J.J Abrams, criador de série Lost, ganhou popularidade e notoriedade graças ao seu tom oitentista e misterioso sobre estórias aparentemente banais. Se a série se esgotou por aderir mais ao nonsense do que aos planos iniciais do criador, seus rumos como produtor de cinema não poderiam ser melhores. Em 2008, Abrams produziu “Cloverfield – Monstro” no qual introduziu aquele tom místico e de puro suspense ao gênero “filme de monstro”, transformando numa divertida e inédita experiência, principalmente por evitar o principal problema desse tipo de filme: em se tratar mais sobre seus personagens do que a ameaça em si. Cloverfield tratava seus personagens de forma clínica, exaltava suas futilidades e o monstro em si era apenas uma punição para devastar uma cidade com uma população tão estéril de emoção e relevância. O desfecho do filme de 08 é um tanto que questionável, porém ainda desolador, uma continuação não era esperada, tanto que o projeto foi realizado com sigilo, porém chega aos cinemas nessa semana “Rua Cloverfield, 10”, que não é propriamente uma sequência, tá mais para uma prequência, com a mesma essência, contudo esbarra justamente no calcanhar de Aquiles: seus personagens. O primeiro longa tinha o charme noventista de ser filmado com “câmera na mão”, tornando a experiência mais verossímil e espontânea, contudo este aqui tem um tom mais convencional e clássico, aumentando a artificialidade e diminuindo o impacto. Abrams parece não ter tido tanta voz presente aqui.

No longa, a jovem Michelle (Mary Elizabeth Winstead) sofre um acidente durante uma viagem/fuga de sua realidade, ela desperta num bunker, com a perna presa, tendo sido salva pelo estranho Howard (John Goodman). Ele fala que houve um ataque e que o ar está tóxico, a humanidade está morta e há inimigos externos alienígenas dominando o Planeta. Parece algo estapafúrdio, porém logo começa a cair a ficha que realmente há algo estranho com o mundo, sobretudo com Howard que vai se revelando uma personalidade perigosa. Michelle precisa descobrir a verdade e decidir o que fazer diante de um cenário apocalíptico. O roteiro trabalho com essa desconfiança inicial, do que está de fato acontecendo, quais são as verdades e mentiras, a empatia entre o público e seus personagens, só que depois de decidir qual rumo acolher, o texto começa a perder força por apostar em reviravoltas múltiplas, o que cansa e não gera muito impacto. Ao contrário, a impressão que eu tive era que o filme caminharia por essa estrada em prol de “surpreender”, mas se torna apenas previsível.  É compreensível a preocupação do diretor Dan Trachtenberg em não querer repetir fórmula do longa anterior, contudo é equivocado adesão ao tom convencional em prol da repetição. Por conta disso, não há muita identidade em sua direção, ela é eficiente em gerar momentos de susto e aflição, apenas não gera singularidade como antes.

Achei ótimo ver John Goodman, um ator muito subaproveitado por Holywood, sendo testado e com um papel que comprova sua capacidade como ator, ele não só é o melhor do filme como sintetiza toda a paranoia conspiratória comuns nos anos da guerra fria. A protagonista Mary Elizabeth Winstead é artificial demais para o papel, a impressão que dá é tentar torna-la uma nova Ripley da franquia Alien, em vez de torna-la apenas uma peça para esse universo estéril e paranoico. “Rua Cloverfield, 10” consegue ser inferior ao primeiro, apesar de mostrar como é fecundo o gênero, sobretudo como Cloverfield é um monstro tão fascinante, que pode ainda nos render bons momentos. Só que eu vejo um daqueles casos nos quais uma série de televisão daria mais liberdade e oportunidade para o material, abrindo maiores possibilidades. Particularmente eu fico na torcida para que troquem a opção de um terceiro filme e levem para a televisão, eu quero ver mais desse monstro, a torcida pela criatura não é por acaso, tanto este filme quanto o anterior deixam claro que somos os maiores inimigos da humanidade, precisando sermos parados. Sejam por quem ou pelo o que. Até porque não temos como nos defender nos últimos tempos, né?

OBS: Quanto menos você souber, melhor será sua experiência!

TRAILER LEGENDADO

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