Crítica | Sicário – Terra de Ninguém

Crítica | Sicário – Terra de Ninguém

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O canadense Denis Villeneuve ganhou notoriedade graças ao seu longa “Incêndios (2010)”, com um quê de autoral, um tapa na cara do espectador com uma narrativa intimista, sufocante e desmanteladora. Sua carreira no cinema americano se consolida à medida que aperfeiçoa esse seu estilo de filmar, “O Homem Duplicado (2013)”, seu último filme, era uma gigantismo intelectual difícil de ser digerido para as massas, porém mostrava uma maturidade de diretor em plena ascensão criativa e narrativa. Tamanha maturidade se mostra em ápice com “Sicário – Terra de Ninguém”, nova obra de Villeneuve que é não só seu melhor filme, como o também um dos filmes americanos mais bem realizados neste ano, um ação construída de forma delicada, tensa, até maçante, mas sufocante em cada sequência, sob tutela de uma argumentação poderosa que se aproveita de traçar um falso-patriotismo similar ao recente e igualmente memorável “A Hora Mais Escura (Kathryn Bigelow, 2013)” para evidenciar o quão hipócrita é essa nação. Recentemente, a série da Netflix Narcos (2015-) abordou o início e aperfeiçoamento da guerra anti-drogas, devido ao tráfico internacional liderado pelo mega-traficante colombiano Pablo Escobar, contudo os múltiplos interesses nacionalistas, econômicos e políticos em torno disso mostram o quão repugnante e mentirosa é essa “defesa” dos EUA para com seus princípios liberais. Nessa questão, a série narra de forma apológica, maniqueísta e superficial, mas eis que Sicário finalmente contempla a gravidade da temática e nos brinda com um filme realmente intenso, politicamente amplo e socialmente completo.

A agente da CIA Kate (Emily Blunt) é requisita em uma audaciosa operação junto ao Serviço Secreto Nacional, comandado por Matt (Josh Brolin). O cerco é entorno dos principais donos de carteis de drogas no México, compactuados com a polícia local, trazem imigrantes ilegais, mulas e drogas para dentro dos Estados Unidos, eliminando de forma bárbara os seus inimigos, mas protegendo seus lucros e suas lideranças de forma minuciosa, entretanto Alejandro (Benicio Del Toro), um agente especial que tem uma ligação particular com os carteis e o tráfico, coloca em evidência as chances de destituir tamanha brutalidade e impor ao México à autoridade e lei. Em dado momento, contudo, Kate percebe a dualidade da operação e do próprio ofício, sendo nada mais que um peão facilmente descartada, mas afinal quem é o rei dessa situação? Seria o Serviço Secreto que a estaria usando ou o próprio Cartel os usando? Em meio a tantas questões, a resposta nos é sugerida como um tapa na cara, de forma brutal e sem dó, a guerra anti-drogas nada mais é que uma hipócrita resposta frente aos interesses contrariados dos Estados Unidos, na grande realidade a questão das drogas é moderada e controlada pela própria nação que age conforme é conveniente. A personagem de Emily Blunt é o reflexo da claridade da situação, de perceber como o patriotismo é usado de forma lobotomizadora, transforma os EUA refém de si mesmo, construtores de seus problemas internos e externos.

A argumentação é tão plausível e onipotente que nos eleva, nos espanca, faz pensar, refletir, nos sentirmos incomodados e passivos, nada podemos fazer, somos exatamente como Kate, impotentes, seguindo ordens e não conformados com os acontecimentos, sufocado por nossos atos, arrependidos por fazermos parte de algo sem propósito além de impor uma nação perante outra.  O longa serve de complemento ao de Kathryn Bigelow, por retratar a hipocrisia de uma nação, que nada faz além de lutar por si, pela sobrevivência e permanência do status de potência global, a sequência final de Sicário é tão incrivelmente desoladora como foi a de A Hora Mais Escura, nos deixando aquele sentimento pessimista, de tristeza e mágoa. Decepção. Dentre todos os méritos do filme, vale destacar a construção dos personagens de Josh Brolin e Benicio Del Toro, o primeiro sendo o falsa burocrata, impõe empecilhos no que convém, mas nada que o atrapalhe, já o segundo é a essência da argumentação, a transformação do indivíduo em um bárbaro, o endosso mais rudimentar a barbárie, a banalizando, compreendendo seu processo, perpetuando-a. São performances sensacionais, de uma expressividade que nos faz sentir suas angústias, convicções, mágoas…

Denis Villeneuve pode não ter adquirido ainda a construção narrativa explícita de Bigelow, por exemplo, sua direção tenta proporcionar reações mais experimentais que visuais, vai moldando aos poucos o suspense, mas pegando pesado para o público, não há um minuto que possamos respirar aliviado, pelo contrário, estamos sempre esperando o pior acontecer, um tom pesado, pessimista, destrutivo, complementar com o a fotografia sensacional de Roger Deakins, ele nos presenteia com planos como se fossem, literalmente, as mais lindas obras de arte da pintura. A trilha sonora é eficaz, constrói uma tensão justamente por sua sutileza, quase não a escutamos em alguns momentos, mas a sentimos presente, nos levando ao êxtase total. Sicário, portanto, passa a ser uma obra-prima moderna do suspense e do thriller, um filme que não pretende ser político ou humano, quer sim ser um conto moral sobre a lei – ou a falta dela- devido a má construção social, decorrente de problemas geopolíticos muito mais extensos do que possamos imaginar. Infelizmente, uma das citações finais do filme “Vá para uma Cidade onde a Lei ainda existe. Não aqui” é uma das declarações mais destrutivas possíveis, sobretudo vendo o contexto social do México, o que inevitavelmente me fez lembrar da antológica frase do ex-presidente mexicano Porfírio Diaz: “Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos.” Nós, latinos-americanos, temos que lamentar, sobretudo pela perpetuação de ideais liberais tão equivocados e hipócritas. Todos somos reféns deles. E de nós mesmos.

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