Sempre fui ávido fã de Woody Allen, diretor que constrói uma visão de mundo na qual eu me identifico bastante.  Beirando já os 80 anos, Woody não abriu mão de render ao menos um filme ao ano, o que me deixa sempre ansioso para seus próximos projetos, agora mesmo, por exemplo, enquanto escrevo sobre seu quadragésimo quinto filme, ele já está gravando seu próximo. É um baque para mim dizer que  “Homem Irracional” é um filme cheio de equívocos e totalmente desencontrado com seu tom. Inclusive, não apresenta elementos comuns em todas as obras de Allen, sendo um filme aquém das particularidades autorais do diretor, uma decepção para aqueles que esperavam uma obra acima da média, como foram os recentes Blue Jasmine e Meia Noite em Paris. 

Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é um professor de filosofia em plena crise existencial, indo começar a lecionar em uma respeitada instituição, há várias lendas e “misticismo” em torno de sua imagem, não demorando muito para ele se envolver com a colega de trabalho Rita (Parkey Posey) e sua aluna Jill (Emma Stone). Contudo, nem mesmo os envolvimentos sentimentais o fazem preencher o vazio e a carência de razões para viver, até que, subitamente, ele escuta em um café a confissão de uma mulher que será injustiçada por um corrupto juiz, desejando sua morte. Eis que Abe encontra naquele objetivo uma oportunidade para fazer diferença na humanidade, tendo em vista mudar também se sentir bem consigo mesmo, independente dos códigos morais que regem uma sociedade civilizada. É o pano para um drama criminal pra lá de meia-boca, infelizmente, aquém das obras-primas que o próprio diretor fez como o antológico “Crimes e Pecados”, também baseado na obra de Dostoievski “Crimes e Castigos”. Até é interessante o embate filosófico e moral, afinal de contas, tirar a vida de alguém em detrimento de um bem coletivo é moralmente aceitável ou não? Contudo o personagem principal é tão grotesco que não passa empatia para o público. Li muitos comentários que classificavam a performance de Phoenix como ponto alto pelo fato dele não aderir a caricatura de um alter-ego de Allen, contudo para mim foi este o problema maior de sua performance, tentou dar um gigantismo e seriedade que não combina nem com os roteiros de Allen e tão pouco com sua personalidade. Entretanto, sua entrega física e emocional são, de fato, notáveis, ainda que fora de tom. Emma Stone continua sendo uma musa carismática e angelical, já Parksey Posey encanta e rouba a cena nas suas ótimas participações.

A fotografia é complementar a narrativa, belíssima, sendo a principal qualidade do longa. O roteiro é raso e superficial na abordagem filosófica, o desenrolar do crime é meio patético, há a citação vaga de Hannah Arendt e “A Banalidade do Mal”, algo que merecia um desenvolvimento maior, podendo ter salvado o longa do marasmo. Infelizmente não acontece, temos uma filosofia repetitiva, ainda que reflexiva, uma crítica a futilidade da classe média já vista anteriormente de forma muito mais incisiva… Infelizmente, “Homem Irracional” tinha elementos para ser um dos grandes feitos na carreira do diretor, contudo suas altas pretensões acabam o prejudicando e tornando a obra nada mais que uma aborrecedora masturbação filosófica e verbal. Algo que talvez nem o próprio Allen tenha paciência.

Na expectativa do próximo!

TRAILER LEGENDADO

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