, frígida, completamente jogada, com desenvolvimento superficial. Compreendemos que sua formação familiar teve influência em sua trajetória, também é deduzível sua ambição a tornar literalmente um tipo de “animal” capaz de passar por cima de qualquer um, doa a quem doer. Contudo, não há muita personalidade própria da personagem para além do seu “histórico” estabelecido. Ela é essencialmente vazia, sua relação com Edward é banal e sua vida cotidiana maior ainda. É gritante como sua existência no próprio filme serve para enaltecer sua estética e exaltar sua própria beleza, na forma mais narcísica possível, junto a direção de Ford que fortalece isso. Já na segunda narrativa, existe um vigor interessante nesta, algo que instiga, choca e compadece, mais ainda pelo fato de ser uma estória construída totalmente como resposta ao vazio de Susan e, consequentemente, do próprio filme. Ou seja, é um longa-metragem que se contradiz em tentar criticar aquilo que é.

No quesito atuações, temos uma Amy Adams deslumbrante, mas pouco expressiva, sua performance é feita a base do “carão”. Já Jake repete seu mesmo desempenho feito recentemente em O Abutre, inclusive o corpo esquelético em determinado momento e os momentos de explosão no maior estilo “olhem pra mim” possível. Ao meu ver as duas maiores faces do elenco se baseiam nos coadjuvantes: Michael Shannon, grande ator que multiplica o pouco que lhe é dado. E Laura Linney, atriz canadense que tem apenas uma cena e sentencia basicamente o destino da personagem vivida por Adams, de forma irônica e, diria, até sádica, numa performance minuciosa, precisa e marcante. A direção de Ford não acompanha muito suas reais pretensões, ele tenta mostrar o quão grandioso é seu filme, mas falha em não dar a menor grandeza narrativa que não se resuma a um ensaio visual. Tenta por várias vezes chocar, fazermos entrar no tranco, não funciona muito bem.

É um longa com potencial, acredito ainda que muita gente vai gostar – como gostou aqui na Mostra – mas não posso me considerar um deles, pois queria alguma substancialidade em meio de tanto adjetivo, tanto maneirismo, tanto visual. No fim, soa algo brega, amargo e duro de se ver, não esquecível, mas bem decepcionante. Um gosto amargo da chamada decepção.

Nota: 2.5/5

Mr. Pig

Mr. Pig (Idem, 2016)

Estreia do ator Diego Luna como diretor segue à risca os modelos de filmes indies americanos, sem mudar muita coisa, ainda que seja um filme bastante singelo na sua proposta. Porém chega a ser irritante a repetição dos filmes independentes americanos, todos parecem ser fabricados na mesma fábrica, necessitando urgente de uma inovação nesse cinema.

O longa acompanha um fazendeiro de porcos (Dany Glover), todo endividado com os bancos, resolve abandonar tudo e ir para estrada tendo como acompanhante seu porco Howard. Ele vai então para o México onde pretende, inicialmente, se livrar o porco e recomeçar a vida. Entretanto, como todo bom road movie, as coisas não acontecem como o imaginado, fazendo o “senhor pig” do título ter que lidar com sua própria mortalidade e incapacidade de enfrentar as situações.

O filme é competente na construção dos personagens, não apela pra clichês comuns e nem melodramáticos demais, inclusive a interação entre o personagem de Dany Glover com os demais é bastante dinâmica, seja com o próprio porco ou seja com sua filha, interpretada por Maya Rudolph. O que me incomoda é o anseio do filme em ser maior do que é, de fato. De passar até a imagem de cult quando na verdade é bem bobinho, ainda assim consegue ser bonitinho.

Dany Glover não tinha um papel desafiador havia muito tempo, ele consegue entregar uma grandeza ao personagem sem soar óbvio, fico feliz pela oportunidade que lhe foi dado, pois me atores em sua idade carecem de papeis minimamente desafiadores. Por favor em desafio, maior surpresa é com a Maya Rudolph, uma atriz vindoura de comédia, consegue agarrar a dramaticidade de forma eloquente e bastante esforçada. É algo que gostaria de ver novamente, pois ela demonstrou um potencial dramático não visto antes – algo que seu marido Paul Thomas Anderson podia explorar. No final das contas, é um road movie que usa e abusa dos clichês do gênero e do próprio “Indie movie”, é competente na sua proposta, mas bem aquém do seu potencial.

Nota: 3/5

O Estudante

O Estudante ((M) Uchenik)

Esse filme russo é um daqueles casos nos quais você se depara com algo grandioso em tela, porém após o seu término percebe na verdade que o verdadeiro filme não aconteceu. Fica aquele gosto amargo de que nos deparamos com uma obra extremamente diminuta, se formos analisar seu texto com cuidado.  Particularmente eu achei um dos mais decepcionantes, até agora, neste ano na Mostra São Paulo.

Um jovem, o tal estudante do título traduzido, começa a estudar a bíblia de forma fundamentalista, não usando autocritica e nem coerência, lê o Livro Sagrado de forma literal e passa a prega-lo em sua escola, servindo de um “Missionário” estudantil. No decorrer do tempo, no entanto, ele acaba ficando cada vez mais agressivo e fechado aos dogmas cristãos, ataca por exemplo a professora de biologia por querer ensinar a teoria da evolução de Darwin, e ao seu redor pessoas começam a partilhar do mesmo ponto de vista, ainda de forma moderada, servindo de um tipo de lavagem cerebral generalizada.

