Crítica | Ave, César!

Crítica | Ave, César!

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Os Irmãos Coen são diretores excêntricos, pra dizer o mínimo. Em sua vasta filmografia nos deparamos com obras diferentes entre si, contudo com linguagem sintomática. Se em “Onde os Fracos Não Tem Vez” (2007) a dupla usou de um tom pesado para dissertar sobre a decadência humana e social em busca por dinheiro e por sobrevivência num mundo regido por leis primárias, em “Fargo (1996)” eles falaram mais ou menos de uma temática parecida, porém com um tom mais satírico e light. Suas múltiplas vertentes narrativas permitem que seus filmes sejam extremamente irônicos ao mesmo tempo que são vastamente sérios, é o caso justamente de “Ave, César!”, novo filme dos irmãos que narra a vida de um chefe de grande estúdio, equivalente ao MGM, durante a década de 50. O cinema para os Coen passa a ser uma fábrica de transformação: Usar a tragédia da vida para transformar em obras edificantes de mentiras e fraudes para iludir o público. Um sistema, portanto, que se baseia a vender mentiras a fim de dar um novo significado a vida das pessoas, algo que parece que acontece com os próprios irmãos, desiludidos com as questões gerais da vida, resta satiriza-las e expô-las de forma cômicas, mas não deixando de lado a desolação da triste constatação da constante decadência social/moral/política/etc.

Eddie Manix (Josh Brolin) é o chefe do estúdio em questão, ele tem que lidar com inúmeras questões, seu dia-à-dia se resume a se confessar semanalmente com um padre por não conseguir largar o cigarro e mentir para sua esposa, e lidar com os pepinos dos excêntricos astros que causam idealização por parte do público mas na verdade não são aquilo que parecem ser. Caso da estrela de musicais aquáticos DeAnna Mooran (Scarlett Johanson) aparente virgem e inocente, contudo encontra-se grávida e com pai desconhecido. Outro caso central da trama é o do astro do épico bíblico “Ave César!” Baird Whitlock (George Clooney) ser sequestrado por comunistas em meio a conclusão de filmagens, causando um furor. Eddie então precisa lidar com todos esses problemas, ainda com o ego dos diretores e produtores. É uma odisseia, portanto, de um personagem que cultiva a banalidade e se encontra perdido nas suas funções, usando a fuga do cigarro e da fé cristã para justificar seus atos.

O roteiro dos irmãos Coen trabalha muito em homenagear a Era de Ouro do cinema, apresentando nuances originais do que eram os populares e predominantes filmes de gênero, como os épicos de Cecil B. DeMille ou os musicais de Gene Kelly. A argumentação é potente por não se resumir apenas em servir de homenagem, apresenta essência original, aborda de forma contundente as questões religiosas, da fé cristã, muito presentes nas questões da década de 50/60. Como é hipócrita as representações de Cristo sobretudo por aqueles que pregam aquilo que não cumprem, mais ou menos similar a termos um Bolsonaro como figura cristã e falar asneiras contra minorias e os direitos humanos. A direção da dupla consegue o máximo a essência narrativa e argumentativa, de forma a mostrar como o Cinema pode sim ser considerada como uma fábrica de mentiras, contudo é principalmente uma fábrica de sonhos. Algo que rege a vida do protagonista, quando o público percebe, tudo faz sentido e nós sentimos que de fato o Cinema é tudo na vida da dupla de irmãos. O que dá sentido e, ao mesmo tempo, não dá. Justamente, torna tudo tão mágico e inesquecível. Memorável.

Com direção de arte, trilha sonora e fotografia refinadas, aumenta a imersão e torna um dos primeiros filmes que eventualmente podem ser encontrado nas listas de finais de ano e entre os indicados aos melhores do ano na temporada de Ouro. “Ave, César!” é nostálgico, lírico e muito divertido,  um exercício de metalinguagem que nos dias de hoje vale muito a pena, sobretudo com uma mão tão satírica, irônica e séria dos Irmãos Coen. Um elenco sobrenatural que está incrível, rendendo um filme mais que um filme de bastidores, rende um filme divertido, único e nonsense. Coen sendo Coen. E eu quero ver mais disso por muito tempo.

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