Crítica | Herança de Sangue

Crítica | Herança de Sangue

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O Mel Gibson passou a ser uma figura extremamente polêmica decorrente de seus escândalos de agressão a ex-mulher, seu vício em álcool e sua personalidade para poucos amigos. Ironicamente ele popularizou graças ao cinema de ação, fazendo personagens idênticos a sua personalidade, sendo seu auge o Mad Max original, inclusive com o tom machista que o interprete emprega na sua vida. De uns anos pra cá, o astro superou o alcoolismo e tenta se recolocar na indústria que, convenhamos, nunca foi muito severa com homens com perfil abusivo. Herança de Sangue é a síntese da tentativa de redenção de Mel Gibson, retornando aos personagens que o consagraram porém os humanizando, desconstruindo o eventual “monstro” a qual ele possa ser ou não. É uma proposta questionável, contudo eficiente por se tratar de uma obra de gênero bem eficiente, divertida e dosada de sentimentalismo, talvez até pelo fato de Gibson apenas atuar e não dirigir, diminuindo os encargos de auto-perdão.

De todo modo, é um projeto corajoso principalmente por levantar a bandeira do ator até então decadente e exalta-lo como uma figura humana, por mais errado que tenha sido, tenta se reerguer. Não por acaso, essa semana durante o Festival de Cinema de Veneza,  o mesmo se envolveu em mais uma polêmica, atacando a indústria e seus produtos, como os filmes de super-heróis. É uma figura de personalidade forte, por mea culpa que faça, continuará com o tom arrogante. Sem querer entrar nesse mérito em julga-lo, apenas considerando os fatos.

O longa é uma mistura de filme de estrada (road movie) com ação alá Mercenários e uma pitada de suspense que lembra Busca Implacável (Taken). O Mel Gibson é um ex-presidiário, vive no meio do deserto em condicional. Um belo dia sua filha (Erin Moriarty) o reencontra, após falhar em uma missão importante de uma gangue do cartel mexicano. Eis que o mundo cai pros dois, os forçando a fugir em prol da sobrevivência. É muito difícil não associar o filme com o Mad Max, não só por seu cenário meio distópico e desértico e nem por ter o mesmo protagonista, sim pelo fato de ter como alvo a busca por sobreviver, resistir e lutar em prol disso até o fim, de forma sanguinária se possível. É um Mad Max em busca da redenção, tendo a paternidade como principal motivo para isso, sem perder sua essência bronca e rude.

A dinâmica dos dois, pai e filha, é extremamente contagiante. Ambos estão numa química singular, com uma vontade de atuar misturada com leveza. Mel Gibson não é um ator do estilo canastra, também não pode ser considerado um ator incrível. Contudo, não podemos tirar o mérito de sua competência em ainda acrescentar personalismo a um tipo de personagem totalmente clichê, no qual é bem possível ser uma das personalidades dele em seu cotidiano. Entretanto, ele torna aquela figura dúbia um pai redimido / oprimido, um misto de anti-heroísmo com heroísmo. Composição arrisca por se tratar de quem se trata, porém eficiente e instigante.

O roteiro pode não ser um deleite, mas apresenta uma solidez interessante, sobretudo em se aproveitar do ego do seu protagonista para critica-lo como rolo compressor de todos os eventos que transcorrem. Se baseia principalmente no conceito da paternidade não ser uma dádiva redentora e que certos pais servem mais como anti-heróis -se não vilões – do que heróis. É interessante, talvez se não trata-se de um filme de ação surgisse uma dramaticidade a altura do seu potencial. Enfim, não tenho do que reclamar, pois nas propostas feitas pelo longa, me soou eficiente e divertido, não meramente um fetiche. Mad Max pode não ser o pai do ano, mas sem duvidas é um dos mais marcantes dessa geração.

TRAILER LEGENDADO

 

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