Título Original: Saul Fia

Direção:  László Nemes

Roteiro: László Nemes e Clara Royer

Elenco: Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn, Todd Charmont

Produção: Gábor Sipos e Gábor Rajna

Estreia Mundial: 15 de Maio de 2015 (Festival de Cannes)

Estreia no Brasil: 04 de Fevereiro de 2016

Gênero: Drama/Thriller

Duração: 107 minutos

Classificação Indicativa: 14 anos

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Se há um tema cujas particularidades sempre são complicadas de serem relatadas, esse é, sem duvida, a Segunda Guerra Mundial, ou melhor, qualquer guerra. O diretor László Nemes, ciente desse problema, abre mão do tradicional estilo de abordar esses conflitos; e com uma profundidade de campo inexistente e com uma câmera que sempre acompanhando o protagonista pelas costas, nos transforma não só em testemunhas, mas também em participantes – como se estivéssemos acorrentados – apenas esperando a nossa hora de escapar ou de morrer. E se em A Lista de Schindler, Spielberg nos dava alguma esperança de que alguma felicidade poderia sair daquele local; László é categórico em comprovar o contrário.

A película se situa em 1944 durante os horrores de Auschwitz. Acompanhamos Saul – um prisioneiro judeu húngaro membro do “Sonderkommando” cujo trabalho nada mais é do que retirar corpos das câmaras de gás em busca de alguma misericórdia ou alguma sobrevida (como se fosse possível voltar a ter uma vida normal após ver seus semelhantes serem dizimados um por um). Depois de uma dessas “sessões”, ele vai fazer a limpeza e se vê diante de um garoto em seus últimos suspiros de vida antes de morrer após a injeção do gás. A despeito de não poder demonstrar a sua aflição, percebemos, pelo olhar de Saul, que parte dele morrera junto com a criança e a partir desse momento ele inicia a jornada para tentar enterrar o menino de uma maneira digna, como seu filho fosse – nem que isso lhe custe o pouco de vida que ainda restou.

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Filho de Saul não é um filme fácil de assistir. Não porque é gráfico de mais, ou porque é complexo. Nada disso. O longa é pesado, tem um aspecto de morte e, mesmo que não mostre explicitamente o que está acontecendo, o universo diegético nos faz inferir tudo o que está ocorrendo e a grande questão é que não queremos isso. Por exemplo, no início da projeção temos a cena em que Saul está aguardando fora de uma câmara de gás e, sem o quadro sair da cara dele, apenas ficamos escutando os gritos, o desespero e, por fim, as mortes. E o pior de tudo é que estamos atados ao protagonista, não podemos fazer nada – assim como ele. Isso vai se repetindo durante toda a produção e é apenas desesperador.

Laszló Nemes é o diretor e o responsável por nos colocar dentro desse universo de uma maneira, arrisco-me a dizer, insanamente real, dificilmente vista em tela. E se Alan Resnais no célebre documentário Noite e Neblina se referia que nenhuma descrição ou imagem conseguiria retratar o sentimento constante de medo e pavor (“No description, no image can reveal their true dimension: endless, uninterrupted fear”), em o Filho de Saul, Nemes consegue nos trazer um pouco dessa agonia a ponto de imaginarmos: se só de assistir, como espectador, o sentimento de medo é onipresente, imagina como foi viver isso na pele? Ou pior, como assistir à morte de seu filho sem poder fazer absolutamente nada senão tentar dar-lhe um enterro digno?

Grande parte desse sentimento advém da escolha do diretor de usar uma razão de aspecto que se assemelha a um quadrado (1.37:1, vulgo 4×3); do fato de compor os planos sempre de forma a nos colocar atrás do protagonista – isto é, parecendo que estamos o acompanhando o tempo todo – e, principalmente, pela quase ausência de profundidade de campo, ou seja, quase não vemos o que se passa aos arredores. Esses três aspectos são essenciais para criar o clima claustrofóbico da fita. Além disso, a excelente mixagem e edição de som são fundamentais para auxiliar nessa imersão, pois, como já referi antes, o diretor não explicita o que está ocorrendo, mas é possível escutar os gritos, os tiros, o desespero, as mortes. E sim, isso é suficiente para que tenhamos uma pequena noção do horror.

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Ademais é necessário, também, dar os devidos créditos ao ator Géza Röhrig que, em seu primeiro papel para a tela grande, nos entrega um personagem como Saul. Ele não pode demonstrar o seu desespero ou a sua tristeza com o que se passa no campo de concentração, contudo, podemos observar pelo seu olhar que não há mais esperança ou vida a ser contemplada. E é incrível observar a sua performance, principalmente quando a câmera está praticamente grudada em seu rosto. Desde a forma como ele responde aos acontecimentos até o fato de mostrar indiferenças a estes, percebemos a exaustão de Saul e, claro, da sua cada vez mais certeza da morte.

O Filho de Saul, enfim, já se mostra um dos candidatos a melhor filme de 2016, seja pela sua relevância temática e histórica, seja pela importância técnica que apresenta (não deixando de ser uma aula de direção quando o objetivo é trazer a claustrofobia para a narrativa). Além de ser mais um registro de uma passagem da humanidade que, conquanto tenha ficado no passado, se mostra sempre presente quando se vê os discursos de incitação ao ódio que são propagados por aí. E é sempre bom lembrar: tudo começou num tempo de crise na Alemanha…

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