Título Original: The Missing Picture

Gênero: Documentário

Ano: 2013

País de Origem: Camboja – França

Direção: Rithy Panh

Roteiro: Rithy Panh e Christophe Battaile

Narração: Randal Douc

Duração: 90 minutos

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“Na metade da vida, a infância volta à mente. É como a água doce e amarga. Eu busco a minha infância como uma imagem perdida.”

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Essas são as palavras com que se inicia o longa-metragem de documentário do diretor Rithy Pahn. A infância citada no trecho acima não é lembrada por nostálgicas brincadeiras, diversões ou descobertas, mas sim uma de tempos turbulentos onde o medo e a esperança se alternavam, vivida pelo próprio diretor, nascido em Phnom Penh. A localidade foi marcada pelo Kahmer Vermelho, regime que ficou conhecido como Kampuchea Democrático, responsável por provocar um verdadeiro genocídio no Camboja.

Pahn foi obrigado a abandonar sua vida de risos e músicas em sua cidade, assim como todos os outros moradores, deixando para trás lares e memórias de um lugar tido pelo governo como “impuro e corrompido”. Vindo inicialmente para “acabar com a injustiça e a exploração”, formou uma sociedade que dividia homens, mulheres, velhos e crianças, separando famílias, os tratando como animais, se alimentando de rações como os mesmos e vítimas de situações de trabalho desumanas.

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Todas as imagens dessa época, estão vivas apenas na mente daqueles que as vivenciaram, sendo poucas as capturadas e encontradas durante as pesquisas do diretor. A realidade, é que vivemos em um mundo onde a imagem parece ser cada vez mais importante na vida das pessoas. Celulares, internet, computadores, é um mundo conectado e cercado delas. Nota-se uma necessidade de se ver para entender o sofrimento, para se colocar em uma situação ou imaginar alguma sensação. Infelizmente isso não é tão possível com o governo Kahmer Vermelho, que não faz dele menos cruel, porém mais fácil de ser esquecido.

Durante toda a projeção o que se faz mais evidente na narração de Randal Douc, é o incômodo que o passado causa na vida atual de Rithy Pahn. Parece tentar reproduzir da sua maneira todo o período para o espectador, não só como uma tentativa de informar, mas de dividir um pouco o sofrimento que lhe atormenta. Essa sensação até nos remete um pouco ao igualmente ótimo “Valsa com Bashir”, que mesmo com todas as suas diferenças, também trazia o diretor Ari Folman atormentado com o passado. Aos 50 anos, mesmo com todas as coisas vividas com o tempo, tantos momentos de felicidade, a imagem que mais parece pulsar na cabeça de Pahn é da sua infância. Ele mesmo, já havia tido uma experiência anterior de tentar abordar o tema, com o também documentário S21 – A Máquina de Morte do Kahmer Vermelho.

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Realmente, concluir um projeto como “A Imagem que Falta” era algo necessário para o diretor, que não poderia deixar passar em sua filmografia uma reprodução de um período vivenciado e pouco abordado no cinema.  A imagem vista e apreciada por ele para representar suas memórias é a de bonecos de barro, formando os humanos, parte de uma paisagem na maioria das vezes devastada. Reproduz seu pai, com quem segura nas mãos agora com carinho e em cada rosto transmite um poucos das suas antigas sensações – feições tristes, imóveis, o que remete a condição deles perante sua situação, sendo raros os momentos que eles preenchem um cenário com clima de felicidade.

O longa causou surpresa ao conseguir uma vaga no último Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, desbancando nomes mais famosos na pré-seleção, como “O Grande Mestre“. Um total acerto da academia, mas que não chega a ser tão surpreendente ao término da sessão, afinal, não é raro estar incluído nela reproduções históricas de seus países. Também agraciado com um importante prêmio na mostra “Um Certo Olhar” em Cannes, “A Imagem que Falta” é um dos filmes históricos mais necessários já lançados, seja para conhecer um pouco mais sobre o Camboja ou para comprovar ainda mais os limites da crueldade humana.

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