Título Original: Boyhood

Direção: Richard Linklater

Roteiro: Richard Linklater

Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater, Elijah Smith

Produção: Richard Linklater, Jonathan Sehring, John Sloss, Cathleen Sutherland

Estreia Mundial: 11 de Julho de 2014

Estreia no Brasil: 30 de Outubro de 2014 (Limitado a RJ e SP)

Duração: 165 minutos

Gênero: Drama

Classificação Indicativa: 14 Anos

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Richard Linklater gosta de nos trazer grandes histórias. Grandes histórias no que me refiro ao tempo, quantitativamente. Na trilogia do “Antes do Amanhecer” ele esperou nove anos para fazer cada continuação, não só respeitando toda a formação original do elenco, como também mostrando o quanto os personagens haviam evoluído em suas visões. Se já não bastasse a ambição desta trilogia, agora em Boyhood ele reserva 12 anos e nos dá, em forma de filme: um retrato da sensibilidade e da fugacidade da vida; um retrato do crescimento e de como o tempo imprime marcas nas pessoas; uma discussão sobre as incertezas do futuro, aliadas ao conforto do presente e o medo de seguir em frente. Linklater traz uma obra tão complexa do ponto de vista sensorial, mas, ao mesmo tempo, simples do ponto de vista narrativo. E Essa antítese faz com que Boyhood seja uma das produções mais honestas e profundas dos últimos anos.

No início da produção, o primeiro frame é o céu, imenso, cheio de nuvens formando um todo; logo depois, há um plano mais fechado em Mason, ou seja, saímos da plenitude que são nossas vidas e vamos agora para o enfoque nessa família que nas próximas três horas, será a nossa também. Como me referi antes, o enredo é bem simples, linear e sem grandes reviravoltas ou acontecimentos. Pra ser um pouco mais exato, ver Boyhood vai nos passando a sensação que temos ao perceber como um sobrinho ou o irmão mais novo, que antes era uma criança, cresceu – e o mais engraçado de tudo – como não percebemos as transformações que vão e que estão acontecendo. O tempo vai passando tão rápido e natural que, quando nos damos conta, Mason Jr. já se transformou num adulto. Isso se deve, em parte, a genialidade de Linklater de nos trazer para a realidade através de referências dos acontecimentos dos últimos anos como o momento em que eles vão para o lançamento do sexto livro do Harry Potter ou quando Mason está assistindo Dragon Ball. Todas esses pequenos detalhes asseveram toda a verossimilhança da produção que é assustadoramente real.

No que se refere ao roteiro, ao saber da forma como produção se deu, fiquei bastante intrigado, haja vista as dificuldades que vão aparecendo e que são inerentes ao tempo, ainda mais quando falamos de um longa que passou por 12 anos de filmagem. Linklater, claramente, foi adaptando sua história, de tal maneira que, assim como ele, vamos crescendo com o filme. Isso fica evidente ao analisarmos a quantidade de temáticas que são abordadas, quais sejam: a recorrente figura do pai ausente, que faz todas as vontades das ciranças, mas que ao mesmo tempo se torna uma válvula de escape a todas as pressões que eles vão sofrendo em casa, seja com os problemas de agressividade do padrasto, seja pelo fato de vivenciarem a mãe sofrendo, em um primeiro momento, calada com a situação; a disputa de espaço e atenção entre os jovens; o fato de querer viver da arte; como fazer diferença e ter destaque em um mundo tão concorrido? Assim como não temos uma linha definida para a nossa vida, o roteiro também não parece ter. E isso é maravilhoso, pois não somos seres constantes, estamos sempre mudando as nossas perspectivas de vida, cirando projetos, expectativas que vão ser atingidas ou frustradas e, partir delas, criamos mais e mais.

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Além disso, é incrível perceber como os conflitos são passageiros e não tão relevantes. As angústias dos personagens no início do filme vão sendo superadas pouco a pouco com o tempo. Boyhood representa a vida e não só isso, mas como ela é breve, como ela passa despercebida por nós. Quando nos damos conta, já não somos mais crianças, somos adolescentes preocupados com as primeiras relações afetivas, logo depois já estamos indo para faculdade, depois vêm o mercado de trabalho, filhos. Enfim é o ciclo da vida que vai e vem, como já nos ensinou Rei Leão há exatos 10 anos.

O mais incrível de acompanhar toda essa “evolução”, “crescimento”, o que quiserem chamar, é que os anos estão realmente passando em nossa frente. Percebemos o envelhecimento dos atores, mais claramente em Patrícia Arquette que inicia a película bem jovem e, ao final, já demonstra expressões faciais que o tempo deixou. Mais evidente ainda é o crescimento das crianças, ou melhor, dos que hoje já são adultos. O nível de realismo atingido é excepcional. Junto com isso, não há como não se impressionar com a entrega e perseverança dos atores em reservar 12 anos para um projeto que, além de tudo, poderia dar muito errado. Para a felicidade cinéfila, funciona perfeitamente e o resultado é uma das mais interessantes produções dos últimos tempos.

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Em um dos últimos diálogos da projeção, a personagem de Patrícia Arquette reproduz uma frase que, de certa maneira, resume não só o filme, mas todas a nossa existência e a forma como ela se dá: “Eu pensei que teria mais” diz a mãe triste com a ida do filho para a faculdade. Logo depois, vemos Mason percorrendo uma longa estrada que nada mais é do que a grande metáfora sobre a nossa vida: uma estrada pela qual sempre estamos percorrendo. Algumas paradas podem ser feitas, mas sempre vamos em frente esperando que “tenha mais”. É exatamente essa a sensação que a película deixa em seu desfecho: a vontade de continuar a acompanhar essa história.

É difícil conseguir finalizar o texto de um filme como Boyhood, a quantidade de assuntos e referências que abordadas pela película são infinitas, ou melhor, são muito limitadas pelas palavras, elas devem ser sentidas (e no cinema de preferência). Como eu preciso terminar, vou tentar resumir em poucas palavras o que Boyhood é: é a angústia de mudar de cidade; é a dúvida sobre o futuro; é o questionamento das pressões sociais; é o despertar da adolescência; é aceitar a diferença; é -no desfecho- aceitar que o tempo passou, mas que sempre pode ter mais, mesmo que isso não esteja evidente. Boyhood, por fim, é (a) vida: simples, fugaz e única.

Já que, aparentemente, não tenho como continuar, não tenho outras palavras para Richard Linklater senão muito obrigado pelo que me foi entregue.

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