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Grande vencedor do Festival de Gramado desse ano, “Como Nossos Pais”, da diretora Laís Bodanzky, é um filme mascarado de drama familiar. É a partir da dissecação de uma família comum de classe média que nasce uma narrativa onde a mulher –e seus amplos dilemas – são o foco central. (…) “Minha dor é perceber. Que apesar de termos. Feito tudo, tudo, tudo. Tudo o que fizemos. Ainda somos os mesmos. E vivemos como nossos pais…” o trecho da música homônima de Belchior, popularizada na voz da cantora Elis Regina, não é mero acaso. Ela sintetiza dilemas sofridos por nossa protagonista Rosa (Maria Ribeiro), que precisa confrontar seu próprio passado após sua mãe (Clarisse Abujamra) confessar suas reais origens: foi fruto de uma paixão momentânea. A partir daí, Rosa entra numa jornada de auto-descobrindo, percebendo que está cometendo os mesmos erros de seus pais diante de sua frustração profissional, familiar e amorosa.

A diretora e roteirista Laís Bodanzky constrói entorno de sua personagem Rosa uma série de dilemas universais e subjetivos, de questões pessoais à geracionais, num misto de fácil identificação ao público. Ao fazer um retrato expositivo do papel da mulher na sociedade contemporânea, Bodanzky atesta as correntes machistas ainda presentes na sociedade brasileira, aos quais se “atualizaram” com o empoderamento feminino, assumindo nova vertente. Rosa obrigatoriamente precisa cuidar das filhas, trabalhar num emprego sem a qualquer identificação, apenas pelo salário, enquanto seu marido (Paulo Vilhena) fica no seu mundinho de ONG’S e militância – uma bela crítica aos “esquerdomachos”.

Rosa é uma figura racional, sempre optou pelos caminhos mais seguros em detrimento dos seus sonhos pessoais, achando que o menor espaço conquistado era seu máximo. Seu real sonho é ser escritora, mas teme pelas incertezas de não conseguir prover sua família. Não é feliz no seu casamento, mas não tem coragem de partir para o divórcio, principalmente pelas possíveis consequências que podem afetar suas filhas… É interessante pensar a quantidade de Rosas que nos deparamos ao refletir sobre o filme. Quantas são as mulheres que vivem sob uma fachada familiar temendo reconstruir a vida? E as que precisam leiloar seus sonhos em prol de questões financeiras e inseguranças em se incluir em meios dominantemente masculinos. A (s) mulher (es) Rosa (s) sofre ainda de dilemas que a geração de sua mãe sofreu e achou que havia superado, quando estes apenas se mascararam e ainda dificultam a ascensão plena feminina – a destituição da presidenta Dilma Rousseff é uma prova viva disso.

“Os homens tem várias amantes durante a vida. Eu só tive um”, a frase proferida por Clarisse, mãe de Rosa, é mais uma reflexão da hipocrisia da sociedade. Clarisse é uma pessoa ciente de seus atos e seu potencial. Diferente de sua filha, evita se curvar perante os dogmas patriarcais, vivendo como bem entende, seguindo seu próprio caminho. É uma personagem que esbanja esperança para os próximos tempos, numa proposta para as mulheres serem quem elas são, incluindo ousarem, transgredirem e não se arrependerem de seus atos. A relação entre ela e sua filha é realizada de forma bárbara, principalmente por fugir de caminhos óbvios, optando por elaborar uma (re) construção, onde uma vai conhecendo a outra de forma espontânea e não forçada.

A câmera de Bodanzky evidencia a discrepância da relação entre homens e mulheres no contraste de cenas, onde Rosa aparece acordando as filhas, as arrumando para a escola, enquanto seu marido dorme calmamente. É de tamanha sutileza como ela retrata questões tão atuais e relevantes de forma singela, sem partir no lugar comum. A casa da protagonista acaba servindo como um retrato de uma relação disfuncional, onde o homem tenta se sobressair perante a mulher, coisa mais visível no mercado de trabalho, entretanto muito presente na vida familiar. A diretora realiza aqui seu trabalho mais inspirado e maduro, não só por retratar uma mulher presente na vida de todos nós, espectadores. Também por usar desse retrato para propor, além de uma reflexão, uma alternativa: deixar que elas percorram seus próprios caminhos, independente de tudo.

A performance de Maria Ribeiro é de uma complexidade imensurável. Variando de um reflexivo silêncio à uma exaltação verborrágica, ecoando barulhos superiores à quaisquer gritos. É um trabalho minucioso e de uma capacidade unidimensional, Ribeiro desempenha uma personagem das mais marcantes do cinema nacional, assim como foi a Clara de Sônia Braga, ano passado, em Aquarius. Clarisse Abujamra igualmente detém um desempenho ímpar, realizando um papel iluminado, talvez o de maior carisma de todo o filme. É curioso que as duas personagens são antítese uma da outra e por conta disso, se não fosse o trabalho inspirado das duas atrizes, cairia o risco da relação cair no caricatural. Paulo Vilhena também tem bons momentos, talvez em seu melhor papel de toda sua carreira, demonstrando um potencial ao qual, sinceramente, não imaginava que o tivesse. O elenco ainda conta com grandes participações de Jorge Mautner e de Gilda Nomacce, com momentos iluminados.

Eu acho extremamente arrogante dizer que um filme é obrigatório, porém “Como Nossos Pais” é uma obra de tamanha grandeza e singularidade. Vindo num momento extremamente oportuno, precisando atingir o máximo de pessoas, sobretudo pelo momento crítico que o nosso país passa. Portanto, é um longa que tem muito a dizer para o Brasil, sobretudo ao público feminino. É uma obra extremamente bem estruturada e socialmente forte e só por isso já faria um grande filme. Entretanto, é um filme de momento em momento, não só no seu comentário social.

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