Crítica | Pendular

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Pendular (2017); Direção: Julia Murat; Roteiro: Julia Murat, Matias Mariani; Elenco: Raquel Karro, Rodrigo Bolzan, Neto Machado, Marcio Vito, Felipe Rocha, Renato Linhares, Larissa Siqueira, Carlos Eduardo Santos, Valeria Berreta, Martina Revollo; Duração: 108 minutos; Gênero: Drama; Produção: Julia Murat, Tatiana Leite; Distribuição: Vitrine Filmes; País de Origem: Brasil, Argentina França; Estreia no Brasil: 21 de Setembro de 2017;

A primeira cena de Pendular, ainda que sutilmente, diz tanto sobre o que veremos a seguir no filme, mas a cineasta Julia Murat parece fazer questão de que cada aspecto seja igualmente cheio de significados e simbolismos. É uma obra de arte, realmente, por mais clichê que o seja dizer. Mas o cinema é, afinal, uma arte, e Julia Murat uma artista, em todas as suas formas. Assim, Pendular oscila entre os meios, ou as artes, para se tornar, mesmo, pura poesia.

Um filme maduro e que, independentemente do profundo mergulho na singular vida de seus protagonistas, torna-se relacionável de uma forma universal, arriscaria dizer, muito por como representa o estado em que se encontra a relação entre os dois. O reconhecimento se dá através justamente do trabalho da artista, ou cineasta, que tem a competência de sintetizar e estabelecer essa relação com tal sensibilidade que é impossível não se emocionar.

O emocional, porém, advém aqui do sentido literal da palavra, dada a amplitude que é conquistada. Há uma conexão, senão imediata, então decorrente aos eventos, que torna a história desses personagens tão próximas e intrínsecas às nossas, numa busca por equilíbrio que aos poucos demonstra como os lados se consomem, numa relação e na própria vida em si.

A beleza da fotografia é exuberante, ainda que, assim como muito no filme, sutil. Mas as ambições são grandes, e igualmente correspondidas com grandeza. Contudo, é um trabalho que envolve tantos aspectos relacionados simultaneamente em perfeita sincronia. A “dança das cadeiras” interpretada por Raquel Karro é impressionante, muito pela maneira na qual é desenvolvida, mas numa coreografia que vê toda sua intensidade capturada com tamanha reciprocidade.

Enquadramentos como dessa determinada cena nos transportam por esse retrato, numa espécie de pintura que ganha vida e se liberta da estática na qual antes se encontrava. Debatendo também, portanto, sobre a questão do espaço. Não somente aquele que estes dois artistas dividem, na maior parte do tempo em si e entre si, mas com aqueles colegas que trabalham no atelier ou dos passageiros mais corriqueiros, meros espectadores, que vez por outra dão as caras ali.

Os habitantes não só são representados pelo espaço que habitam, como o inverso aos poucos também se torna verdade, onde encontramos refletidos nos protagonistas essas desenvolturas das instalações, coreografias e ilustrações que encontramos por ali. As disputas, os conflitos e a expansão de um sobre outro vão permeando a narrativa não para criar uma analogia óbvia, e sim para contemplar o inevitável.

O coletivo e o individual são questionados de maneira brilhante por Julia Murat, não à toa as cenas de sexo se fazem como o são, deslumbrantes. Diferente da fita instaurada no chão, no entanto, não há qualquer linha que separe o particular do compartilhado, e a privacidade se esvai enquanto é depravada. De formas diferentes os protagonistas invadem o espaço alheio, mas quando o partilham é excepcional.

Rodrigo Bolzan faz um bom trabalho com seu personagem, o protagonista masculino, que recebe um desenvolvimento mais existencialista, numa busca por algo que se perdeu, onde as linhas (ou o cabo) agora são meros ornamentos, que se alastram em desordem e incoerência. Ocupa e, às vezes, infelizmente parece dominar.

Aí entra Raquel Karro com sua atuação brilhante. Conforme o espaço dele começa a crescer, é óbvio que ela começa a se sentir sufocada. Aparenta ser, também, uma forma de dizer como a mulher perde, pela imposição patriarcal, o controle sob seu próprio corpo.

O corpo é a ferramenta de trabalho da personagem, mas um trabalho que é muito mais do que o ordinário do cotidiano comum. Mas não menos diferente. A força da atriz, porém, é tanta, da cabeça aos pés, que sua atuação se sobressaí a todo o restante, numa entrega descomunal do físico e emocional. Julia Murat parece perceber isso e, no final, tira proveito. Que ganha é o espectador, numa catarse memorável em meio ao oscilar que é se sustentar; como si próprio(a), liberto(a).

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Crítica | Pendular

Pendular (2017); Direção: Julia Murat; Roteiro: Julia Murat, Matias Mariani; Elenco: Raquel Karro, Rodrigo Bolzan, Neto Machado, Marcio Vito, Felipe Rocha, Renato Linhares, Larissa Siqueira,

Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Edição
Summary
80 %
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