Confira, também, a crítica em vídeo, de Márcio Picoli, clicando no player acima!

Elis (2016)

Direção: Hugo Prata

Roteiro: Luiz Bolognesi, Hugo Prata, Vera Egito

Elenco: Andreia Horta, Gustavo Machado, Caco Ciocler, Lucio Mauro Filho, Júlio Andrade

Duração: 115 minutos

Gênero: Cinebiografia, Drama, Musical

Produção: Fabio Zavala

Distribuição: Downtown Filmes/Paris Filmes

País de Origem: Brasil

Estreia no Brasil: 24 de Novembro de 2016

Censura: 14 Anos

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Ledo engano crer que biografias, ou cinebiografias se preferir, devem cobrir todo e qualquer aspecto da vida daquele que retrata, algo que se faz provavelmente quase impossível. Afinal, encontrando-se numa narrativa ficcional, a história precisa moldar-se, por vezes, a convenções que tornem seu desenvolvimento crível e funcional.

Não quer dizer, no entanto, que não seja necessário fazer jus a quem é retratado. Muito menos que não se deve ser fiel à personalidade da figura que determinada biografia retrata. É exatamente ao omitir e se omitir, abrindo mão de elementos de maneira até conservadora, que o filme de Hugo Prata falha quase que por completo.

É uma grande tristeza, na realidade, as razões de Elis falharem como uma cinebiografia. Não só porque não faz jus a uma das maiores cantoras de nossa história, da história do nosso país, mas porque desperdiça os próprios talentos que se veem envolvidos na produção. Mas dói, também, pela forma fajuta com a qual apresenta Elis Regina a novas gerações, deixando de lado tão mais do que devia, mas sem exatamente saber justificar as razões pelas quais omite determinados elementos que se fariam fundamentais à trama do filme. A consequência é devastadora quando se encara a obra no todo.

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É tanto o descaso da obra com elementos chave para narrativa que torna difícil até contextualizar a cinebiografia em algum período de tempo. O que só se agrava ainda mais quando Hugo Prata e companhia inserem situações e acontecimentos que, até o momento, não condiziam com aquilo ao que se assistia. A mudança abrupta se faz fatal aqui, jogando Elis a um nível que flerta com o cafona, ainda que não perceba, por si próprio, o quanto está mergulhado nessa confusão que cria. Além disso há uma falta de tato imensa no momento de algumas transições, a exemplo da intrusiva e ilógica trilha sonora que acompanha a entrada do Regime Militar na narrativa. Isso porque, aparentemente, segundo um diálogo qualquer, já se fazia presente na vida de Elis Regina, mesmo que o filme não demonstrasse interesse algum em mostrar isso antes. Uma omissão que nem se faz sentir frente ao que o filme fará posteriormente.

Essa falta de sensibilidade na condução das transições pelo qual o filme e a própria Elis, aqui superficialmente, passam, é uma incompetência da parte de Hugo Prata, que deixa a desejar ao não exibir capacidade de manusear ou sequer construir uma identidade visual consistente em seu filme. Na realidade, por mais que ele queira dizer o contrário, Elis é de uma estética novelística, e quadrada. Tal estética, quando bem-feita, pode até se fazer digerível, mas no caso em questão chega a ser irritante a falta de apuração técnica dentro das próprias cenas. As inúmeras e desnecessárias variações de tomadas (takes) dentro de uma mesma cena, muitas vezes, se dão com erros de continuidade grotescos, com atores mal posicionados em cena, com um certo descaso pela estética. O problema não é nem para o público, onde muitos possivelmente sequer vão sentir-se incomodados. O problema mesmo reside no quanto Elis, como filme, perde em chances, desperdiçando potencial.

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O que é uma pena por duas grandes razões: a primeira sendo a efêmera, mas espetacular participação de Júlio Andrade, irreconhecível e completamente imerso em seu personagem. Tendo ele somente algo mais para uma ponta do que grande participação, o destaque do filme, como não poderia ser diferente, é a Elis Regina de Andreia Horta. Da quase inexistência de coisas que o filme nos deixa levar para casa, em nossas memórias, sem dúvida alguma que são elas o sorriso e o frenético, ainda que doce, balançar de braços da atriz, que captam uma aura espetacular para sua personagem, tornando esta Elis Regina vista aqui em uma personagem arrebatadora. Ou seria a atriz que se torna tal?

Infelizmente, é ela também vítima da insensatez de adaptações biográficas, que em Elis vão de encontro diretamente ao ideal de açucarar a imagem da figura e torna-la mais afável do que a realidade. O que acontece é que impera uma sensação de que aquilo que estamos vendo é falso e a falta de justiça à própria história da personagem, aqui relatada de forma velada numa atitude que traí ao filme por completo, principalmente quando encaminha-se para um destoante e desconcertante encerramento mórbido, regado ao que parece até ser um possível erro de continuidade ainda mais grotesco. O baque é imenso justamente porque não devia estar ali, porque o filme de Hugo Prata adia a realidade para quando convém utilizá-la na trama. Manipula e falsifica, faz feio e deixa de ser elegante. Elis, como filme, até aspira a uma bela melodia mas, recheado de notas fora do tom, cria um retrato frustrante.

Trailer:

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