O longa consegue ser perturbador por abordar temas presentes nos dias de hoje, sobretudo no Brasil onde há uma crescente onda conservadora marchando, tendo como suas lideranças principais os evangélicos fundamentalistas que visam impor sua cartilha. Serve também de um estudo, mesmo raso, de construção social de um movimento. O protagonista vem na repetição, na marra, impor seus dogmas e timidamente vai conquistando apoiadores, sobretudo os hierarquicamente poderosos, caso da diretora de sua escola que começa a dar razão ao jovem.

Contudo, é triste ver uma premissa tão bem construída e vasta ser desenvolvida de forma precária. O diretor joga inúmeras questões e as mistura numa só coisa, há algumas coisas inclusive que não fazem o menor sentido de estarem acontecendo, soa um equívoco que acaba por diminuir o potencial narrativo do longa como um todo. A forma na qual a personagem da professora de biologia, aquela que deveria ser o contraponto racional do fundamentalismo religioso, vai evaporando aos poucos é bastante questionável, principalmente por ser indulgente com aquilo que a obra critica. Outra questão incômoda é a forma maniqueísta de abordar aquele cotidiano escolar, até mesmo o embate “Religião X Ciência”, nada muito inventivo, acaba soando previsível.

Repito: É um filme incômodo, diria até que nos dias de hoje passa a ser necessário, para muitos abrirem os olhos com a questão do fundamentalismo religioso que ainda assombra a humanidade, sobretudo o Brasil. Talvez por isso mesmo me frustra ver um filme com todas as qualidades e potencialidades para ser uma obra pujante, sobretudo vindo de Rússia, um país ainda pior na questão fundamentalista religiosa. Porém, vemos ao final das contas um filme bem fraco, repetitivo e que força a marra inclusive para ser chamado de necessário.  Uma pena mesmo, quem sabe no próximo ano…

Nota: 2.5/5

Mulher do Pai

Mulher do Pai (Idem, 2016)

Saiu do Festival do Rio direto para a Mostra São Paulo tendo sido laureado com vários prêmios, dentre eles melhor direção. Quanto equívoco. Mulher do Pai é um filme competente, porém peca em se tratar de uma obra convencional e que, pasme, não se assume como isso. Tenta ser algo diferente, acaba indo por vários caminhos, se perde em todos eles e termina num marasmo completamente fútil. Até sua fotografia tão exuberante cai no âmbito da superficialidade de um cartão postal, algo bem aquém de um filme tão vasto, seja por sua temática ou mesmo por suas capacitações.

O longa se resume na vida de um pai cego, de meia idade e solteiro (Marat Descartes) tento que lidar com sua filha adolescente, em plena puberdade, num vilarejo no interior do Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai. A relação dos dois é conturbada, ela inclusive tenta achar outra figura masculina para preencher a ausência do pai. Em dado momento, no entanto, se estabelece uma relação meio édipo entre eles, explicita ao entrar em cena a professora da cidade que vem se aproximando da família, colocando a filha em xeque.

É um filme bem intencionado, com uma premissa interessante mas que não se mantem muito, soa forçado inclusive como tenta estabelecer esse princípio de édipo entre os dois, sobretudo por ser algo tão repentino. Soa incômodo também a forma nas quais os eventos vão transcorrendo, numa espécie de piloto automático, tudo previsível, quadradinho, até seu derradeiro final. É uma obra que se apresenta como experimental, mas é totalmente convencional e covarde de se assumir como tal, do contrário talvez fosse mais simpático e levado mais a sério.

As atuações não são ruins, mas não há nada para exaltar, pois a direção – ironicamente premiada – é bastante engessada e não sabe dinamizar a relação entre ator x personagem, muito menos proporcionar um desenvolvimento minimamente interessante para eles. É uma direção bastante alheia inclusive a própria narrativa que se sustenta meramente pelo trabalho de fotografia. Enfim, é um mais um filme esquecível e ovacionado de forma incompreensível, no próximo ano ninguém lembrará mais dele. Vida que segue.

Nota: 2/5

Então Morri

Então Morri (idem, 2016)

Um documentário com ares experimentais que aborda de forma decrescente a vida de uma cidade nordestina soa atrativo? Pode até ser que não, mas o longa é uma experiência incrível a ser conferida, além de uma surpresa maravilhosamente editada, incrivelmente humana e sensivelmente vasta. Apesar do título, Então Morri não é um filme sobre a morte, sim sobre a vida em toda sua plenitude, sua humanidade e sua imprevisibilidade, não há muita linearidade na narrativa, apesar de nos compreendermos que tudo ocorre naquela sociedade local, ao mesmo tempo de ter uma amplitude universal – ou seja – todos somos sujeitos daqueles acontecimentos e reféns de nossas escolhas a serem tomadas, num eterno e intenso paradoxo a ser seguido – ou vivido?

Então Morri é uma experiência das mais marcantes vividas até agora na 40ª Mostra Internacional de Cinema, me encantei, por exemplo, com as senhoras “cachaceiras, mas não bêbadas” da cidade, com o simples anseio de querer casar e constituir uma família de certas pessoa… Enfim, há tanta particularidade na vida daqueles indivíduos que é impossível não se identificar com alguma, é uma humanidade fantástica, assombrosa, perturbadora e encantadora nas quais raramente se vê, sobretudo por se tratar de gente, de indivíduos comuns como nós. Uma direção sólida, retrô e bastante inventiva, junto com sua montagem que torna a experiência inteiramente completa. Uma experiência única a ser vivida nas salas de cinemas a fim de instigar a nós a vivermos por si fora das salas. Muito belo.

Nota: 4.5/5

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