Crítica | A Cidade Onde Envelheço

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A Cidade Onde Envelheço (2016); Direção: Marília Rocha; Roteiro: João Dumans, Marilia Rocha, Thais Fujinaga; Elenco: Elizabete Francisca Santos, Francisca Manuel, Paulo Nazareth; Duração: 99 minutos; Gênero: Drama; Produção: Luana Melgaço, João Matos; Distribuição: Vitrine Filmes; País de Origem: Brasil, Portugal; Estreia no Brasil: 09 de Fevereiro de 2017;

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A estática parece incomodar a qualquer um, quer seja ela a forma na qual se dê. Da vida cotidiana das rotinas que tentamos fugir, mas das quais sem não sabemos como sobreviver, das paisagens, muitas vezes cinzas, que se assomam frente aos nossos olhos, em selvas de pedra que cada vez mais se erguem aos céus. Às estrelas logo já não poderemos mais lançar nossos olhares, se é que há ainda quem o faz. Mas a busca, incansável, por algo diferente em meio a isso tudo, talvez seja o que, de fato, nos mova dia após dia. A busca por uma intimidade singular, de nos fazer arrancar de cada vento aquilo tudo que é possível. O contrário é verdade também, quando nos cansamos de tentar? Quando nos encontramos exaustos frente a algo que parece também incansável, o inverso também não é a realidade?

Marília Rocha parece tão inspirada pela vida quanto ciente de suas cicatrizes. Das suas alegrias e das dores que se querem fazer mais constantes. Suas personagens, duas conterrâneas portuguesas que se encontram em Belo Horizonte, conversam tanto entre em si como com o público de A Cidade Onde Envelheço. Um tema universal tratado numa história que tem a singularidade intimista que suas personagens tanto buscam, seja em um novo caminho, uma nova casa e uma nova realidade, ou naquilo que se faz de tão presente atualmente e que há tanto deixamos para trás. Um paradoxo contemporâneo que se coloca às nossas frentes num estudo, numa análise, da diretora e roteirista que tem tanta sensibilidade e delicadeza quanto parece ser possível, e necessário, para entregar uma obra tão eloquente e contundente como esta.

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De uma urbanidade banal e, por isso mesmo, tão relevante, A Cidade Onde Envelheço conversa de igual para igual. Numa juventude, pois Francesca e Teresa representam, sim, uma boa parcela da juventude contemporânea, que encara mais do que parece possível. Que tem encargos e responsabilidades não só de escolhas suas, mas que tornam a pressão sobre tudo ainda mais desafiadora. Do mais simples dos motes, como o reles aluguel de um apartamento próprio e todas as ponderações que com isso se seguem, às mais complexas nuances que enfrentamos, cotidianamente ou não. O cotidiano, inclusive, é uma dessas. Uma realidade que encaramos por escolha ou por obrigação, que lutamos para relutar ou para sobreviver, como queiramos. A Cidade Onde Envelheço é um filme que fluí num ritmo que assemelha ao nosso, que se faz nosso.

Dos quadros mais apertados nas paisagens mais contidas, sem o belo, que falta ao horizonte; ao flutuar da câmera de Ivo Lopes Araújo, diretor de fotografia, enquanto torna o corpo de Elizabete Francisca num símbolo de movimento propulsor, de uma revolução que vive limitada pelas paredes que teimam em se enclausurar. Claustrofóbica cidade onde se escolhe viver, onde se escolhe envelhecer. Brilham as atrizes, um roteiro simples mas que vai além do que se espera à competência. Brilha Marília Rocha que, como ninguém conseguiria, faz aqui o que poderia ser. Que torna a técnica num espectro emocional, que faz da sua competência uma ferramenta para se estender ao sentimento comum, sintetizando de forma incomum o que nos torna também assim.

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